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A música brasileira se consolidou há algum tempo como rica fonte de inspiração para o cinema nacional. Além da grande quantidade de documentários e cinebiografias de artistas e movimentos do ramo, algumas produções – como As Canções, de Eduardo Coutinho, e Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper – trataram de diferentes formas os efeitos da música no imaginário de nossa população. Nesse contexto, o novo filme de Breno Silveira, À Beira do Caminho, surge com uma proposta inovadora ao basear seu roteiro ficcional em algumas canções de Roberto Carlos. E apesar de ter problemas claros em seu desenvolvimento, o filme ainda assim consegue ser um bom exemplo de cinema popular de qualidade, graças ao talento de seu ator principal e aos cuidados visuais de seu diretor.

O protagonista da história é o caminhoneiro João (João Miguel), que viaja sozinho pelas estradas brasileiras sem ter, aparentemente, nenhum lar para voltar ao término do expediente. O isolamento voluntário do motorista é rompido quando o garoto Duda – que acaba de perder a sua mãe e busca um meio de ir a São Paulo para encontrar com o pai que nunca conheceu – cruza o seu caminho e o faz se defrontar novamente com traumas do passado.

Com um espaço já assegurado entre os grandes atores desta geração do cinema brasileiro (em um grupo no qual incluo também Irandhir Santos, Selton Mello e Wagner Moura), João Miguel tem em À Beira do Caminho mais uma grande atuação, talvez a melhor de sua carreira. A postura retraída e as falas secas transmitem com grande verdade a figura de um homem amargurado, em contraste com aquela pessoa com brilho nos olhos que vemos em uma foto e em curtos flashbacks. Já o garoto Vinicius Nascimento se sai bem ao criar um personagem que possui ao mesmo tempo a ingenuidade infantil e a coragem encontrada graças a seu amadurecimento forçado.

Trabalhando com um roteiro que, ao contrário de sua premissa, não tem nada de inovador, o diretor Breno Silveira acerta ao conferir valor simbólico aos mais pequenos detalhes. Assim, não é à toa que o caminhão de João não carrega carga alguma no início do filme, já que o próprio protagonista passa por um momento de vazio existencial que será posteriormente preenchido (assim como o seu veículo). Da mesma forma, a aridez das paisagens iniciais combina com o bruto caminhoneiro do início do filme, enquanto que sua mudança ao longo do trajeto é retratada aos poucos pelo aparecimento de uma vegetação mais ampla. Por fim, a constante presença de rios circundando a viagem indica uma necessária travessia que o personagem terá que fazer para deixar seus traumas para trás.

Mesmo falhando ao deixar a música explicar a narrativa em alguns momentos do primeiro ato, o diretor desenvolve bem a relação de João com a obra de Roberto Carlos. Em um caminhão quase sem bagagens, dois dos três objetos relacionados a seu passado estão ligados ao tema: um CD do “Rei” e um violão. Apesar de deixar o instrumento musical em um baú e ter dificuldade para ouvir certas canções sem se descontrolar, o personagem não consegue se desfazer destes itens justamente pelo valor sentimental que eles possuem – e é interessante notar que a trilha sonora faz sentido para o protagonista tanto em relação a acontecimentos do passado quanto a seus desejos para o futuro.

Infelizmente, todo esse cuidado com o desenvolvimento do longa-metragem não é estendido ao roteiro de Patrícia Andrade, que além de colocar na boca do garoto Duda algumas frases extremamente explicativas e artificiais (“temos que olhar para frente”) recorre a uma resolução fácil e igualmente dispensável da trama, adotando um nível de otimismo que desvaloriza todo o sofrimento anterior de João. Isso, no entanto, não é capaz de apagar o vínculo emocional criado com o protagonista ao longo de todo o filme, que leva o espectador a abrir um sorriso quando escuta os versos de “O Portão” pela última vez.

Nota: 7,0/10

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