Grandes Filmes: Assim Estava Escrito (1952)

Tags

, , , ,

Inauguro com este post uma série de textos que pretendo realizar sobre filmes antigos que marcaram de alguma maneira a história do Cinema. Darei preferência a obras que eram até então desconhecidas para mim, e espero compartilhar o descobrimento delas com os leitores deste blog. Paralelamente, continuarei comentando as estreias no circuito comercial.

Para a escolha dos filmes antigos tomei como base as indicações do grande cineasta Martin Scorsese que estão no livro Conversas com Scorsese, de Richard Schickel, e em uma entrevista dada pelo diretor americano à publicação Fast Company (o vídeo acima, feito pelo site Flavorwire, traz momentos de vários filmes recomendados por Scorsese).

A primeira obra que escolhi para analisar é Assim Estava Escrito, de Vincente Minelli. Segue abaixo a minha crítica sobre o filme, que foi lançado em 1952.
__________________________________________________________________

A popularização da TV no início dos anos 50 levantou dúvidas sobre o futuro do Cinema. Muitos achavam que, com um aparelho em cada residência, não havia mais motivo para a população se deslocar para assistir filmes. Talvez por causa dessa ameaça que muitas produções norte-americanas daquele momento passaram a contar histórias metalinguísticas, ligadas direta ou indiretamente  aos bastidores da Sétima Arte (Crepúsculo dos Deuses, Cantando na Chuva, Nasce Uma Estrela e até A Malvada, que diz muito sobre o Cinema através de uma trama sobre teatro). Nesse contexto, foi lançada em 1952 a obra mais abrangente sobre o desenvolvimento dos filmes em suas mais diversas fases de realização: Assim Estava Escrito (tradução tola para o já ruim título original, The Bad and The Beautiful), de Vincente Minelli.

A escolha dos personagens centrais já demonstra o interesse do cineasta em esmiuçar os meandros do Cinema. Em uma introdução inteligente, um diretor, um roteirista e uma atriz (partes distintas do processo cinematográfico) recebem ligações de um produtor decadente que deseja reuní-los em seu próximo filme. A receptividade à proposta não é nada boa, mas os três aceitam se reunir com o agente de Jonathan Shields (o produtor)  e explicam, através de longos flashbacks que reconstituem suas trajetórias paralelas, os motivos para tamanha mágoa com o ex-mentor.

O personagem de Kirk Douglas é criado através da memória de outras pessoas e nunca aparece na tela no tempo presente, quando está tentando reerguer sua carreira.  Isso dá a ele um caráter quase mitológico, que cria um paralelo imediato com Cidadão Kane. Além da estrutura parecida, centrada nos flashbacks, os filmes têm personagens principais semelhantes. Jonathan Shields, assim como o protagonista do filme de Orson Welles, chegou ao topo em sua profissão através de meios muitas vezes condenáveis. No entanto, apesar de também buscar objetivos pessoais, ele tinha algo que faltava a Charles Foster Kane: a paixão por seu ofício, no caso, a criação de filmes.

Começando do zero, apesar do passado familiar no ramo, Jonathan Shields mostra ao mesmo tempo uma grande capacidade criativa e uma alta habilidade de manipulação de seus companheiros para atingir o sucesso. É notável, por exemplo, a passagem em que aconselha a um diretor que um filme de terror que traria humanos vestidos de gatos apenas sugira a existência dessas criaturas, através de sombras e cenas escuras. Essa capacidade do Cinema de gerar medo por meio do que não é visto em tela viria a ter como seu maior exemplo de êxito o filme Tubarão, no qual Steven Spielberg entendeu, após a quebra do animal mecânico, que seu filme ficaria ainda mais assustador se o personagem-título permanecesse desconhecido durante a maior parte da projeção.

Representando um produtor da época em que esse profissional tinha amplos poderes na realização de filmes, mais até do que o diretor, Shields centraliza boa parte das decisões em suas mãos, contribuindo na escritura do roteiro e impondo a atriz principal das produções. A sua habitual arrogância faz com que ache que possa até mesmo se tornar diretor, o que resulta em um fracasso retumbante. Como se estivesse mandando um recado para a própria indústria de Hollywood, Minelli lembra aqui que cada um deve seguir sua função para o bom desenvolvimento do todo, e que um filme não é feito só de clímax: momentos menos impactantes servem, e muito, para dar ritmo a um longa-metragem.

Como bom diretor que foi, Minelli usa e abusa das possibilidades metalinguísticas e satiriza com inteligência alguns vícios do cinema americano. Exemplo disso é a cena em que Shields toma Georgia Harrison nos braços e, quando a trilha sonora parece indicar um momento romântico, ele a joga na piscina. Outra cena formidável acontece em meio às filmagens de uma de suas produções, na qual Georgia diz que finalmente está a sós com seu marido na trama do filme e, imediatamente, um travelling nos mostra toda a equipe de filmagem assistindo ao momento no estúdio, o que relembra a natureza ilusória do Cinema.

Outro mérito do cineasta, aqui dividido com o roteirista Charles Schnee, é o de repetir algumas situações que ganham significado especial quando aparecem em um segundo momento. Ao ver o desenho de diabo que fora tirado de sua casa, Georgia se dá conta que está no escritório de Jonathan Shields; depois de o produtor dizer que ela só se livraria da influência do pai quando pudesse desenhar um bigode em seu retrato, a atitude tomada pela personagem nos primeiros minutos de filme ganha novo sentido (que estabelece Shields como sua influência paterna); por fim, o hábito da atriz de ouvir o telefonema dos outros se repete em três oportunidades, e tem desdobramentos distintos.

Assim como prega Minelli durante o filme, Assim Estava Escrito não teria êxito se não funcionasse em seus diversos setores. Além do roteiro e da direção, o elenco também vai bem, com grande destaque para Kirk Douglas, que cria um personagem capaz de ser amável por algum tempo para conseguir seus objetivos, mas que nunca consegue deixar para trás a sua personalidade individualista, arrogante e egoísta. A atração criada por sua figura complexa marca todos os relacionamentos do protagonista, e é fundamental para o entendimento do final em aberto da produção.

Do mesmo modo que seu pai, Jonathan Shields chega ao topo do mundo do cinema, mas acaba decadente e odiado por muitos dentro do ramo. É através dessa trajetória circular que  Vincente Minelli desmistifica o processo de produção de filmes, sem nunca, no entanto, deixar de exaltar o fascínio que eles podem nos causar.

Nota: 9,0/10

Crítica: Heleno

Tags

, , , , , , ,

Quem for aos cinemas esperando assistir à reconstituição de jogos importantes disputados por Heleno de Freitas (1920-1959) vai se decepcionar com o novo filme de José Henrique Fonseca. Admitindo a dificuldade de gravar cenas de futebol, o diretor fez tomadas incluiu poucas partidas no corte final e optou por realizar cenas estilizadas, se eximindo de qualquer pretensão realista. Como nos melhores filmes que têm atletas como protagonistas, Heleno não tem como foco o esporte (neste caso o futebol), mas o utiliza como pano de fundo para uma tragédia pessoal – e é nesse aspecto que reside o seu maior êxito.

