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Por mais que isso costume passar despercebido, a música tem um papel fundamental na filmografia de Martin Scorsese, como se comprova no capítulo especialmente dedicado ao tema no ótimo livro Conversas com Scorsese, de Richard Schickel. Além de dar atenção especial à trilha sonora de seus filmes de ficção, o cineasta americano já fez uma série de longas focados no universo musical, começando por O Último Concerto de Rock (sobre The Band) e passando por No Direction Home (sobre Bob Dylan) e Shine a Light (sobre os Rolling Stones). Como sequência natural deste interesse, Scorsese realizou no ano passado mais um belo documentário sobre o assunto: George Harrison: Living in the Material World.

Com livre acesso a um amplo arquivo sobre o cantor, que inclui entrevistas, fotos, vídeos caseiros, cartas e apresentações do guitarrista, o diretor ainda contou com diversas filmagens atuais com personagens que conviveram com Harrison. O resultado de todo esse material é um interessante painel de três horas e meia sobre a música e a vida do Beatle mais avesso à fama.

Em uma das primeiras cenas do filme, Harrison aparece rezando e assinando os papéis que selaram o fim oficial dos Beatles. A sensação que temos naquele momento é que o guitarrista está bem mais aliviado do que triste por deixar a banda, e é isso que será confirmado ao longo da metade inicial do documentário, que foca sua ascensão ao lado dos garotos de Liverpool.

Mesmo tendo um talento inegável, que é comprovado ao longo de todo o filme em suas canções, George demorou a demonstrar a sua habilidade como compositor e, quando o fez, se viu em uma concorrência desleal com John Lennon e Paul McCartney, que se destacavam em qualidade e quantidade e executavam um duelo criativo a cada disco, como afirma o produtor George Martin.

Sempre lutando para encaixar suas composições nos CD’s dos Beatles, o guitarrista foi acumulando muitas músicas de sua autoria, e o término da banda acabou permitindo a reunião de todas elas em All Things Must Pass, primeiro disco triplo de um único artista a ser lançado na história.

Falando sobre George Harrison, a primeira parte do documentário não teria como deixar de tratar da ascensão dos Beatles, que é mostrada em diversas apresentações do grupo em seus primeiros anos de existência e na crescente adoração histérica dos fãs aos músicos. Antes disso, porém, é notável o resgate dos tempos de anonimato da banda, cujos integrantes chegaram a dormir em um pequeno quarto atrás da tela de um cinema pornô em Hamburgo, na Alemanha. Naquela época, Stuart Sutcliffe, que viria a falecer por conta de uma hemorragia cerebral em 1962, era o quinto integrante do grupo que viria a ser conhecido como Fab Four.

Com uma montagem sempre eficiente, que aproveita o vasto material disponível para ir e voltar no tempo sem nunca perder o ritmo, o filme dá ênfase em sua segunda metade à vida pessoal de George Harrison e a sua constante busca espiritual. Ainda dentro do Beatles, o guitarrista não se contentou em chegar ao auge do sucesso e buscou novas experiências, primeiro nas drogas e depois na religião Hare Krishna. No fundo, como todo ser humano, Harrison queria justificar a sua existência neste planeta e ter paz ao deixá-lo. Em seu caso, isso ganha uma importância ainda maior por sua crença na vida após a morte.

Sempre cercado de amigos, muitos deles conhecidos no meio musical, na indústria cinematográfica (ele produziu A Vida de Brian, do grupo Monty Python) e até nas corridas automobilísticas (Jackie Stewart), o guitarrista buscou a transcendência pessoal não só na religião, mas principalmente na música, que adotou como uma espécie de missão de vida na Terra (“é o que eu sei fazer”).

Dando conta com sucesso das qualidades de George Harrison, o documentário de Scorsese poderia ganhar em complexidade se desse um pouco mais de espaço aos defeitos do artista. Alguns entrevistados chegam a definí-lo como um homem de extremos, mas essa característica nunca chega a ser bem exemplificada. Além disso, temas delicados como o uso de drogas após o seu contato com a religião e suas possíveis traições a Olivia Harrison são apenas sugeridos, o que pode ser justificado pela participação da última mulher de George como idealizadora e produtora do filme.

Apesar desse porém, é inegável que da primeira aparição de Harrison – quando ele olha em direção à câmera em uma filmagem caseira no seu jardim -, até a repetição da mesma cena, nos minutos finais do documentário, podemos conhecer melhor a intimidade de um homem que soube aproveitar a sua passagem por este planeta.

Nota: 7,5/10

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