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Em As Confissões de Schmidt e Sideways – Entre Umas e Outras, seus dois longas anteriores, o diretor Alexander Payne já havia demonstrado talento ímpar para tratar de personagens comuns que, em um dado momento, muitas vezes sem nem ter esta intenção, acabam passando por situações que os fazem mudar alguns conceitos sobre a própria vida. A mesma coisa acontece nesse Os Descendentes, ótimo retorno do cineasta que havia lançado seu último trabalho em 2004.

A trama tem como protagonista Matt King (George Clooney), rico advogado que, após ver sua mulher entrar em coma devido a um acidente de barco, tem que se reaproximar das duas filhas, com quem nunca teve uma relação paterna minimamente razoável. Para piorar, ele ainda deve decidir sobre a venda milionária de um terreno da família, enquanto descobre fatos desconhecidos sobre o passado da esposa.

Se o roteiro de Os Descendentes caísse na mão do diretor errado, ele poderia ter se transformado tanto em um dramalhão desmedido quanto em uma comédia de mal gosto. Felizmente, Alexander Payne (que também é co-roteirista) conduz o filme brilhantemente, se equilibrando entre dois gêneros, mas nunca deixando que a trama saia dos trilhos. A mescla entre situações tristes (quase todas ligadas ao coma de Elizabeth) e bem-humoradas (um beijo de Matt em outra personagem é particularmente engraçado) dão o tom desta sensível produção.

A introdução da história é feita em um voice over do protagonista, que logo recebe a empatia do público. Em uma de suas boas falas, ele lembra que o Havaí, cenário da história, não é o paraíso que o senso comum imagina. Aquele é um local como qualquer outro, no qual pessoas têm problemas, adoecem e envelhecem, mas também lutam pela felicidade. Mesmo com paisagens paradisíacas ao lado, Matt King é obcecado pelo trabalho, e ao admitir que já não surfa há 15 anos ele dá uma mostra da falta de lazer em seu dia a dia.

O coma da mulher representa para Matt uma pausa na rotina e um momento para repensar o relacionamento. Ele admite que quase não conversava mais com a esposa, e espera ter a chance de corrigir este erro após a recuperação dela. Enquanto isso, o convívio forçado com as filhas deixa claro o quão distante eles ficaram separados durante os últimos anos. Além de não saber os gostos pessoais da pequena Scottie, o pai fica chocado ao descobrir a atitude da menina ao praticar bullying contra uma colega de escola. A relação com a adolescente Alexandra é ainda mais complicada, já que ela teve problemas recentes com drogas e parece não conter a sua rebeldia.

A falta de sensibilidade do pai fica patente quando ele dá uma grave notícia para a filha mais velha em um local totalmente inapropriado (“Por que você me disse isso na piscina?”). No entanto, após uma revelação unir Matt e Alexandra, a família parte em uma viagem com um objetivo definido, mas que vai se tornando cada vez menos importante conforme o convívio entre eles aumenta. Nesse aspecto, é notável a sequência em que pai e filhas caminham pela praia sem preocupações, em um momento de união sincera que provavelmente nunca haviam vivenciado antes.

O contato com a família também interfere nos negócios de Matt quando ele passa a reavaliar a sua relação com as terras de seus antepassados, que estão prestes a serem vendidas por um valor milionário a uma rica corporação. Descendente distante da união de um rico banqueiro com uma índia (daí vem o nome do filme), o protagonista nunca havia pensado na propriedade como um resquício de sua origem, e aos poucos muda a sua posição em relação à venda. É dessa subtrama que resulta uma das cenas mais belas do filme: a fusão entre a nuca de Matt King em um discurso e, logo em seguida, com suas filhas.

Em um de seus melhores papéis na carreira, George Clooney faz do protagonista um homem desajeitado que precisa justamente de um obstáculo no meio do caminho para redescobrir a importância do convívio familiar. Afastando a imagem de galã ao correr de um modo que nem a mais louca fã do ator consideraria sexy, Clooney demonstra grande humanidade quando, ao olhar para a casa de um inimigo, ameaça um palavrão como forma de exprimir sua raiva, mas logo muda de atitude quando descobre um fato novo.

No restante do ótimo elenco, destaque para Shailene Woodley, que faz a adolescente Alexandra. De garota problemática, ela assume responsabilidades inesperadas e dá apoio emocional ao pai e à irmã. Robert Forster, como o pai que tenta obter culpados para o acidente da filha, e Nick Crause, que serve como alívio cômico para a trama, também merecem ser lembrados.

Mesmo sem ter uma história exatamente original, Os Descendentes convence pela honestidade com a qual consegue tratar de uma mudança na vida de pessoas que têm que rever valores para enfrentar as dificuldades do caminho, mas que nem por isso deixam de sair fortalecidas e renovadas após ultrapassarem estes obstáculos.

Nota: 8,0/10

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