Craque do Botafogo e de outras equipes nos anos 40 e 50, Heleno de Freitas viveu na era anterior à consagração do futebol brasileiro como potência mundial (consolidada com a conquista da Copa do Mundo de 1958). Talvez por isso, e não só pela distância temporal, que ele tenha sido esquecido pouco a pouco pelas novas gerações. Assim, por mais que não tenha a pretensão de ser uma biografia tradicional, o filme exerce um papel de resgate da figura singular de Heleno e, fazendo isso, mostra como ele foi muito mais complexo e interessante do que os jogadores polêmicos da atualidade.

A cena que abre o filme caracteriza bem a tragédia do atleta. Já enlouquecido pela sífilis, Heleno fita alguns recortes de jornal que exaltam seus feitos como jogador e tenta os engolir, como se estivesse buscando reincorporar o seu próprio passado. O fato, no entanto, é que Heleno deixou de ser o que era ainda em vida, e o que acompanhamos nas idas e vindas no tempo proporcionadas pelo roteiro é uma história de perdas de um homem que, depois de ter tudo, enfrentou uma rápida decadência física e mental que transformou ele próprio em um nada.

Vindo de família rica e formado em direito, Heleno poderia ter seguido qualquer outro rumo profissional, mas foi atraído pela adrenalina constante vivida nos estádios. O gramado era o único lugar em que seu comportamento egoísta e arrogante o beneficiava, e o sucesso decorrente de seu talento como jogador contribuiu para a manutenção de uma rotina de excessos (repare como ele sempre fuma dois cigarros por vez), seja no convívio com mulheres ou no uso de drogas. No entanto, houve um momento em que a falta de limites acabou se voltando contra si mesmo de diversas formas.

A gana pela vitória fazia com que Heleno tratasse mal seus companheiros – dos quais cobrava a mesma raça e desempenho que tinha -, e o relacionamento conturbado fez com que saísse do Botafogo sem ter conquistado nenhum título (o amor do protagonista pelo time alvinegro é realçado pelo diretor ao nunca mostrá-lo com a camisa de outra agremiação). O seu temperamento explosivo também o tirou da Copa do Mundo de 1950, graças a uma briga com o técnico Flávio Costa. Além disso, o seu perfeccionismo o levou a retardar o tratamento da sífilis, pois detestava a ideia de ficar “fraco” e “broxa”, duas características que poderiam interferir negativamente no desfrute de suas maiores paixões: o futebol e as mulheres. A sua obstinação pelo presente, porém, só adiou brevemente o preço que lhe seria cobrado pelo futuro.

Há em Heleno de Freitas o mesmo poder de auto-destruição de Jake La Motta, boxeador vivido por Robert De Niro em Touro Indomável.  Aliás, o filme de Martin Scorsese – até hoje o melhor já feito com o esporte como pano de fundo – é a grande inspiração para o longa de José Henrique Fonseca, não só pela temática semelhante (ascensão e queda de um esportista), mas também pela bela fotografia em preto e branco do veterano Walter Carvalho, que serve tanto para realçar a beleza do Rio de Janeiro dos anos 40 como para destacar a melancólica atmosfera dos últimos momentos do craque.

No entanto, Heleno seria um fracasso se não contasse com uma grande atuação de seu protagonista, e Rodrigo Santoro, aqui em seu melhor momento na carreira, não decepciona. A transformação física oposta à de De Niro – ao invés de engordar, ele emagreceu doze quilos para fazer o personagem em seus últimos anos – é apenas uma prova de sua total entrega ao papel. Santoro vai bem tanto na fase áurea de Heleno, quando encarna o seu charme e arrogância, quanto na fase decadente, quando a sua expressão corporal cabisbaixa e seu olhar vazio retratam um homem já totalmente dominado pela loucura.

Em uma cena em que se descontrola no vestiário após uma derrota do Botafogo, Rodrigo Santoro lembra a fúria de De Niro no momento em que se debate contra a parede de uma cela no filme de Scorsese e diz: “eu não sou um animal” (veja aqui). No entanto, mesmo sofrendo a mesma decadência abrupta que La Motta, Heleno de Freitas teve uma história ainda mais trágica por não ter sequer condições de refletir sobre seus erros do passado.

Em certo momento do filme, ainda em seu auge, Heleno é questionado sobre sua rotina cheia de compromissos e responde de modo debochado: “quando eu morrer eu descanso”. Com o conhecimento do triste fim do personagem, a frase carrega uma triste ironia, já que o craque terá um repouso forçado ainda em vida e será constantemente atormentado pelas lembranças do que havia sido.

Nota: 8,0

Crítica: George Harrison: Living in the Material World

Tags

, , , ,

Por mais que isso costume passar despercebido, a música tem um papel fundamental na filmografia de Martin Scorsese, como se comprova no capítulo especialmente dedicado ao tema no ótimo livro Conversas com Scorsese, de Richard Schickel. Além de dar atenção especial à trilha sonora de seus filmes de ficção, o cineasta americano já fez uma série de longas focados no universo musical, começando por O Último Concerto de Rock (sobre The Band) e passando por No Direction Home (sobre Bob Dylan) e Shine a Light (sobre os Rolling Stones). Como sequência natural deste interesse, Scorsese realizou no ano passado mais um belo documentário sobre o assunto: George Harrison: Living in the Material World.

Com livre acesso a um amplo arquivo sobre o cantor, que inclui entrevistas, fotos, vídeos caseiros, cartas e apresentações do guitarrista, o diretor ainda contou com diversas filmagens atuais com personagens que conviveram com Harrison. O resultado de todo esse material é um interessante painel de três horas e meia sobre a música e a vida do Beatle mais avesso à fama.

Em uma das primeiras cenas do filme, Harrison aparece rezando e assinando os papéis que selaram o fim oficial dos Beatles. A sensação que temos naquele momento é que o guitarrista está bem mais aliviado do que triste por deixar a banda, e é isso que será confirmado ao longo da metade inicial do documentário, que foca sua ascensão ao lado dos garotos de Liverpool.

Mesmo tendo um talento inegável, que é comprovado ao longo de todo o filme em suas canções, George demorou a demonstrar a sua habilidade como compositor e, quando o fez, se viu em uma concorrência desleal com John Lennon e Paul McCartney, que se destacavam em qualidade e quantidade e executavam um duelo criativo a cada disco, como afirma o produtor George Martin.

Sempre lutando para encaixar suas composições nos CD’s dos Beatles, o guitarrista foi acumulando muitas músicas de sua autoria, e o término da banda acabou permitindo a reunião de todas elas em All Things Must Pass, primeiro disco triplo de um único artista a ser lançado na história.

Falando sobre George Harrison, a primeira parte do documentário não teria como deixar de tratar da ascensão dos Beatles, que é mostrada em diversas apresentações do grupo em seus primeiros anos de existência e na crescente adoração histérica dos fãs aos músicos. Antes disso, porém, é notável o resgate dos tempos de anonimato da banda, cujos integrantes chegaram a dormir em um pequeno quarto atrás da tela de um cinema pornô em Hamburgo, na Alemanha. Naquela época, Stuart Sutcliffe, que viria a falecer por conta de uma hemorragia cerebral em 1962, era o quinto integrante do grupo que viria a ser conhecido como Fab Four.

Com uma montagem sempre eficiente, que aproveita o vasto material disponível para ir e voltar no tempo sem nunca perder o ritmo, o filme dá ênfase em sua segunda metade à vida pessoal de George Harrison e a sua constante busca espiritual. Ainda dentro do Beatles, o guitarrista não se contentou em chegar ao auge do sucesso e buscou novas experiências, primeiro nas drogas e depois na religião Hare Krishna. No fundo, como todo ser humano, Harrison queria justificar a sua existência neste planeta e ter paz ao deixá-lo. Em seu caso, isso ganha uma importância ainda maior por sua crença na vida após a morte.

