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“My friends, I address you all tonight as you truly are; wizards, mermaids, travelers, adventurers, magicians… Come and dream with me.”

A fala de Ben Kingsley no papel de Georges Méliès em uma das partes-chave do filme A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, serve bem para introduzir a experiência que tive no ultimo domingo. Não, não era Georges quem estava em cima do palco do Museu da Imagem e do Som (MIS) apresentando algumas de suas produções, mas sim a sua bisneta, Marie-Hélène Lehérissey-Méliès, e seu tataraneto, o músico Lawrence. No entanto, o ambiente era semelhante àquele vivenciado pelos primeiros admiradores das imagens em movimento, com um pianista se encarregando de tirar o rótulo de ‘mudo’ dos filmes e uma narradora situando o espectador e indo um pouco além do papel que viria a ser dos intertítulos. De diferente, mesmo, só o menor barulho dos projetores atuais, que há muito tempo não necessitam de uma manivela para funcionar.

Mágico de sucesso na Paris do final do século XIX, Méliès viu no cinematógrafo dos irmãos Lumiére o que nem os seus próprios inventores enxergaram: a possibilidade de utilizar o instrumento de modo ficcional, fantasioso e criativo, o que se diferenciava sobremaneira dos filmes documentais até então realizados. Desbravando as possibilidades que o novo meio lhe oferecia, o francês realizou mais de 500 filmes entre 1896 (ano seguinte à invenção do cinema) e 1913, sendo o produtor, o diretor, o roteirista, o cenógrafo e o ator principal na grande maioria deles. No MIS, onde está sendo realizada uma exposição sobre a carreira do cineasta (sobre a qual tratarei em breve), 16 dessas obras foram exibidas no último domingo.

Tomando-as como um todo, pude notar e apreciar a intensa experimentação que Méliès realizou em seus filmes. Sem nenhuma base anterior de linguagem cinematográfica, o francês não tinha outra alternativa senão inovar, e muitas das suas descobertas – como o efeito stop action,  que deu início aos efeitos especiais -, foram feitas na prática. Por causa disso, e também pelo tom quase sempre bem-humorado adotado, as produções do francês são carregadas de uma contagiante alegria pelo descobrimento de novas técnicas e pelo deslumbramento que elas causavam não só nos espectadores, mas também em seu realizador (veja abaixo um exemplo claro disso no filme L’homme a la tête en caoutchouc, de 1901).


Assistir a um filme de Georges Méliès, seja ele qual for, é presenciar a evolução do cinema ao status de Arte e lembrar dos motivos que nos levam até hoje em direção àquela sala escura, na qual ainda nos emocionamos com imagens em movimento. Pois mais de 100 anos após os seus lançamentos, essas produções continuam a encantar plateias como a do último domingo, que, mesmo já tendo contato com uma linguagem cinematográfica consolidada ao longo de mais de um século, não deixa de entender a comicidade universal dessas obras, e, mais do que isso, a relevância histórica tanto do contexto cultural daquela época, quanto dos avanços técnicos realizados por Méliès – é impressionante, por exemplo, constatar que vários desses filmes já eram coloridos manualmente, quadro a quadro, em processo que levava cerca de quatro meses por exemplar.

Em meio a truques com pessoas/objetos (O Homem Orquestra), histórias com inspiração literária (Barba Azul) e até religiosa (A Tentação de Santo Antônio, considerado o primeiro filme sobre o tema), Méliès realizou a sua obra-prima em A Viagem à Lua, primeiro filme de ficção científica da história. Lançado em 1902, apenas sete anos (!) após a invenção do cinematógrafo, a obra apresenta conceitos de montagem e efeitos especiais muito avançados para a época. Com cerca de dez minutos de duração, a história dos cientistas que resolvem explorar o satélite natural da Terra revela não só a grande capacidade criativa do seu realizador, mas também todo o imaginário coletivo de uma época em que chegar até a Lua não passava de um grande sonho (veja o filme abaixo).


Com obras como essa, Méliès abriu caminho para novas evoluções na linguagem cinematográfica, e por isso seu pioneirismo não deve ser esquecido nunca. Não à toa, a família do diretor se dedica há quatro gerações a difundir o legado de seu membro mais famoso, sendo que, para isso, até textos feitos pelo cineasta para introduzir os seus filmes foram transmitidos oralmente.

Bem-humorada e brincando com o público, a bisneta de Méliès disse no MIS que se alegrava pelo alto número de jovens na plateia do evento (que teve de abrir uma sessão extra pela alta procura por ingressos), e também pelo fato de que os filmes de seu parente estavam sendo assistidos “como devem ser vistos” – em uma sala de cinema.

Aqueles que não estiveram presentes no MIS, no entanto, têm outras oportunidades para entrar em contato com a singular obra do diretor francês. Além dos muitos vídeos presentes no Youtube, é altamente recomendável aos interessados no assunto um DVD chamado Uma Sessão Méliès (Cultclassic), que está sendo vendido em lojas como Saraiva e Livraria Cultura por R$ 19,90. Nele, a neta, e não a bisneta, é quem apresenta 15 filmes de Méliès, que também são acompanhados simultaneamente por um pianista.

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