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Mesmo originário de um livro infantil, Cavalo de Guerra se passa em um contexto histórico que contém elementos mais do que suficientes para serem aproveitados em um roteiro cinematográfico com temática adulta. É pena, portanto, que o diretor Steven Spielberg deixe de lado reflexões importantes sobre o início do século XX para focar grande parte de seu esforço em uma tentativa desesperada de emocionar o público em um filme que, para isso, usa e abusa de simplificações que enfraquecem seu resultado final.

O primeiro indício do propósito do diretor se vê logo na sequência inicial, quando o início da amizade entre Albert e o cavalo Joey é mostrado sem nenhum tipo de diálogo, mas com uma trilha sonora que, apesar de bela, não hesita em demonstrar, antes mesmo de conhecermos os personagens, que aquele momento será fundamental para a trama. Aliás, a música de John Williams acaba se tornando um dos pontos fracos do filme não só por ser excessiva, mas também pela falta de sutileza, ambos fatores que contribuem (no caso, negativamente) para a alta carga melodramática do longa-metragem.

A relação entre Albert e Joey, que perpassa todo o filme, se concretiza quando o seu pai, em um ato impensado, adquire o animal em um leilão, incentivado por uma disputa pessoal. O negócio, além de abalar as já escassas economias da família, parece mais improdutivo pelo fato de o equino não ser o tipo ideal para arar um amplo pedaço de terra. Ameaçados de despejo pelo proprietário do local, os Narracott não têm outra opção a não ser confiar na improvável amizade entre seu membro mais novo e um cavalo.

As dificuldades nos verdes campos ingleses, no entanto, não se comparam às que virão com o início da Primeira Guerra Mundial. Com a tecnologia bélica ainda em evolução, os cavalos continuavam a ser utilizados em grande número nas batalhas e no carregamento de armas. Sendo assim, a necessidade de dinheiro, somada à demanda pelo animal, faz com que o pai de Albert venda Joey para a cavalaria inglesa, mesmo após o jovem tentar impedir o negócio e prometer reencontrar o amigo.

O roteiro de Lee Hall e Richard Curtis contribui decisivamente para o fracasso do filme por apresentar diálogos pouco inspirados (a exceção, talvez, seja a metáfora do pombo-correio) e, principalmente, por construir personagens unidimensionais que contribuem para as intenções maniqueístas da produção. Assim, nem o esforço de profissionais reconhecidos, como Emily Watson, Peter Mullan e Niels Arestrup, consegue dar maior profundidade à trama. A exceção negativa entre os atores é justamente Jeremy Irvine, que é ultrapassado até pelo cavalo no quesito expressividade.

Outra estratégia lançada pelos roteiristas é a reiteração de situações que, pelo destaque atribuído, sabemos que se tornarão importantes para o desenrolar da trama. Em alguns casos este recurso é bem-sucedido, como no assobio peculiar de Albert para Joey e nos dois instantes em que o cavalo não consegue saltar obstáculos (o que levará, adiante, a uma das mais belas cenas do filme), mas a passagem da bandeira militar por diversos donos se torna didática e enfadonha, relembrando o espectador a cada 20 minutos que aquele objeto será mostrado nos momentos finais (mesmo que seu simbolismo seja muito menor do que aquele que o diretor quer sugerir).

Se da primeira parte, passada na Inglaterra, é difícil salvar alguma cena, nos momentos seguintes, quando o personagem principal (o cavalo Joey) vai para a guerra, a situação melhora, mas não tanto.

Um dos pontos discutidos pelo filme é a oposição entre a racionalidade humana e a irracionalidade dos animais, que por vezes podem se inverter. Mesmo dotado de inteligência, o ser humano possui um ego que o leva a disputas com seus semelhantes, sendo a mais cruel delas a guerra. Por outro lado, mesmo sem saber racionalizar os fatos, o cavalo Joey é capaz de realizar atos de lealdade e afeto sem desejar nada em troca. Esta discussão, no entanto, ganharia mais força caso o animal não fosse tratado como uma entidade que, por onde passa, consegue subitamente resgatar a humanidade perdida das pessoas.

Passando da tropa inglesa para a alemã e, finalmente, regressando à sua cavalaria de origem, Joey é acolhido por personagens que protagonizam pequenos “contos” ao longo de alguns minutos. Assim, temos os irmãos alemães jovens demais para assumir a responsabilidade da guerra, a doente menina francesa que vê no relacionamento com o cavalo a possibilidade de romper o seu isolamento e o tratador de cavalos alemão que se recusa a aplicar aos animais a cruel lógica da guerra.

Essas histórias paralelas, que variam no nível de inspiração (a história da menina é a mais fraca e apelativa), são contadas com tamanha rapidez que o desenvolvimento dos personagens é prejudicado, e o que fica para o espectador são tramas mal-resolvidas que servem apenas para aumentar a epopeia de Joey, que no caminho é ameaçado de sacrifício uma série de vezes.

É claro que, entre algumas tentativas de fazer o espectador chorar, Spielberg mostra resquícios do bom diretor que é e nos oferece passagens marcantes. Assim como em O Resgate do Soldado Ryan, quando reproduziu impecavelmente o desembarque das tropas aliadas no dia D da Segunda Guerra Mundial, o cineasta demonstra grande talento nas cenas de conflito, com destaque para a batalha que começa com uma cavalgada em uma plantação. Outra passagem marcante é o bombardeio que conta com a participação (obviamente involuntária) de Joey, na qual vemos em flashes de luz o regresso de um personagem já conhecido.

As mais belas cenas do filme, no entanto, acontecem quando Joey se livra de qualquer proprietário e se vê sem rumo em meio à carnificina da guerra. A imagem do cavalo cercado por um tanque de guerra representa bem a transição entre dois tempos vivida no início do século XX (era rural x industrial), fator que poderia ter sido bem mais explorado pelo roteiro. Já a corrida do animal em meio a um campo bombardeado representa a busca desesperada e instintiva para se livrar do horror do conflito.

Outro momento que merece destaque é a mobilização de ingleses e alemães para salvar o cavalo, numa trégua que resgata temporariamente os resquícios de humanidade tão sufocados pela guerra. Lembrando Feliz Natal (filme de 2005, dirigido por Christian Carion), Spielberg consegue ali uma rara emoção verdadeira, mas logo rompe a verossimilhança, fazendo com que os personagens troquem piadas e se tornem amigos em apenas poucos minutos (e o voo dos alicates é o movimento que acaba com todo o clima da cena).

Os bons momentos isolados de Cavalo de Guerra servem apenas para atestarmos sua fragilidade como um todo, fato que o final piegas, em um pôr do sol extremamente avermelhado (com a fotografia lembrando clássicos como E o Vento Levou…), só serve para confirmar. Tão superficial como a atuação de Jeremy Irvine, o filme ganha lugar de destaque entre os piores de Steven Spielberg.

Nota: 5,0/10

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