Sempre cercado de amigos, muitos deles conhecidos no meio musical, na indústria cinematográfica (ele produziu A Vida de Brian, do grupo Monty Python) e até nas corridas automobilísticas (Jackie Stewart), o guitarrista buscou a transcendência pessoal não só na religião, mas principalmente na música, que adotou como uma espécie de missão de vida na Terra (“é o que eu sei fazer”).

Dando conta com sucesso das qualidades de George Harrison, o documentário de Scorsese poderia ganhar em complexidade se desse um pouco mais de espaço aos defeitos do artista. Alguns entrevistados chegam a definí-lo como um homem de extremos, mas essa característica nunca chega a ser bem exemplificada. Além disso, temas delicados como o uso de drogas após o seu contato com a religião e suas possíveis traições a Olivia Harrison são apenas sugeridos, o que pode ser justificado pela participação da última mulher de George como idealizadora e produtora do filme.

Apesar desse porém, é inegável que da primeira aparição de Harrison – quando ele olha em direção à câmera em uma filmagem caseira no seu jardim -, até a repetição da mesma cena, nos minutos finais do documentário, podemos conhecer melhor a intimidade de um homem que soube aproveitar a sua passagem por este planeta.

Nota: 7,5/10

Top 10: Lançamentos de 2012

Tags

, , , , , , , , , , , , , ,

Depois de uma enxurrada de lançamentos no período pré-Oscar, o número de bons filmes que chegam às salas nacionais parece diminuir, mas mesmo assim não são poucas as produções interessantes que vão chegar às telas brasileiras nos próximos meses. Após conferir o cronograma de estreias de 2012 no site Filme B (filmeb.com.br), fiz uma lista com os dez filmes que mais tenho expectativa para assistir, por diferentes motivos. Vamos a ela:

10) O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man), de Marc Webb

Sinopse: Peter Parker encontra uma pista que pode ajudá-lo a entender o motivo de seus pais terem desaparecidos quando ele era criança. Em sua busca, Parker entra em rota de colisão com o Dr. Curt Connors, ex-sócio de seu pai
Elenco: Andrew Garfield, Emma Stone, Sally Field, Martin Sheen
Provável data de estreia: 6 de julho
Motivo para estar na lista: Gosto do trabalho anterior de Marc Webb (500 Dias com Ela) e o vejo como um diretor promissor. Por isso acho que será interessante comparar a sua versão do Homem Aranha àquela que veio às telas nos três filmes de Sam Raimi. Além disso, acredito que Andrew Garfield – que já demonstrou ser um bom ator em A Rede Social e Não Me Abandone Jamais – tem totais condições de realizar um melhor desempenho do que Tobey Maguire no papel de Peter Parker


9) Xingu, de Cao Hamburger

Sinopse: A saga dos irmãos Villas Bôas, idealizadores da reserva do Parque do Xingu, primeira terra indígena homologada pelo governo federal, em 1961
Elenco: João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat
Provável data de estreia: 6 de abril
Motivo para estar na lista: Além de ter realizado ótimos trabalhos na TV (como Castelo Rá-Tim-Bum), Cao dirigiu em 2006 o belo O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, filme que fala da época da Ditadura Militar através do olhar de um menino. Seis anos depois, ele retorna agora com este filme que, além de tratar de um tema pouco explorado no cinema brasileiro, é protagonizado por um trio de atores muito talentosos.


8) Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, de Beto Brant e Renato Ciasca

Sinopse: Um triângulo amoroso envolve Cauby, um fotógrafo de passagem pelo interior da Amazônia, a bela e instável Lavínia e seu marido, o pastor Ernani, que acredita ser possível consertar as contradições do mundo. Lavínia, o corpo; Cauby, o olhar; Ernani, a palavra – os três vértices de uma paixão incandescente, em meio à natureza ameaçada pela devastação.
Elenco: Camila Pitanga, Gustavo Machado, Zé Carlos Machado, Gero Camilo, Adriano Barroso e Antônio Pitanga
Provável data de estreia: 20 de abril
Motivo para estar na lista: Beto Brant é um dos diretores mais interessantes do cinema brasileiro e já fez obras marcantes como O Invasor.


7) O Abismo Prateado, de Karim Ainouz

Sinopse: Violeta é uma dentista de 40 anos, casada e com um filho adolescente, ela está pronta para começar mais um dia em sua rotina , quando recebe um mensagem desconcertante e embarca em uma jornada pelas ruas do Rio de Janeiro. Inspirado na música Olhos nos Olhos, de Chico Buarque.
Elenco: Alessandra Negrini, Thiago Martins, Otto Jr., Carla Ribas, Milton Gonçalves, Luisa Arraes e Camila Amado
Provável data de estreia: Abril
Motivo para estar na lista: Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Ainouz e Marcelo Gomes, é uma das experiências mais inventivas e bem-sucedidas do recente cinema brasileiro. Além dele, Karim dirigiu O Céu de Suely e roteirizou Abril Despedaçado, de Walter Salles, e Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes.

6) Pé na Estrada (On The Road), de Walter Salles

Sinopse: Narra a viagem de um escritor, que vai com a família e amigos de Nova York até Los Angeles. Adaptação do famoso livro de Jack Kerouac.
Elenco: Kristen Stewart, Sam Riley, Garrett Hedlund, Kirsten Dunst e Viggo Mortensen
Provável data de estreia: 15 de junho
Motivo para estar na lista: Walter Salles tem uma obra-prima no currículo (Central do Brasil) e outros bons filmes (Abril Despedaçado, Diários de Motocicleta e Linha de Passe). Em On The Road, ele terá o desafio de não decepcionar os fãs do cultuado livro de Kerouac.


5) Carnage, de Roman Polanski

Sinopse: Dois casais resolvem ter um encontro cordial depois que seus filhos se envolvem em uma briga na escola.
Elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly
Provável data de estreia: 1º de junho
Motivo para estar na lista: Polanski é um dos maiores cineastas vivos e já fez obras-primas como Chinatown e O Pianista. O seu último filme, O Escritor Fantasma, mostra que o diretor ainda está em forma e pode realizar grandes filmes


4) 360, de Fernando Meirelles

Sinopse: Um olhar sobre o que acontece quando pessoas de classes sociais diferentes se envolvem fisicamente.
Elenco: Rachel Weisz, Jude Law, Anthony Hopkins, Ben Foster e Maria Flor
Provável data de estreia: 18 de maio
Motivo para estar na lista: Fernando Meirelles é um caso raro de diretor que fez sua obra-prima já no primeiro filme. No momento, só me lembro de outros dois cineastas na mesma situação: Orson Welles (Cidadão Kane) e Sidney Lumet (12 Homens e Uma Sentença). Mesmo tendo feito bons filmes após Cidade de Deus (O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira), Meirelles ainda deve um grande trabalho em sua aventura internacional.

3) Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises), de Christopher Nolan

Sinopse: Oito anos após os eventos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, um líder terrorista chega a Gotham City e força o retorno de Batman, que havia assumido a culpa pelos crimes de Harvey Dent.
Elenco: Christian Bale, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Anne Hathaway, Liam Neeson, Garty Oldman, Michael Caine, Marion Cotillard e Morgan Freeman.
Provável data de estreia: 27 de julho
Motivo para estar na lista: Christopher Nolan é um dos diretores que vem sabendo realizar superproduções que tenham algo a dizer. Este foi o caso de Cavaleiro das Trevas, com seu realismo extremo, e A Origem, com seu intrincado mergulho nos sonhos humanos. Assim, esta continuação de Batman, com o elenco principal sendo mantido e ainda ampliado com adições de peso, tem tudo para ter o mesmo sucesso.


2) Nero Fiddled (ou To Rome With Love), de Woody Allen

Sinopse: Indisponível.
Elenco: Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Alec Baldwin, Ellen Page, Woody Allen e Roberto Benigni
Provável data de estreia: 1º de junho
Motivo para estar na lista: O novo filme de Woody Allen, que foi filmado em Roma, já teve dois nomes divulgados. Ele dá prosseguimento ao tour do grande diretor pela Europa, que teve filmes em Barcelona (Vicky Cristina Barcelona), Londres (Match Point e Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos) e Paris (Meia-Noite em Paris). Destes, só Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos foi decepcionante. Dessa forma, são altas as chances de Woody acertar de novo em solo europeu, ainda mais com um elenco que inclui o talentoso Jesse Eisenberg (de A Rede Social), Penélope Cruz, Ellen Page e o próprio Allen, que não atuava desde Scoop – O Grande Furo.

1) Novo projeto de Terrence Malick

Sinopse: Depois de um casamento fracassado com uma europeia, um homem se reconecta com uma mulher de sua cidade natal.
Elenco: Rachel Weisz, Ben Affleck, Javier Bardem, Rachel McAdams, Jessica Chastain, Michael Sheen e Olga Kurylenko
Provável data de estreia: 17 de agosto
Motivo para estar na lista: Este será o sexto filme na carreira de Malick, e aquele que será lançado na menor distância em relação ao anterior. Depois da obra-prima A Árvore da Vida, filme ousado e universal, o diretor parece agora querer fazer um trabalho mais comum na forma e no conteúdo, tendo em vista a sinopse divulgada. Tratando-se de Malick, no entanto, sempre é melhor esperar boas surpresas.

Crítica: Margin Call

Tags

, , , , , , ,

Lançado no final do ano passado no Brasil, Margin Call chegou a algumas salas de cinema em São Paulo e, infelizmente, acabou saindo de cartaz em poucas semanas. Mesmo o tendo visto há cerca de três meses, ainda me pego de tempos em tempos pensando no belo trabalho do diretor e roteirista J.C. Chandor, que conseguiu logo em sua estreia em longas-metragens realizar um filme extremamente maduro sobre um tema difícil de ser tratado: a crise econômica mundial, iniciada em 2008 e ainda sem data para ser superada.

Até quando não se foca especificamente em um fato histórico, o Cinema sempre pode ser visto como um retrato de seu tempo. Este aspecto é acentuado quando os filmes resolvem tratar diretamente de algum assunto de relevância da atualidade, como é, até agora, a crise e as consequências por ela trazida. Em um primeiro momento, alguns filmes quiseram dar conta das causas da turbulência econômica, mas nem todos obtiveram êxito.

Apesar de ser altamente relevante em seu conteúdo ao mostrar que os principais responsáveis pela deflagração da crise nos EUA não foram punidos e seguiram com poder intocável mesmo após a transição Bush-Obama, Trabalho Interno peca por sua forma burocrática, que o atrapalha como filme. A situação se inverte quando falamos de Capitalismo: Uma História de Amor, que tem na habitual criatividade narrativa de Michael Moore seu principal mérito, mas que realiza um discurso um tanto quanto superficial se comparado ao do outro documentário. Saindo do documental para o ficcional, a tentativa de Oliver Stone de recuperar Gordon Gekko nada traz de novo sobre o assunto e resulta em um filme pior que os outros dois citados (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme).

Nesse contexto, Margin Call surge como o filme que, até o momento, melhor soube enquadrar o tema de uma maneira interessante em variados aspectos, unindo ficção e realidade e sendo eficiente tanto na forma quanto no conteúdo. A história se passa quase toda dentro do prédio de um banco de investimentos que é claramente inspirado no Lehman Brothers, instituição cuja falência foi tida como estopim para o desencadeamento da crise em todo o mundo. É naquele local que, em menos de 24 horas, uma descoberta de um funcionário recém-demitido e o auxílio de um iniciante no mercado financeiro servem para mostrar que a situação daquela empresa é muito pior do que seus dirigentes imaginavam, e que decisões importantes terão que ser tomadas imediatamente.

Um dos maiores méritos do diretor e roteirista J.C. Chandor é o de saber manter a história interessante mesmo com um final que todos nós conhecemos, já que a crise econômica se tornou uma realidade. Para conseguir isso, Chandor cria um ambiente de constante tensão apoiado em ambientes claustrofóbicos, o que dá ao filme um ar de pesadelo contemporâneo, como na cena em que, com todas as luzes apagadas, um funcionário descobre em seu computador que a situação da empresa é de alto risco.

Outro ponto positivo do filme é o de saber falar de assuntos econômicos sem ser excessivamente chato nem extremamente superficial. Os termos utilizados pelos especialistas para justificar a iminente crise são citados, mas a dificuldade para entendê-los é apontada como um artifício do mercado financeiro para lucrar ainda mais. É dessa auto-análise que surge uma das cenas mais brilhantes do filme, na qual o dono do banco de investimentos admite sua ignorância sobre o tema e pede para um funcionário lhe explicar sobre a crise como se estivesse falando com uma criança.

Esse é apenas um dos ótimos diálogos que permeiam o filme e que tornam o roteiro de Margin Call um dos melhores dos últimos anos. O executivo feito por Paul Bettany é responsável por dois momentos memoráveis: o primeiro, quando diz como consegue gastar todo seu salário milionário em pouco tempo; o segundo, quando defende a importância do mercado financeiro como propulsor dos desejos e ambições das pessoas. O dono do banco, interpretado brilhantemente por Jeremy Irons, não fica atrás ao explicar aos funcionários como se dar bem no mundo capitalista (“Seja o primeiro, seja o mais inteligente ou trapaceie”).

Mas é o personagem de Stanley Tucci o responsável por um monólogo brilhante, no qual lembra o quão útil foi para outras pessoas quando era engenheiro e construiu uma ponte que ficará intacta por muitos e muitos anos. O seu caso é idêntico ao de muitos profissionais de outras áreas (economistas, engenheiros, matemáticos) que são atraídos para o mercado financeiro pelos melhores salários ofertados, mas que não encontram em seus novos postos uma possibilidade de contribuir de alguma forma para a melhora da sociedade, em um exemplo claro do individualismo predominante nos dias de hoje.

A qualidade do roteiro de Margin Call deve ter sido fundamental para atrair um elenco de peso ao filme de um diretor iniciante. Os veteranos Kevin Spacey, Jeremy Irons, Stanley Tucci, Paul Bettany e Demi Moore se juntam aqui ao jovem Zachary Quinto, candidato a astro desde que encarnou Spock no novo Star Trek. Com exceção dos personagens de Tucci e Quinto, todos os outros têm comportamentos reprováveis, mas não deixam de ser interessantes, já que estão apenas defendendo seus interesses em meio a um ambiente altamente hostil. Nesse sentido, é simbólico que o único ato de compaixão em todo o filme seja dirigido a um animal.

