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Trabalho ousado do diretor Nicolas Winding Refn, Drive é um filme difícil de ser enquadrado dentro de um gênero específico. Flertando entre ação, drama e romance, a produção se centra na trajetória de um protagonista que, da mesma forma, não é facilmente classificável. A omissão do nome do personagem de Ryan Gosling – que é chamado apenas de Motorista – e dos fatos ocorridos em seu passado são úteis para evitar qualquer tipo de justificativa ao seu comportamento no presente. Dessa forma, Refn abre caminho para um estudo de personagem muito bem realizado, no qual as ações do protagonista são suficientes para transformá-lo em um peculiar e trágico herói de nossos tempos.

O reflexo distorcido no vidro e a sombra na parede retratam a divisão interna de um protagonista que vamos conhecendo aos poucos. Seja como piloto que ajuda na fuga de criminosos, mecânico ou dublê de filmes de ação, o personagem se define pelo ato de dirigir. É apenas dentro de um carro que ele se sente seguro em meio à imensidão da caótica metrópole de Los Angeles. Essa segurança, no entanto, não parece trazer felicidade para aquele homem quase incapaz de sorrir, o que demonstra que, para ele, sua rotina se assemelha mais a um fardo do que a algo prazeroso.

Um fato novo surge quando o Motorista conhece Irene, vizinha que tem um filho pequeno para cuidar. Mesmo mantendo o seu ar misterioso e solitário, sendo quase sempre monossilábico, o protagonista vê naquela família, por mais problemática que seja, algo que gostaria de ter. Mas quando o marido de Irene retorna da cadeia e passa a ser ameaçado por criminosos, o Motorista se vê obrigado a ajudá-lo, mesmo sabendo que isso pode significar o fim de suas pretensões.

O que faz com que o público se identifique com o protagonista é o seu estreito código de ética, que, mesmo não se enquadrando necessariamente dentro das leis, conduz o personagem a um caminho que, em sua ótica, é o certo. O Cinema costuma nos apresentar figuras desse tipo, sendo as mais célebres delas Vito e Michael Corleone, da trilogia O Poderoso Chefão. Assim, não classificamos o personagem de Gosling como um ladrão ou cúmplice, já que para ele a fuga de locais de crimes é apenas mais um de seus trabalhos, nos quais evita qualquer envolvimento futuro com o contratante. Da mesma forma, aprovamos a sua conduta com relação ao marido de Irene e o seu desejo de vingança posterior, que coloca a honra à frente de qualquer mala lotada de dólares.

Esta identificação com o protagonista é fundamental para o funcionamento do filme, e não seria a mesma sem o brilhante trabalho de Ryan Gosling, que vem se consagrando como um dos principais atores de sua geração. Com uma atuação minimalista, ele faz do Motorista um tipo solitário e triste que, mesmo quando se alegra, apresenta mínimas mudanças de expressão. Esta frieza habitual o torna ainda mais assustador quando se mostra capaz de realizar atos violentos sem nenhum tipo de hesitação, dando a entender que já praticou tais ações em outros momentos de seu passado.

Embora eficiente, o restante do elenco não chega nem perto de igualar o nível de atuação de Gosling. Desde que surgiu como grande promessa em Educação, Carey Mulligan ainda não provou ser uma grande atriz, e aqui não se destaca nem compromete no papel da garota pedestalizada pelo protagonista. No núcleo de criminosos, Albert Brooks rouba a cena como um homem extremamente calculista e violento, enquanto que Bryan Cranston também vai bem como o amigo e empregador do Motorista.

Na direção, Refn realça o isolamento do protagonista o colocando nas extremidades dos planos quando aparece ao lado de outros personagens, notadamente nas primeiras cenas, mas a sobriedade e a objetividade que dão o tom na metade inicial da narrativa são substituídas por uma estilização acentuada nos momentos finais, principalmente nas cenas que envolvem derramamento de sangue. Se por um lado esse exagero atrapalha todo um clima cuidadosamente construído pelo diretor durante boa parte do filme, por outro ele se justifica ao expor o lado sombrio do protagonista, que se adapta perfeitamente a situações violentas.

Como diz a música que toca no começo e no final do filme, o Motorista prova ser “um herói e um ser humano de verdade” ao término da projeção. No entanto, o problema é que sua natureza humana exponha instintos tão indesejáveis que, por mais que tente controlar, voltam à tona de uma forma ou de outra. Assim, de nada adianta para o protagonista seu heroísmo solitário, já que a ilusão de um relacionamento sincero acaba soterrada pela triste constatação de que a fuga constante – dos outros e de si mesmo – parece ser a melhor solução para alguém que só tem pleno domínio de seus atos quando sentado em um banco de carro.

Nota: 8,0/10

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