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Pensando na vitória de O Artista me veio à cabeça uma tese que não sei se tem muito fundamento, mas que para mim faz todo sentido: como prêmio da indústria de cinema, o Oscar gosta de promover filmes de novos diretores em detrimento de nomes consagrados. Fazendo uma pesquisa sobre os resultados dos últimos dez anos, recordei de alguns casos assim. Como não lembrar da vitória de Chicago sobre O Pianista, ou de Crash sobre O Segredo de Brokeback Mountain? Embora tenham perdido a estatueta de direção para os veteranos Roman Polanski e Ang Lee, os filmes de Rob Marshall e Paul Haggis foram vencedores na categoria principal.

Nos últimos dez anos, os prêmios para filmes de diretores consagrados foram apenas três. Em dois dos casos, nos de Martin Scorsese, por Os Infiltrados, e dos irmãos Coen, por Onde os Fracos Não Têm Vez, a Academia se rendeu ao óbvio talento dos diretores, que já mereciam a estatueta por muitos trabalhos anteriores. Já Clint Eastwood voltou a ser reconhecido por seu trabalho em Menina de Ouro mais de dez anos depois de seu Oscar por Os Imperdoáveis, mas vem sendo esnobado nas últimas indicações à premiação.

Nas últimas quatro cerimônias, diretores novatos ou pouco conhecidos foram consagrados nos filmes Quem Quer Ser Um Milionário (Danny Boyle), Guerra ao Terror (Kathryn Bigelow), O Discurso do Rei (Tom Hooper) e O Artista (Michel Hazanavicius). Destes, apenas o filme de Bigelow mereceu a estatueta, isso levando em conta sua disputa com Avatar, de James Cameron (naquele ano o vencedor deveria ter sido Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino).

A vitória destes filmes menores, que bateram produções com um orçamento muito mais robusto, pode levar a crer que a Academia esteja sendo mais ousada, dando maior importância às qualidades artísticas do que ao impacto financeiro no mercado cinematográfico. No entanto, esta tese cai por terra ao percebermos a irrelevância dessas produções – notadamente dos fracos filmes de Boyle e Hooper – e a falta de perspectiva de seus diretores atualmente.

Com apenas três filmes medianos no currículo, Hooper foi alçado a um patamar injusto e inesperado (lembrar que ele possui o mesmo número de estatuetas de melhor diretor do gênio Martin Scorsese é deprimente), e o sucesso de sua carreira segue sendo incerto (o diretor está filmando uma nova versão de Os Miseráveis, de Victor Hugo). Já Boyle, que fez filmes interessantes no início da carreira, venceu o Oscar por um de seus piores longas, e depois disso só realizou o mediano 127 Horas.

A premiação desses dois diretores é, para mim, muito menos absurda do que a que foi atribuída no último domingo para Michel Hazanavicius e o seu O Artista. Embora ache o filme francês inferior ao A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, o considero digno. No entanto, isso não faz com que deixe de questionar a suposta ousadia da Academia.

Em primeiro lugar, devo minimizar o fato considerado por muitos histórico de que o Oscar finalmente foi vencido por uma produção de um país com língua não-inglesa. Na minha opinião, não há absolutamente nada de francês em O Artista, que faz uma homenagem para Hollywood, filmada nos EUA, com atores coadjuvantes americanos. Tudo bem que os personagens principais são interpretados por um francês e uma argentina, mas, para alívio do votantes da Academia, eles não falam (com exceção da sequência final, em que há falas ditas em inglês durante uma homenagem aos musicais, gênero tipicamente … americano!).

Outro aspecto que deve ser relativizado é a ousadia do próprio filme. Não há como negar que Hazanavicius foi muito corajoso ao planejar uma produção muda e em preto-e-branco em pleno século XXI, e esse mérito não pode ser tirado do francês, que reconheceu no momento atual (da revolução digital e do 3D) fatores que remetem diretamente à maior transição já sofrida pelo Cinema e lembrou da importância inevitável de uma boa narrativa. No entanto, acredito que O Artista não consegue ir muito além de sua nostálgica ousadia formal proposta inicialmente, se tornando ao final um filme pouco inovador em seu conteúdo.

Um exemplo retirado de outra categoria mostra bem o que virou uma tônica no Oscar. Meryl Streep, que já teve 17 indicações ao prêmio de melhor atriz, ganhou neste domingo apenas a sua terceira estatueta, a primeira em três décadas. Se nesse ano houve uma concorrente a altura (Viola Davis), em várias outras oportunidades ela também merecia ser laureada, mas acabou derrotada por artistas com currículos e atuações bem inferiores. Nessas ocasiões, a justificativa para que Streep não vencesse era a mesma. Dizia-se que ela já tinha muitas indicações, e que deveria dar oportunidades aos mais jovens.

Pois é essa ideia equivocada que, a meu ver, tem interferido nos prêmios principais há pelo menos uma década. Nesse ano, novamente um veterano (Scorsese) perdeu para um “novato” (Hazanavicius), que até então só havia dirigido filmes pouco conhecidos e audaciosos (incluindo duas paródias sobre o 007). Isso não significa que eu ache que o currículo dos cineastas deva ser decisivo em uma premiação que visa consagrar os melhores filmes do ano, e não as melhores carreiras, mas o problema é o número excessivo de estatuetas dadas a nomes e filmes pouco relevantes (e aqui, mais uma vez, deixo claro que gosto de O Artista, mas acho que ele vem sendo supervalorizado).

Assim, acredito que essa tendência do Oscar vem rebaixando cada vez mais a sua relevância artística, e a maior prova disso se dá quando pensamos nas premiações de anos recentes e temos que recorrer ao Google para lembrar dos vencedores (Tom Hooper é o maior exemplo disso). Nesse sentido, é curioso que O Artista tenha como um dos seus temas o rápido esquecimento das celebridades e dos próprios filmes, algo que a própria produção de Hazanavicius pode enfrentar quando a Academia escolher mais uma novidade para premiar.

PS: O título do post faz referência ao artigo Uma Certa Tendência do Cinema Francês, que François Truffaut escreveu em 1954 para criticar o cinema que à época era praticado na França. Esse texto é tido como referência para as ideias implantadas anos mais tarde pelos cineastas da Nouvelle Vaugue. Para ficar claro, faço aqui apenas uma homenagem ao grande crítico e diretor francês, sem qualquer pretensão utópica de me comparar a ele.

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