Em determinada cena, na qual dois jovens funcionários estão sentados no banco de trás de um veículo, a fotografia os define sem que seja necessária uma só palavra (veja este momento aqui). Enquanto que o personagem de Zachary Quinto é iluminado com uma luz amarela, o que demonstra sua inocência, o seu companheiro é banhado por tons vermelhos, que já refletem a sua total incursão no mundo do sistema financeiro, no qual a ganância é mais importante do que qualquer princípio ético para se obter sucesso. Pensando nisso, é triste constatar que o personagem de Kevin Spacey teve um dia as mesmas boas intenções do de Quinto, mas acabou se integrando de maneira irreversível a um sistema em que o fator humano não tem a mínima relevância, e no qual poucos decidem o destino de muitos.

PS: Com Margin Call, J.C.Chandor se tornou a grande revelação do cinema americano em 2011. Segundo o IMDB, o próximo trabalho do cineasta, com previsão de lançamento para o ano que vem, se chamará All Is Lost (Tudo Está Perdido) e terá como protagonista o veterano Robert Redford. Pela ótima estreia, é bom ficar de olho em seus próximos filmes.

Nota: 8,0/10

Crítica: Drive

Tags

, , , ,

Trabalho ousado do diretor Nicolas Winding Refn, Drive é um filme difícil de ser enquadrado dentro de um gênero específico. Flertando entre ação, drama e romance, a produção se centra na trajetória de um protagonista que, da mesma forma, não é facilmente classificável. A omissão do nome do personagem de Ryan Gosling – que é chamado apenas de Motorista – e dos fatos ocorridos em seu passado são úteis para evitar qualquer tipo de justificativa ao seu comportamento no presente. Dessa forma, Refn abre caminho para um estudo de personagem muito bem realizado, no qual as ações do protagonista são suficientes para transformá-lo em um peculiar e trágico herói de nossos tempos.

O reflexo distorcido no vidro e a sombra na parede retratam a divisão interna de um protagonista que vamos conhecendo aos poucos. Seja como piloto que ajuda na fuga de criminosos, mecânico ou dublê de filmes de ação, o personagem se define pelo ato de dirigir. É apenas dentro de um carro que ele se sente seguro em meio à imensidão da caótica metrópole de Los Angeles. Essa segurança, no entanto, não parece trazer felicidade para aquele homem quase incapaz de sorrir, o que demonstra que, para ele, sua rotina se assemelha mais a um fardo do que a algo prazeroso.

Um fato novo surge quando o Motorista conhece Irene, vizinha que tem um filho pequeno para cuidar. Mesmo mantendo o seu ar misterioso e solitário, sendo quase sempre monossilábico, o protagonista vê naquela família, por mais problemática que seja, algo que gostaria de ter. Mas quando o marido de Irene retorna da cadeia e passa a ser ameaçado por criminosos, o Motorista se vê obrigado a ajudá-lo, mesmo sabendo que isso pode significar o fim de suas pretensões.

O que faz com que o público se identifique com o protagonista é o seu estreito código de ética, que, mesmo não se enquadrando necessariamente dentro das leis, conduz o personagem a um caminho que, em sua ótica, é o certo. O Cinema costuma nos apresentar figuras desse tipo, sendo as mais célebres delas Vito e Michael Corleone, da trilogia O Poderoso Chefão. Assim, não classificamos o personagem de Gosling como um ladrão ou cúmplice, já que para ele a fuga de locais de crimes é apenas mais um de seus trabalhos, nos quais evita qualquer envolvimento futuro com o contratante. Da mesma forma, aprovamos a sua conduta com relação ao marido de Irene e o seu desejo de vingança posterior, que coloca a honra à frente de qualquer mala lotada de dólares.

Esta identificação com o protagonista é fundamental para o funcionamento do filme, e não seria a mesma sem o brilhante trabalho de Ryan Gosling, que vem se consagrando como um dos principais atores de sua geração. Com uma atuação minimalista, ele faz do Motorista um tipo solitário e triste que, mesmo quando se alegra, apresenta mínimas mudanças de expressão. Esta frieza habitual o torna ainda mais assustador quando se mostra capaz de realizar atos violentos sem nenhum tipo de hesitação, dando a entender que já praticou tais ações em outros momentos de seu passado.

Embora eficiente, o restante do elenco não chega nem perto de igualar o nível de atuação de Gosling. Desde que surgiu como grande promessa em Educação, Carey Mulligan ainda não provou ser uma grande atriz, e aqui não se destaca nem compromete no papel da garota pedestalizada pelo protagonista. No núcleo de criminosos, Albert Brooks rouba a cena como um homem extremamente calculista e violento, enquanto que Bryan Cranston também vai bem como o amigo e empregador do Motorista.

Na direção, Refn realça o isolamento do protagonista o colocando nas extremidades dos planos quando aparece ao lado de outros personagens, notadamente nas primeiras cenas, mas a sobriedade e a objetividade que dão o tom na metade inicial da narrativa são substituídas por uma estilização acentuada nos momentos finais, principalmente nas cenas que envolvem derramamento de sangue. Se por um lado esse exagero atrapalha todo um clima cuidadosamente construído pelo diretor durante boa parte do filme, por outro ele se justifica ao expor o lado sombrio do protagonista, que se adapta perfeitamente a situações violentas.

Como diz a música que toca no começo e no final do filme, o Motorista prova ser “um herói e um ser humano de verdade” ao término da projeção. No entanto, o problema é que sua natureza humana exponha instintos tão indesejáveis que, por mais que tente controlar, voltam à tona de uma forma de outra. Assim, de nada adianta para o protagonista seu heroísmo solitário, já que a ilusão de um relacionamento sincero acaba soterrada pela triste constatação de que a fuga constante – dos outros e de si mesmo – parece ser a melhor solução para alguém que só tem pleno domínio de seus atos quando sentado em um banco de carro.

Nota: 8,0/10

Uma certa tendência do Oscar (e do cinema americano)

Tags

, , , , ,

Pensando na vitória de O Artista me veio à cabeça uma tese que não sei se tem muito fundamento, mas que para mim faz todo sentido: como prêmio da indústria de cinema, o Oscar gosta de promover filmes de novos diretores em detrimento de nomes consagrados. Fazendo uma pesquisa sobre os resultados dos últimos dez anos, recordei de alguns casos assim. Como não lembrar da vitória de Chicago sobre O Pianista, ou de Crash sobre O Segredo de Brokeback Mountain? Embora tenham perdido a estatueta de direção para os veteranos Roman Polanski e Ang Lee, os filmes de Rob Marshall e Paul Haggis foram vencedores na categoria principal.

Nos últimos dez anos, os prêmios para filmes de diretores consagrados foram apenas três. Em dois dos casos, nos de Martin Scorsese, por Os Infiltrados, e dos irmãos Coen, por Onde os Fracos Não Têm Vez, a Academia se rendeu ao óbvio talento dos diretores, que já mereciam a estatueta por muitos trabalhos anteriores. Já Clint Eastwood voltou a ser reconhecido por seu trabalho em Menina de Ouro mais de dez anos depois de seu Oscar por Os Imperdoáveis, mas vem sendo esnobado nas últimas indicações à premiação.

