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Não é à toa que a personagem de Tilda Swinton neste Precisamos Falar Sobre o Kevin se chame Eva. O nome bíblico, que remete à mãe de todas as mães, cai bem para uma personagem que terá seus laços maternais testados de maneira desafiadora após um ato cometido pelo seu filho. A atuação primorosa de Swinton já bastaria para que o filme recebesse o devido reconhecimento, mas a produção vai além pela eficiência em variados aspectos técnicos, começando pela direção de Lynne Ramsay.

A responsabilidade de ser mãe pesa para a escritora Eva de maneira acima de comum. De uma hora para outra, seu espírito aventureiro – ressaltado pela direção de arte através dos mapas em seu quarto e dos quadros com destinos distantes no trabalho, que sugerem um desejo de fuga – é cortado pela raiz. A cena em que aparece deslocada em meio a outras grávidas atesta o seu desejo de não ter aquele bebê, e a situação só piora com o passar dos anos devido às suas inúmeras tentativas frustradas de se relacionar bem com o filho.

Já Kevin faz questão de se colocar contra a mãe desde cedo. Quando bebê, a sua dificuldade de falar e fazer exercícios simples já parece ser uma desfeita premeditada para a mãe. Esta necessidade de testar Eva se acentua ao longo do tempo, e a determinação sem sentido em acabar com qualquer prazer pessoal dela é expressada quando suja o quarto da matriarca. O resultado desta obstinação é um adolescente sem limites que não consegue realizar um diálogo minimamente respeitável com os pais. Nesse sentido, o título do filme é quase irônico, já que uma real conversa sobre o comportamento do garoto nunca chega a acontecer – o que torna admirável o rápido letreiro inicial.

A maldade meticulosa de Kevin em relação à mãe só ganha um momento de respiro no filme no instante em que os dois se reúnem no quarto para a leitura de um livro – e é triste pensar que mesmo aquele instante de felicidade contribuirá posteriormente para o seu ato mais reprovável. Eva, por sua vez, se esforça para tratá-lo bem, mas não deixa de ter atitudes impulsivas de aversão à própria cria, como quando aproxima o carrinho do bebê de uma britadeira ou no instante em que o imita com desdém. Nesse aspecto, é importante notar que Kevin pode estar certo ao afirmar que o cuidado da mãe com ele não passava de um simples costume.

Em sua melhor atuação na carreira, Tilda Swinton interpreta Eva dispensando qualquer tipo de exagero dramático e encarnando de maneira sutil suas mudanças ao longo do tempo, revelando uma personagem que, após passar grande parte da vida reprimindo seus sentimentos, tenta achar um ponto de equilíbrio para seguir vivendo. Já o jovem Ezra Miller também se destaca no papel do adolescente Kevin ao expressar, muitas vezes apenas pelo olhar, a sua constante preocupação em atingir a mãe.

Aproveitando uma narrativa que vai e volta no tempo, a montagem se mostra eficaz ao embaralhar momentos importantes na vida de Eva, que podem ser tomados como a reflexão da personagem sobre o próprio passado. Há espaço ainda para cenas simbólicas, como a fusão do rosto da mãe com o do filho na água, indicando que, embora conturbada, a ligação entre os dois é profundamente visceral.

A fotografia, por sua vez, aposta primordialmente em tons vermelhos para destacar o sentimento de culpa da protagonista, mas também acerta ao introduzir a cor sépia nas cenas de um distante passado feliz entre a mulher e seu marido. Outra decisão correta neste quesito está na cena inicial, na qual o breu de um quarto dá lugar a uma claridade que simboliza uma revelação importante para Eva.

A predominância da cor vermelha é seguida pela direção de arte através de inúmeros objetos, como uma cadeira, uma bola e até mesmo latas de molho de tomate. Já a diretora Lynne Ramsay usa e abusa desse simbolismo para expressar os sentimentos contraditórios de Eva e acerta ao colocar a personagem lavando a sua casa durante o decorrer do filme, utilizando este fato para mostrar seu lento e doloroso caminho em busca da auto-aceitação.

Além disso, Ramsay é capaz de realizar planos marcantes, como aquele em que Eva surge dividida por uma parede em uma prisão (o que mostra suas dúvidas internas), e também encontra espaço para homenagear de forma sutil filmes que servem como referência para sua obra: Elefante (2003), de Gus Van Sant, e Tiros em Columbine (2002), de Michael Moore.

Estabelecendo ligação com a Bíblia, o desfecho do filme se relaciona diretamente com uma das cenas iniciais, na qual Eva aparece em uma pose que remete à crucificação de Jesus Cristo. Assim, o perdão ao outro é necessário para que a protagonista aceite os próprios erros e garanta uma mínima paz de espírito, podendo até mesmo vislumbrar em seu filho uma humanidade que parecia perdida.

Nota: 8,5/10

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