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Não há como não lembrar de Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese, ao assistir a este Amanhã Nunca Mais, longa-metragem de estreia de Tadeu Jungle. Assim como no filme do grande diretor americano, a história é toda baseada nas desventuras de um protagonista que, em apenas uma noite, vive situações inusitadas que fogem de controle e acabam transformando sua vida em um verdadeiro inferno. Outra semelhança é a importância da cidade – no filme de 1985, Nova York; no atual, São Paulo -, que atua quase como um personagem no desenrolar da trama.

Vivido de maneira impecável por Lázaro Ramos, Valter é um sujeito de fala mansa, olhar baixo e andar curvado que não consegue dizer “não” para quem quer que seja. A baixa auto-estima do rapaz, que trabalha como médico anestesista, é comprovada pela sua timidez excessiva, que emerge já na sequência após os créditos iniciais. Em uma praia superlotada do litoral paulista, o protagonista é ignorado por homens que paqueram sua mulher e ainda tem de aturar os pedidos da sogra, que insiste que ele passe protetor solar nela e que coma uma coxinha nada convidativa trazida em um tapperware. Mesmo claramente contrariado (“Será que está tanto sol?”), Valter sempre acaba fazendo os desejos dos outros (e é interessante notar que até a filha pequena sabe expor seus desejos melhor do que o pai).

Homem de raros sorrisos, o protagonista não tem o melhor dos relacionamentos com a mulher e desconfia que esteja sendo traído. No único momento em que demonstra carinho por ela, é interrompido pelo som do celular e acaba adiantando sua volta para São Paulo (e o plano em que o carro de Valter surge como o único a subir a serra, enquanto todos os veículos trafegam na direção contrária, é exemplar para entender o descontentamento da família). Diante de tanta introspecção, uma simples ação já sinaliza um desejo de mudança. Assim, a insistência de Valter em buscar o bolo de aniversário da filha é fruto de um desejo de reaproximação com a mulher e, por que não, com sua própria masculinidade/individualidade, tão castigada pelas obrigações do cotidiano.

Para que as situações nonsense vividas pelo protagonista funcionem, a caracterização da cidade de São Paulo é fundamental. A fotografia em tons avermelhados, a presença constante de luzes de neón e o som, que reproduz os barulhos ensurdecedores das buzinas da metrópole, situam bem o já conhecido trânsito quilométrico da capital paulista. Além disso, o diretor particulariza ainda mais a capital paulista ao dar especial importância aos motoqueiros na trama, na qual eles são vistos em diferentes situações: xingando motoristas após levarem uma fechada, ajudando a empurrar um carro que ficou sem gasolina e, por fim, sofrendo um atropelamento.

Com a atmosfera criada pelo diretor, o aparecimento de personagens tão díspares no caminho do protagonista se torna orgânico ao caos que é a própria cidade de São Paulo (pelo menos esta mostrada no filme). Assim, a doceira que acredita que o marido reencarnou no gato, a prostituta que oferece seu serviço após uma carona, o motoqueiro que surge do nada na frente do carro (interpretado pelo ótimo Luis Miranda, dono de uma das melhores piadas do filme) e a judia rica e louca que se recusa a deixar Valter em paz se tornam o estopim para que o personagem principal ponha fim à sua humilhação cotidiana.

A maneira como isso ocorre, porém, enfraquece o resultado final do filme, devido ao pouco cuidado dedicado pelo roteiro ao terceiro ato da trama. A vingança esperada após Valter decidir exercer um papel ativo no destino de sua própria vida acontece, mas o rápido desenrolar das situações finais (quase não há ponto de respiro para o protagonista e, consequentemente, para o público, sua grande testemunha) e a escolha maniqueísta de um culpado (trabalho) e de um caminho de fuga (família) para a opressão do personagem limitam o potencial demonstrado por grande parte da trama. E o letreiro final, que busca explicitar a “moral” da história, como nas velhas fábulas, podia até servir para uma peça publicitária (Tadeu Jungle já fez várias delas), mas torna-se recurso desnecessário no cinema, já que as cenas deveriam falar por si próprias (para que o público tenha o direito de entender o filme como quiser).

Nota: 6,5/10

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