Nas últimas quatro cerimônias, diretores novatos ou pouco conhecidos foram consagrados nos filmes Quem Quer Ser Um Milionário (Danny Boyle), Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow), O Discurso do Rei (Tom Hooper) e O Artista (Michel Hazanavicius). Destes, apenas o filme de Bigelow mereceu a estatueta, isso levando em conta sua disputa com Avatar, de James Cameron (naquele ano o vencedor deveria ter sido Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino).

A vitória destes filmes menores, que bateram produções com um orçamento muito mais robusto, pode levar a crer que a Academia esteja sendo mais ousada, dando maior importância às qualidades artísticas do que ao impacto financeiro no mercado cinematográfico. No entanto, esta tese cai por terra ao percebermos a irrelevância dessas produções – notadamente dos fracos filmes de Boyle e Hooper – e a falta de perspectiva de seus diretores atualmente.

Com apenas três filmes medianos no currículo, Hooper foi alçado a um patamar injusto e inesperado (lembrar que ele possui o mesmo número de estatuetas de melhor diretor do gênio Martin Scorsese é deprimente), e o sucesso de sua carreira segue sendo incerto (o diretor está filmando uma nova versão de Os Miseráveis, de Victor Hugo). Já Boyle, que fez filmes interessantes no início da carreira, venceu o Oscar por um de seus piores longas, e depois disso só realizou o mediano 127 Horas.

A premiação desses dois diretores é, para mim, muito menos absurda do que a que foi atribuída no último domingo para Michel Hazanavicius e o seu O Artista. Embora ache o filme francês inferior ao A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, o considero digno. No entanto, isso não faz com que deixe de questionar a suposta ousadia da Academia.

Em primeiro lugar, devo minimizar o fato considerado por muitos histórico de que o Oscar finalmente foi vencido por uma produção de um país com língua não-inglesa. Na minha opinião, não há absolutamente nada de francês em O Artista, que faz uma homenagem para Hollywood, filmada nos EUA, com atores coadjuvantes americanos. Tudo bem que os personagens principais são interpretados por um francês e uma argentina, mas, para alívio do votantes da Academia, eles não falam (com exceção da sequência final, em que há falas ditas em inglês durante uma homenagem aos musicais, gênero tipicamente … americano!).

Outro aspecto que deve ser relativizado é a ousadia do próprio filme. Não há como negar que Hazanavicius foi muito corajoso ao planejar uma produção muda e em preto-e-branco em pleno século XXI, e esse mérito não pode ser tirado do francês, que reconheceu no momento atual (da revolução digital e do 3D) fatores que remetem diretamente à maior transição já sofrida pelo Cinema e lembrou da importância inevitável de uma boa narrativa. No entanto, acredito que O Artista não consegue ir muito além de sua nostálgica ousadia formal proposta inicialmente, se tornando ao final um filme pouco inovador em seu conteúdo.

Um exemplo retirado de outra categoria mostra bem o que virou uma tônica no Oscar. Meryl Streep, que já teve 17 indicações ao prêmio de melhor atriz, ganhou neste domingo apenas a sua terceira estatueta, a primeira em três décadas. Se nesse ano houve uma concorrente a altura (Viola Davis), em várias outras oportunidades ela também merecia ser laureada, mas acabou derrotada por artistas com currículos e atuações bem inferiores. Nessas ocasiões, a justificativa para que Streep não vencesse era a mesma. Dizia-se que ela já tinha muitas indicações, e que deveria dar oportunidades aos mais jovens.

Pois é essa ideia equivocada que, a meu ver, tem interferido nos prêmios principais há pelo menos uma década. Nesse ano, novamente um veterano (Scorsese) perdeu para um “novato” (Hazanavicius), que até então só havia dirigido filmes pouco conhecidos e audaciosos (incluindo duas paródias sobre o 007). Isso não significa que eu ache que o currículo dos cineastas deva ser decisivo em uma premiação que visa consagrar os melhores filmes do ano, e não as melhores carreiras, mas o problema é o número excessivo de estatuetas dadas a nomes e filmes pouco relevantes (e aqui, mais uma vez, deixo claro que gosto de O Artista, mas acho que ele vem sendo supervalorizado).

Assim, acredito que essa tendência do Oscar vem rebaixando cada vez mais a sua relevância artística, e a maior prova disso se dá quando pensamos nas premiações de anos recentes e temos que recorrer ao Google para lembrar dos vencedores (Tom Hooper é o maior exemplo disso). Nesse sentido, é curioso que O Artista tenha como um dos seus temas o rápido esquecimento das celebridades e dos próprios filmes, algo que a própria produção de Hazanavicius pode enfrentar quando a Academia escolher mais uma novidade para premiar.

PS: O título do post faz referência ao artigo Uma Certa Tendência do Cinema Francês, que François Truffaut escreveu em 1954 para criticar o cinema que à época era praticado na França. Esse texto é tido como referência para as ideias implantadas anos mais tarde pelos cineastas da Nouvelle Vaugue. Para ficar claro, faço aqui apenas uma homenagem ao grande crítico e diretor francês, sem qualquer pretensão utópica de me comparar a ele.

Oscar 2012: comentários sobre os resultados

Tags

, , , , ,

Como todos já devem saber, O Artista foi o grande vitorioso do Oscar de 2012 ao levar cinco estatuetas para casa, incluindo melhor filme e diretor. Dos treze palpites que publiquei aqui no blog sobre prováveis vencedores nas diversas categorias, acertei dez e errei apenas três (fotografia, atriz e montagem), o que mostra mais uma vez como a premiação se tornou previsível. Por outro lado, sete prêmios foram para quem eu achava que os merecia, um número que considero bem razoável pelo histórico de erros do Oscar. Abaixo faço meus comentários sobre a cerimônia e seus resultados.

- Desde que comecei a acompanhar o Oscar, foram raros os momentos em que a premiação me surpreendeu positivamente, mas nunca perco as esperanças de que isso possa ocorrer. No ano passado, a diferença de qualidade e relevância entre A Rede Social e O Discurso do Rei era tão grande que segui acreditando no triunfo do filme de David Fincher. Quebrei a cara. Neste ano, ainda me animei quando A Invenção de Hugo Cabret ganhou vários prêmios no começo da festa, mas me dei mal mais uma vez.

-  Acredito que muitas vezes a comparação entre filmes se torne altamente subjetiva, mas no Oscar, uma premiação da indústria de cinema, quem tem prioridade na maioria das vezes é a visão comercial (se há dois produtos, um deve ser melhor que o outro) sobre a artística (cada obra tem suas peculiaridades). No entanto, este foi o ano em que mais vi sentido no embate entre os dois filmes com mais indicações, uma vez que ambos tratavam de temas semelhantes. Assim, fico mais desapontado ainda ao perceber que no que há de essencial em A Invenção de Hugo Cabret e O Artista, a homenagem ao Cinema, o filme de Scorsese é muito mais abrangente e profundo.

