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Uma das grandes virtudes de A Separação é saber tratar de conflitos pessoais e sociais sem nunca recorrer às facilidades do maniqueísmo. Conseguindo ser complexo sem precisar ostentar a sua inteligência, o diretor Asghar Farhadi criou uma história que, apesar da aparente simplicidade, revela aos poucos sua densidade e capacidade de abrigar temas tão distintos quanto a luta de gêneros e de classes, o fanatismo religioso, o cerceamento do cidadão pelo Estado e a flexibilização da ética.

O filme começa com o casal Naader e Simin em um tribunal discutindo sobre a iminente separação. A câmera fixa na dupla coloca o espectador no papel do juiz, e assim conhecemos os motivos que movem cada um dos personagens. A mulher não quer perder a oportunidade de deixar o Irã com a filha Termeh após conseguir um visto de saída, enquanto o homem não pretende se mudar porque se sente obrigado a cuidar do pai, que sofre com o Mal de Alzheimer.

Apesar do respeito mútuo, fica claro que a situação se tornou insustentável, e Simin acaba indo viver com a mãe, deixando a menina com Naader. Por não ter com quem deixar o pai enfermo quando sai para trabalhar, ele acaba contratando uma diarista para cuidá-lo, mas um incidente envolvendo a moça provoca uma briga judicial entre dois casais.

Demonstrando grande habilidade na direção, Farhadi confere maior realismo à trama através do uso da câmera na mão e aproxima o espectador dos personagens por meio do uso constante de closes. Assim, sem se apressar no desenvolvimento da narrativa, o diretor nos acostuma a conviver com aquelas pessoas para, só depois, colocar obstáculos em seus caminhos e observar como elas se comportam diante deles.

Naader e Simin formam um casal de classe média alta. É possível notar, por exemplo, a importância dada pela mulher a livros e a um piano durante sua mudança para a casa da mãe. Enquanto isso, a filha Termeh aparece estudando regularmente, em um nítido sinal da preocupação de seus pais com o futuro. E apesar de viver em uma sociedade que é regida pela vontade de chefes religiosos, Naader passa longe do fanatismo e não procura justificar os seus atos através de mensagens islâmicas.

O casal antagonista formado por Razieh e Hodjat apresenta características opostas. Além de humildes (reparem no número de vezes em que a empregada diz que mora longe), eles também se mostram muito apegados ao Islamismo. O ápice disso se dá em uma ligação para uma espécie de disque-religião, na qual a mulher tenta obter permissão para banhar o corpo de um senhor. Já o homem não hesita em dizer o nome de Deus diversas vezes ao prometer vingança.

Apresentando um domínio invejável da narrativa, Asghar Farhadi pontua estas diferenças para igualar os personagens posteriormente, quando uma batalha judicial coloca o Estado como inimigos de ambos. Pois é nesse momento, quando estão contra a parede, que os personagens vão revelar sua real essência. Em um misto de sentimentos, a ética, a compaixão, a religião e os interesses econômicos se misturam em grau de importância e resultam na revelação ou na ocultação da verdade.

O diretor consegue conduzir a trama com um quê de suspense psicológico, utilizando-se para isso de elipses que ocultam fatos importantes da trama. Sem ser um mero truque de roteiro, este artifício serve para inserir ainda mais o espectador na história, uma vez que a dúvida é elemento fundamental para as decisões tomadas pelos personagens.

Para que o filme se tornasse a obra-prima que é a atuação do elenco como um todo foi de grande importância, já que vemos na tela personagens complexos com os quais podemos nos identificar. Naader é vivido por Peyman Moaadi com uma humanidade impressionante, e é notável seu ato de compaixão quando se dá conta de que está tomando uma atitude por pura vingança; Simin (Leila Hatami) se ressente pelo fim do relacionamento com o marido e, quando vê a família ameaçada, tenta ela mesmo resolver o problema; Razieh (Sareh Bayat), mesmo quando comete erros, demonstra uma ingenuidade que a redime; e Hodjat (Shahab Hosseini), apesar de seu fanatismo, é movido primeiramente por uma tentativa de fazer justiça.

Outro personagem que ganha relevância na trama é a menina Termeh. Apesar de representar, junto com a filha de Razieh e o avô, a inocência em meio à batalha judicial, ela passa por um amadurecimento forçado e acaba por tomar importantes decisões nos momentos finais.

Vivendo em um país que censura seus artistas e sentencia vários deles à cadeia (Jafar Panahi foi condenado a seis anos de prisão e a vinte sem trabalhar com cinema), Farhadi sabe que qualquer deslize (na opinião do regime iraniano) pode fazer com que tome o mesmo destino do colega. Mesmo assim, ele consegue ser político sem aparentar.

É notório, por exemplo, o plano que mostra a bandeira do Irã já nos momentos finais do filme, dando a entender que aquele local é um microcosmo daquela sociedade. A decisão de unir as duas pontas da narrativa no tribunal também é retrato de uma nova geração que tem que optar por ficar no Irã e se submeter a todas as dificuldades do regime dos aiatolás ou abandonar as raízes e buscar maior liberdade em outro local.

Asghar Farhadi já fez a sua escolha e, mesmo sob vigilância, foi mais inteligente que os censores e nos presenteou com esse brilhante A Separação. Agora, para os cinéfilos, resta torcer para que ele siga tendo liberdade para produzir filmes tão interessantes.

Nota: 9,0/10

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