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Lançado no final do ano passado no Brasil, Margin Call chegou a algumas salas de cinema em São Paulo e, infelizmente, acabou saindo de cartaz em poucas semanas. Mesmo o tendo visto há cerca de três meses, ainda me pego de tempos em tempos pensando no belo trabalho do diretor e roteirista J.C. Chandor, que conseguiu logo em sua estreia em longas-metragens realizar um filme extremamente maduro sobre um tema difícil de ser tratado: a crise econômica mundial, iniciada em 2008 e ainda sem data para ser superada.

Até quando não se foca especificamente em um fato histórico, o Cinema sempre pode ser visto como um retrato de seu tempo. Este aspecto é acentuado quando os filmes resolvem tratar diretamente de algum assunto de relevância da atualidade, como é, até agora, a crise e as consequências por ela trazida. Em um primeiro momento, alguns filmes quiseram dar conta das causas da turbulência econômica, mas nem todos obtiveram êxito.

Apesar de ser altamente relevante em seu conteúdo ao mostrar que os principais responsáveis pela deflagração da crise nos EUA não foram punidos e seguiram com poder intocável mesmo após a transição Bush-Obama, Trabalho Interno peca por sua forma burocrática, que o atrapalha como filme. A situação se inverte quando falamos de Capitalismo: Uma História de Amor, que tem na habitual criatividade narrativa de Michael Moore seu principal mérito, mas que realiza um discurso um tanto quanto superficial se comparado ao do outro documentário. Saindo do documental para o ficcional, a tentativa de Oliver Stone de recuperar Gordon Gekko nada traz de novo sobre o assunto e resulta em um filme pior que os outros dois citados (Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme).

Nesse contexto, Margin Call surge como o filme que, até o momento, melhor soube enquadrar o tema de uma maneira interessante em variados aspectos, unindo ficção e realidade e sendo eficiente tanto na forma quanto no conteúdo. A história se passa quase toda dentro do prédio de um banco de investimentos que é claramente inspirado no Lehman Brothers, instituição cuja falência foi tida como estopim para o desencadeamento da crise em todo o mundo. É naquele local que, em menos de 24 horas, uma descoberta de um funcionário recém-demitido e o auxílio de um iniciante no mercado financeiro servem para mostrar que a situação daquela empresa é muito pior do que seus dirigentes imaginavam, e que decisões importantes terão que ser tomadas imediatamente.

Um dos maiores méritos do diretor e roteirista J.C. Chandor é o de saber manter a história interessante mesmo com um final que todos nós conhecemos, já que a crise econômica se tornou uma realidade. Para conseguir isso, Chandor cria um ambiente de constante tensão apoiado em ambientes claustrofóbicos, o que dá ao filme um ar de pesadelo contemporâneo, como na cena em que, com todas as luzes apagadas, um funcionário descobre em seu computador que a situação da empresa é de alto risco.

Outro ponto positivo do filme é o de saber falar de assuntos econômicos sem ser excessivamente chato nem extremamente superficial. Os termos utilizados pelos especialistas para justificar a iminente crise são citados, mas a dificuldade para entendê-los é apontada como um artifício do mercado financeiro para lucrar ainda mais. É dessa auto-análise que surge uma das cenas mais brilhantes do filme, na qual o dono do banco de investimentos admite sua ignorância sobre o tema e pede para um funcionário lhe explicar sobre a crise como se estivesse falando com uma criança.

Esse é apenas um dos ótimos diálogos que permeiam o filme e que tornam o roteiro de Margin Call um dos melhores dos últimos anos. O executivo feito por Paul Bettany é responsável por dois momentos memoráveis: o primeiro, quando diz como consegue gastar todo seu salário milionário em pouco tempo; o segundo, quando defende a importância do mercado financeiro como propulsor dos desejos e ambições das pessoas. O dono do banco, interpretado brilhantemente por Jeremy Irons, não fica atrás ao explicar aos funcionários como se dar bem no mundo capitalista (“Seja o primeiro, seja o mais inteligente ou trapaceie”).

Mas é o personagem de Stanley Tucci o responsável por um monólogo brilhante, no qual lembra o quão útil foi para outras pessoas quando era engenheiro e construiu uma ponte que ficará intacta por muitos e muitos anos. O seu caso é idêntico ao de muitos profissionais de outras áreas (economistas, engenheiros, matemáticos) que são atraídos para o mercado financeiro pelos melhores salários ofertados, mas que não encontram em seus novos postos uma possibilidade de contribuir de alguma forma para a melhora da sociedade, em um exemplo claro do individualismo predominante nos dias de hoje.

A qualidade do roteiro de Margin Call deve ter sido fundamental para atrair um elenco de peso ao filme de um diretor iniciante. Os veteranos Kevin Spacey, Jeremy Irons, Stanley Tucci, Paul Bettany e Demi Moore se juntam aqui ao jovem Zachary Quinto, candidato a astro desde que encarnou Spock no novo Star Trek. Com exceção dos personagens de Tucci e Quinto, todos os outros têm comportamentos reprováveis, mas não deixam de ser interessantes, já que estão apenas defendendo seus interesses em meio a um ambiente altamente hostil. Nesse sentido, é simbólico que o único ato de compaixão em todo o filme seja dirigido a um animal.

Em determinada cena, na qual dois jovens funcionários estão sentados no banco de trás de um veículo, a fotografia os define sem que seja necessária uma só palavra (veja este momento aqui). Enquanto que o personagem de Zachary Quinto é iluminado com uma luz amarela, o que demonstra sua inocência, o seu companheiro é banhado por tons vermelhos, que já refletem a sua total incursão no mundo do sistema financeiro, no qual a ganância é mais importante do que qualquer princípio ético para se obter sucesso. Pensando nisso, é triste constatar que o personagem de Kevin Spacey teve um dia as mesmas boas intenções do de Quinto, mas acabou se integrando de maneira irreversível a um sistema em que o fator humano não tem a mínima relevância, e no qual poucos decidem o destino de muitos.

PS: Com Margin Call, J.C.Chandor se tornou a grande revelação do cinema americano em 2011. Segundo o IMDB, o próximo trabalho do cineasta, com previsão de lançamento para o ano que vem, se chamará All Is Lost (Tudo Está Perdido) e terá como protagonista o veterano Robert Redford. Pela ótima estreia, é bom ficar de olho em seus próximos filmes.

Nota: 8,0/10

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