- Billy Crystal bem que tentou transformar a festa em algo mais agradável. O vídeo de abertura, que fez paródias com os concorrentes a melhor filme, foi interessante, assim como as constantes piadas sobre o nome do teatro em Los Angeles (antes chamado de Kodak Theater, o local deve ser renomeado após a tradicional empresa ter pedido concordata). Mas o maior acerto de Crystal ocorreu quando tentou reproduzir os pensamentos de alguns dos concorrentes presentes. Sua imitação da mente cinematográfica de Martin Scorsese foi impagável

- Crystal tinha a seu favor o fato de que seria impossível ser pior do que James Franco e Anne Hathaway, apresentadores do Oscar em 2011. Se houver uma comparação entre as duas festas, vai ficar claro que ele deve seguir à frente da cerimônia no ano que vem

- Os discursos não contribuíram para transformar a festa da Academia em algo interessante. A melhor fala de um vencedor foi de Christopher Plummer, que olhou para a estatueta de ator coadjuvante e falou algo como: “você só é dois anos mais velha do que eu”. (Com 82 anos, Plummer é o artista mais velho a ganhar um Oscar)

- Já Octavia Spencer foi quem mais se emocionou, por seu Oscar de atriz coadjuvante, e mal conseguiu discursar. O aplauso de pé para ela foi um exagero, já que Berénice Bejo e Janet McTeer tiveram atuações melhores na categoria

- Como nos últimos anos, o acúmulo de premiações antes do Oscar fez com que a disputa não apresentasse grandes surpresas, e com isso ficasse monótona. Só duas categorias tiveram vencedores diferentes dos esperados: a montagem de Millenium levou a melhor sobre a de O Artista, merecidamente, enquanto que a fotografia de A Invenção de Hugo Cabret bateu o favorito A Árvore da Vida, injustamente.

- Como tinham vencido no ano passado pelo trabalho em A Rede Social, Kirk Baxter e Angus Wall ficaram surpresos com o novo prêmio de montagem, desta vez por Millenium – Os Homens que Não Amavam As Mulheres. O arremedo de discurso e a rápida saída do palco têm uma explicação: é muito raro a Academia repetir vencedores em anos consecutivos

- Já a categoria que era mais disputada, a de melhor atriz, ficou com Meryl Streep mesmo após Viola Davis levar o prêmio do Sindicato dos Atores. As duas tiveram ótimas atuações, mas Streep merecia mais

- Na disputa entre George Clooney e Jean Dujardin pelo prêmio de melhor ator, o francês conseguiu bater um dos maiores astros de Hollywood, de forma justa. No entanto, seu discurso e sua eterna pose de canastrão aumentaram a minha impressão de que Dujardin é um ator de um personagem só. Veremos se estou certo nos próximos filmes dele

- Conhecido por não frequentar premiações, Woody Allen foi anunciado como vencedor do prêmio de melhor roteiro original pelo ótimo Meia-Noite em Paris. Não tenho dúvidas de que a postura reclusa do diretor já o tenha impedido de conquistar outros prêmios, e o reconhecimento da Academia deve estar diretamente relacionado ao fato de que o filme foi um grande sucesso de público e crítica

Oscar 2012: Comentários e palpites

Tags

, , , , , , , , , , , , , ,

Não é preciso ter uma grande memória para se lembrar das injustiças cometidas pelo Oscar. As recentes vitórias de Crash, Quem Quer Ser um Milionário? e O Discurso do Rei sobre filmes muito melhores demonstram o gosto artístico duvidoso da premiação, que em tempos mais distantes não reconheceu a genialidade de nomes como Charles Chaplin, Orson Welles e Alfred Hitchcock, além de ter ignorado o talento de Martin Scorsese por décadas.

Neste ano, felizmente, os dois favoritos ao prêmio de melhor filme são de ótimo nível (A Invenção de Hugo Cabret e O Artista), embora inferiores ao também concorrente A Árvore da Vida. Obtendo o maior número de indicações, os filmes de Scorsese e Hazanavicius homenageiam a seu modo o próprio Cinema, sendo o primeiro uma produção americana passada na França e o segundo uma produção francesa ambientada nos EUA.

Não vou achar nenhum absurdo histórico a consagração de O Artista como grande vencedor do Oscar, mas cada vez mais acredito que o filme de Hazanavicius está sendo supervalorizado, pois não consegue ir muito além da nostálgica ousadia formal que propõe inicialmente. Já A Invenção de Hugo Cabret, além de trazer ao 3D uma qualidade artística nunca antes vista, faz uma homenagem muito mais profunda ao Cinema e à sua impressionante capacidade de nos deslumbrar.

Torcendo para que o filme de Scorsese consiga reverter o favoritismo do de Hazanavicius, listo abaixo os candidatos à premiação deste ano, que acontecerá no próximo domingo, e dou meus palpites nas principais categorias divididos em duas partes: os favoritos, baseados nos resultados das premiações anteriores, e os melhores, de acordo com meu gosto pessoal. Ainda incluí um terceiro quesito para melhor filme e diretor e coloquei asteriscos nos filmes que ainda não vi.

Indicados a melhor filme:
Cavalo de Guerra
O Artista
O Homem que Mudou o Jogo
Os Descendentes
A Árvore da Vida
Meia-Noite em Paris
Histórias Cruzadas
A Invenção de Hugo Cabret
Tão Forte e Tão Perto*

O melhor: A Árvore da Vida
O melhor entre os favoritos: A Invenção de Hugo Cabret
Provável vencedor: O Artista

Indicados a melhor diretor:
Michel Hazanivicus – O Artista
Alexander Payne – Os Descendentes
Martin Scorsese – A Invenção de Hugo Cabret
Woody Allen – Meia-Noite em Paris
Terrence Malick – A Árvore da Vida

O melhor: Terrence Malick
O melhor entre os favoritos: Martin Scorsese
Provável vencedor: Michel Hazanavicius

Indicados a melhor roteiro original:
Michel Hazanivicius – O Artista
Kristen Wiig e Annie Mumulo – Missão Madrinha de Casamento*
Woody Allen – Meia-Noite em Paris
J.C. Chandor – Margin Call
Asghar Farhadi – A Separação

O melhor: Meia-Noite em Paris
Provável vencedor: Meia-Noite em Paris

Indicados a melhor roteiro adaptado:
Alexander Payne, Nat Faxon e Jim Rash – Os Descendentes
John Logan – A invenção de Hugo Cabret
George Clooney, Beau Willimon e Grant Heslov – Tudo pelo Poder
Steven Zaillian e Aaron Sorkin – O Homem que Mudou o Jogo
Bridget O’Connor e Peter Straughan – O Espião que Sabia Demais

O melhor: Tudo pelo Poder
Provável vencedor: Os Descendentes

Indicados a melhor ator:
Demian Bichir – A Better Life*
George Clooney – Os Descendentes
Jean Dujardin – O Artista
Gary Oldman – O Espião que Sabia Demais
Brad Pitt – O Homem que Mudou o Jogo

O melhor: Jean Dujardin
Provável vencedor: Jean Dujardin

Indicados a melhor ator coadjuvante:
Kenneth Branagh – Sete Dias com Marilyn*
Jonah Hill – O Homem que Mudou o Jogo
Nick Nolte – Guerreiro*
Christopher Plummer – Toda Forma de Amor*
Max von Sydow – Tão Forte e Tão Perto*

Provável vencedor: Christopher Plummer
Obs: aqui me abstenho de opinar sobre o melhor por motivos óbvios

Indicadas a melhor atriz:
Glenn Close – Albert Nobbs
Rooney Mara – Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres
Viola Davis – Histórias Cruzadas
Meryl Streep – A Dama de Ferro
Michelle Williams – Sete Dias com Marilyn*

A melhor: Meryl Streep
Provável vencedora: Viola Davis
Obs: Esta categoria trouxe o maior absurdo do ano. Tilda Swinton deveria não só ter sido indicada, como também ganhar o prêmio por sua atuação em Precisamos Falar Sobre o Kevin

