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Confesso que não tenho a menor simpatia pelo beisebol, esporte que até hoje é visto com estranhamento pela maior parte dos brasileiros. Por isso fiquei aliviado ao descobrir que não é preciso gostar desta modalidade para admirar este O Homem que Mudou o Jogo, filme dirigido por Bennett Miller (de Capote). É claro que um entendimento maior sobre as regras e o posicionamento dos atletas em campo torna mais claras algumas passagens da história, mas na maior parte dela o esporte serve apenas como pano de fundo para um interessante estudo de personagem.

Billy Beane (Brad Pitt) é um ex-jogador que tinha tudo para ter sucesso como profissional, mas que acabou não correspondendo às expectativas geradas por suas performances na universidade. Após a aposentadoria precoce ele se torna diretor do Oakland Athletics, time de baixo orçamento que luta para ter resultados positivos contra adversários muito mais badalados. A perda dos três principais jogadores da equipe após mais uma temporada sem título e o encontro com um jovem economista (Jonah Hill) fazem com que Beane decida fazer uma mudança radical em sua política de contratações, apostando em um método matemático para encontrar jogadores eficientes e baratos.

Há uma série de conflitos que vêm à tona com essa inovação, e todos merecem atenção do ótimo roteiro escrito pelos já consagrados Aaron Sorkin (de A Rede Social) e Steve Zaillian (de Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres), que apresenta personagens interessantes (notadamente os de Pitt e Hill) e diálogos bem construídos (o melhor deles na série de compras e vendas de jogadores pelo telefone).

O primeiro conflito é o embate entre o velho e o novo, entre o romantismo e o profissionalismo no esporte. Enquanto olheiros que mal sabem fazer contas lamentam o fim de uma certa aura na maneira de contratar jogadores e denunciam uma suposta desumanização do jogo, Beane e seu novo parceiro acreditam plenamente que a nova maneira de administrar a equipe trará frutos dentro de campo. E como podemos repudiar esta atitude numa liga em que jogadores não passam de mercadorias que podem ser trocadas a qualquer momento?

Indo fundo na ideia do profissionalismo, o personagem de Jonah Hill levanta um segundo conflito: o da essência contra a aparência. Pois se a eficiência é o grande objetivo do esporte, por que outros aspectos (“ele tem uma namorada feia, então não tem autoconfiança”) seguem sendo valorizados pelos times nas contratações de jogadores? Da mesma forma, não importa se alguém é gordo, tímido e use óculos, mas sim que ele tenha boas ideias.

Tomando uma posição clara sobre essas questões, o protagonista passa por um embate interno entre suas próprias convicções. Sem nunca ter superado a frustração por seu fracasso como jogador, Beane já ultrapassou há tempos a barreira entre paixão e obsessão pelo esporte e aposta no sucesso como dirigente como maneira de acertar as contas com o passado. A sua dedicação excessiva à profissão (ele é capaz de acertar a contratação de jogadores até mesmo no Ano Novo) é um dos motivos para que não consiga construir relacionamentos sérios, embora tenha uma empatia notável com a filha de 12 anos, fruto de um casamento que não deu certo. Assim, a nova maneira de administrar a equipe trará para Beane aquilo que não tinha há muito tempo: algo em que possa acreditar.

Novamente escolhendo bem os seus papéis, Brad Pitt traz humanidade e amargura ao seu personagem e não precisa de grandes gestos para mostrar a frustração de Billy Beane e o seu posterior reencontro. Como seu parceiro, Jonah Hill tem uma atuação admirável, demonstrando o amadurecimento contínuo do personagem, que surge como um jovem inseguro em suas primeiras aparições. Já o brilhante Philip Seymour Hoffman apenas cumpre tabela no papel de um treinador que não concorda com as decisões tomadas por seu superior.

Mesmo tendo grande parte dos méritos ligados ao roteiro e às atuações, o filme é bem conduzido pelo diretor Bennett Miller, que aposta em soluções visuais interessantes, como na cena em que o orçamento das duas equipes são mostrados antes de seus nomes, ou nas vezes em que planilhas e números tomam a tela. Também pode-se creditar a Miller a inteligente opção de colocar Billy Beane quase sempre deslocado ou cercado durantes as reuniões com colegas da equipe ou de outros times, o que demonstra a falta de apoio que terá para implantar sua nova forma de gestão.

Passando longe da tentação maniqueísta de julgar os personagens e suas ideias, o filme mostra acima de tudo a importância de acreditarmos nas decisões que tomamos em nossas vidas, independentemente do que os outros pensem sobre elas. Pois é só estando bem com nós mesmos que ficaremos aptos a alcançar o sucesso pessoal, que na maioria das vezes podemos atingir de maneira muito mais simples do que imaginamos.

Nota: 7,0/10

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