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Quem for aos cinemas esperando assistir à reconstituição de jogos importantes disputados por Heleno de Freitas (1920-1959) vai se decepcionar com o novo filme de José Henrique Fonseca. Admitindo a dificuldade de gravar cenas de futebol, o diretor incluiu poucas tomadas de partidas no corte final e optou por realizar cenas estilizadas, se eximindo de qualquer pretensão realista. Como nos melhores filmes que têm atletas como protagonistas, Heleno não tem como foco o esporte (neste caso o futebol), mas o utiliza como pano de fundo para uma tragédia pessoal – e é nesse aspecto que reside o seu maior êxito.

Craque do Botafogo e de outras equipes nos anos 40 e 50, Heleno de Freitas viveu na era anterior à consagração do futebol brasileiro como potência mundial (consolidada com a conquista da Copa do Mundo de 1958). Talvez por isso, e não só pela distância temporal, que ele tenha sido esquecido pouco a pouco pelas novas gerações. Assim, por mais que não tenha a pretensão de ser uma biografia tradicional, o filme exerce um papel de resgate da figura singular de Heleno e, fazendo isso, mostra como ele foi muito mais complexo e interessante do que os jogadores polêmicos da atualidade.

A cena que abre o filme caracteriza bem a tragédia do atleta. Já enlouquecido pela sífilis, Heleno fita alguns recortes de jornal que exaltam seus feitos como jogador e tenta os engolir, como se estivesse buscando reincorporar o seu próprio passado. O fato, no entanto, é que Heleno deixou de ser o que era ainda em vida, e o que acompanhamos nas idas e vindas no tempo proporcionadas pelo roteiro é uma história de perdas de um homem que, depois de ter tudo, enfrentou uma rápida decadência física e mental que transformou ele próprio em um nada.

Vindo de família rica e formado em direito, Heleno poderia ter seguido qualquer outro rumo profissional, mas foi atraído pela adrenalina constante vivida nos estádios. O gramado era o único lugar em que seu comportamento egoísta e arrogante o beneficiava, e o sucesso decorrente de seu talento como jogador contribuiu para a manutenção de uma rotina de excessos (repare como ele sempre fuma dois cigarros por vez), seja no convívio com mulheres ou no uso de drogas. No entanto, houve um momento em que a falta de limites acabou se voltando contra si mesmo de diversas formas.

A gana pela vitória fazia com que Heleno tratasse mal seus companheiros – dos quais cobrava a mesma raça e desempenho que tinha -, e o relacionamento conturbado fez com que saísse do Botafogo sem ter conquistado nenhum título (o amor do protagonista pelo time alvinegro é realçado pelo diretor ao nunca mostrá-lo com a camisa de outra agremiação). O seu temperamento explosivo também o tirou da Copa do Mundo de 1950, graças a uma briga com o técnico Flávio Costa. Além disso, o seu perfeccionismo o levou a retardar o tratamento da sífilis, pois detestava a ideia de ficar “fraco” e “broxa”, duas características que poderiam interferir negativamente no desfrute de suas maiores paixões: o futebol e as mulheres. A sua obstinação pelo presente, porém, só adiou brevemente o preço que lhe seria cobrado pelo futuro.

Há em Heleno de Freitas o mesmo poder de auto-destruição de Jake La Motta, boxeador vivido por Robert De Niro em Touro Indomável.  Aliás, o filme de Martin Scorsese – até hoje o melhor já feito com o esporte como pano de fundo – é a grande inspiração para o longa de José Henrique Fonseca, não só pela temática semelhante (ascensão e queda de um esportista), mas também pela bela fotografia em preto e branco do veterano Walter Carvalho, que serve tanto para realçar a beleza do Rio de Janeiro dos anos 40 como para destacar a melancólica atmosfera dos últimos momentos do craque.

No entanto, Heleno seria um fracasso se não contasse com uma grande atuação de seu protagonista, e Rodrigo Santoro, aqui em seu melhor momento na carreira, não decepciona. A transformação física oposta à de De Niro – ao invés de engordar, ele emagreceu doze quilos para fazer o personagem em seus últimos anos – é apenas uma prova de sua total entrega ao papel. Santoro vai bem tanto na fase áurea de Heleno, quando encarna o seu charme e arrogância, quanto na fase decadente, quando a sua expressão corporal cabisbaixa e seu olhar vazio retratam um homem já totalmente dominado pela loucura.

Em uma cena em que se descontrola no vestiário após uma derrota do Botafogo, Rodrigo Santoro lembra a fúria de De Niro no momento em que se debate contra a parede de uma cela no filme de Scorsese e diz: “eu não sou um animal” (veja aqui). No entanto, mesmo sofrendo a mesma decadência abrupta que La Motta, Heleno de Freitas teve uma história ainda mais trágica por não ter sequer condições de refletir sobre seus erros do passado.

Em certo momento do filme, ainda em seu auge, Heleno é questionado sobre sua rotina cheia de compromissos e responde de modo debochado: “quando eu morrer eu descanso”. Com o conhecimento do triste fim do personagem, a frase carrega uma triste ironia, já que o craque teria um repouso forçado ainda em vida e seria constantemente atormentado pelas lembranças do que havia sido.

Nota: 8,0

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