Indicadas a melhor atriz coadjuvante:
Berénice Bejo – O Artista
Jessica Chastain – Histórias Cruzadas
Melissa McCarthy – Missão Madrinha de Casamento*
Janet McTeer – Albert Nobbs
Octavia Spencer – Histórias Cruzadas

A melhor: Berénice Bejo
Provável vencedora: Octavia Spencer

Indicados a melhor filme em língua estrangeira:
Bullhead (Bélgica)*
Footnote (Israel)*
In Darkness (Polônia)*
Monsieur Lazhar (Canadá)*
A Separação (Irã)

Provável vencedor: A Separação
Obs: Embora não tenha visto os filmes concorrentes, acho muito difícil que algum deles seja melhor que a obra-prima de Asghar Farhadi

Indicados a melhor montagem:
Anne-Sophie Bion e Michel Hazanavicius – O Artista
Kevin Tent – Os Descendentes
Kirk Baxter e Angus Wall – Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres
Thelma Schoonmaker – A Invenção de Hugo Cabret
Christopher Tellefsen – O Homem que Mudou o Jogo

A melhor: Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres
Provável vencedor: O Artista

Indicados a melhor fotografia:
Guillaume Schiffman – O Artista
Jeff Cronenweth – Millenium – Os Homens que não Amavam as Mulheres
Robert Richardson – A Invenção de Hugo Cabret
Emmanuel Lubezki – A Árvore da Vida
Janusz Kaminski – Cavalo de Guerra

A melhor: A Árvore da Vida
Provável vencedor: A Árvore da Vida

Indicados a melhor direção de arte:
O Artista
Harry Potter a as Relíquias da Morte – Parte 2
A Invenção de Hugo Cabret
Meia-Noite em Paris
Cavalo de Guerra

A melhor: A Invenção de Hugo Cabret
Provável vencedor: A Invenção de Hugo Cabret

Indicados a melhor trilha sonora:
John Williams – As aventuras de Tintim
Ludovic Bource – O Artista
Howard Shore – A Invenção de Hugo Cabret
Alberto Iglesias – O Espião que Sabia Demais
John Williams – Cavalo de Guerra

A melhor: A Invenção de Hugo Cabret
Provável vencedor: O Artista

Indicados a melhor canção original:
Bret McKenzie – Man or Muppet (Os Muppets)
Sérgio Mendes, Carlinhos Brown e Siedah Garrett – Real in Rio (Rio)

A melhor: Man or Muppet
Provável vencedor: ?

Crítica: O Homem que Mudou o Jogo

Tags

, , , , , , ,

Confesso que não tenho a menor simpatia pelo beisebol, esporte que até hoje é visto com estranhamento pela maior parte dos brasileiros. Por isso fiquei aliviado ao descobrir que não é preciso gostar desta modalidade para admirar este O Homem que Mudou o Jogo, filme dirigido por Bennett Miller (de Capote). É claro que um entendimento maior sobre as regras e o posicionamento dos atletas em campo torna mais claras algumas passagens da história, mas na maior parte dela o esporte serve apenas como pano de fundo para um interessante estudo de personagem.

Billy Beane (Brad Pitt) é um ex-jogador que tinha tudo para ter sucesso como profissional, mas que acabou não correspondendo às expectativas geradas por suas performances na universidade. Após a aposentadoria precoce ele se torna diretor do Oakland Athletics, time de baixo orçamento que luta para ter resultados positivos contra adversários muito mais badalados. A perda dos três principais jogadores da equipe após mais uma temporada sem título e o encontro com um jovem economista (Jonah Hill) fazem com que Beane decida fazer uma mudança radical em sua política de contratações, apostando em um método matemático para encontrar jogadores eficientes e baratos.

Há uma série de conflitos que vêm à tona com essa inovação, e todos merecem atenção do ótimo roteiro escrito pelos já consagrados Aaron Sorkin (de A Rede Social) e Steve Zaillian (de Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres), que apresenta personagens interessantes (notadamente os de Pitt e Hill) e diálogos bem construídos (o melhor deles na série de compras e vendas de jogadores pelo telefone).

O primeiro conflito é o embate entre o velho e o novo, entre o romantismo e o profissionalismo no esporte. Enquanto olheiros que mal sabem fazer contas lamentam o fim de uma certa aura na maneira de contratar jogadores e denunciam uma suposta desumanização do jogo, Beane e seu novo parceiro acreditam plenamente que a nova maneira de administrar a equipe trará frutos dentro de campo. E como podemos repudiar esta atitude numa liga em que jogadores não passam de mercadorias que podem ser trocadas a qualquer momento?

Indo fundo na ideia do profissionalismo, o personagem de Jonah Hill levanta um segundo conflito: o da essência contra a aparência. Pois se a eficiência é o grande objetivo do esporte, por que outros aspectos (“ele tem uma namorada feia, então não tem autoconfiança”) seguem sendo valorizados pelos times nas contratações de jogadores? Da mesma forma, não importa se alguém é gordo, tímido e use óculos, mas sim que ele tenha boas ideias.

Tomando uma posição clara sobre essas questões, o protagonista passa por um embate interno entre suas próprias convicções. Sem nunca ter superado a frustração por seu fracasso como jogador, Beane já ultrapassou há tempos a barreira entre paixão e obsessão pelo esporte e aposta no sucesso como dirigente como maneira de acertar as contas com o passado. A sua dedicação excessiva à profissão (ele é capaz de acertar a contratação de jogadores até mesmo no Ano Novo) é um dos motivos para que não consiga construir relacionamentos sérios, embora tenha uma empatia notável com a filha de 12 anos, fruto de um casamento que não deu certo. Assim, a nova maneira de administrar a equipe trará para Beane aquilo que não tinha há muito tempo: algo em que possa acreditar.

Novamente escolhendo bem os seus papéis, Brad Pitt traz humanidade e amargura ao seu personagem e não precisa de grandes gestos para mostrar a frustração de Billy Beane e o seu posterior reencontro. Como seu parceiro, Jonah Hill tem uma atuação admirável, demonstrando o amadurecimento contínuo do personagem, que surge como um jovem inseguro em suas primeiras aparições. Já o brilhante Philip Seymour Hoffman apenas cumpre tabela no papel de um treinador que não concorda com as decisões tomadas por seu superior.

Mesmo tendo grande parte dos méritos ligados ao roteiro e às atuações, o filme é bem conduzido pelo diretor Bennett Miller, que aposta em soluções visuais interessantes, como na cena em que o orçamento das duas equipes são mostrados antes de seus nomes, ou nas vezes em que planilhas e números tomam a tela. Também pode-se creditar a Miller a inteligente opção de colocar Billy Beane quase sempre deslocado ou cercado durantes as reuniões com colegas da equipe ou de outros times, o que demonstra a falta de apoio que terá para implantar sua nova forma de gestão.

Passando longe da tentação maniqueísta de julgar os personagens e suas ideias, o filme mostra acima de tudo a importância de acreditarmos nas decisões que tomamos em nossas vidas, independentemente do que os outros pensem sobre elas. Pois é só estando bem com nós mesmos que ficaremos aptos a alcançar o sucesso pessoal, que na maioria das vezes podemos atingir de maneira muito mais simples do que imaginamos.

Nota: 7,0/10

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 280 other followers