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Mesmo seguidos por milhares de torcedores, os grandes clubes brasileiros tardaram a reconhecer esses fãs como potenciais consumidores. Nos últimos anos, porém, essas equipes passaram a dar mais valor ao marketing esportivo e começaram a investir em ações que visam fortalecer suas marcas. Uma das formas encontradas para isso foi a produção de documentários que, além de garantirem lucro com a venda de ingressos e DVD’s, ainda servem como registro de feitos históricos dessas agremiações. Dentro deste contexto, o São Paulo Futebol Clube já ‘protagonizou’ dois filmes: Soberano (2010), que conta a história dos seus seis títulos brasileiros, e Soberano 2 – A heroica conquista do Mundial de 2005, lançado recentemente nos cinemas brasileiros.

Apesar de terem sido realizadas pela mesma equipe, chefiada por Carlos Nader e Maurício Arruda, as duas produções trazem algumas diferenças entre si no que tange às suas propostas. Enquanto o primeiro filme tratava de eventos ocorridos em um amplo espaço de tempo e acabava por contar essa história de uma maneira muito burocrática e apressada, Soberano 2 volta seu foco apenas para os dois jogos disputados durante o Mundial de Clubes de 2005, o que lhe dá tempo suficiente para se aprofundar em tudo o que envolveu aquele torneio.

Contando com imagens de arquivo não só das transmissões de rádios e televisões brasileiras e estrangeiras, mas também com filmagens feitas por torcedores e até por atletas como o zagueiro Alex Bruno, o filme traz ainda entrevistas com jogadores (Rogério Ceni, Diego Lugano, Mineiro, Amoroso e Aloisio) e dirigentes (Juvenal Juvêncio e Marco Aurélio Cunha) que participaram daquela conquista.

Há também o depoimento de quatro torcedores que, mesmo dizendo muitas obviedades, possuem histórias curiosas: o ex-preso que viu a decisão na cadeia junto com torcedores rivais; o fã que estava nos EUA e só acompanhou as imagens da decisão, sem o áudio; aquele que, de forma contrária, só pôde ouvir o gol de Mineiro em uma quadra de escola de samba na capital paulista; e o outro que estava presente no estádio em Yokohama.

Embora não fuja de uma narrativa linear, o filme acerta ao expor uma série de pequenas histórias que servem para entender o clima que cercava aquela decisão: o pré-contrato de Amoroso com um time japonês, a confusão a respeito da premiação (que todos juram não ter existido), o medo de perder o jogo de estreia diante do Al-Ittihad, o pavio curto de Lugano (que além de discutir com um jogador do time árabe, passou perto de ter sido expulso na final) e a contusão de Rogério Ceni – amenizada propositalmente pelo médico e superintendente Marco Aurélio Cunha, que relembra o caso de forma bem-humorada.

Essa contextualização, tão bem feita em relação ao jogo final, infelizmente falta ao filme como um todo. É óbvio que todo torcedor do São Paulo entende a importância do terceiro título mundial, mas a falta de qualquer tipo de menção à Copa Libertadores anteriormente conquistada (que propiciou a ida ao Mundial) e aos títulos conseguidos sob o comando de Telê Santana em 1992 e 1993 enfraquece a própria premissa da produção, já que a obsessão são-paulina pelo torneio sul-americano é algo notável – e nem mesmo um provável filme sobre esse tema exime Soberano 2 desta falha.

Outro equívoco é a ausência do técnico Paulo Autuori, que não foi entrevistado para a produção e quase não aparece no filme – os diretores dizem que não foi possível agendar um horário com o treinador, que atualmente está no futebol do Catar,mas o avanço das telecomunicações nos últimos anos torna a explicação quase inverossímil, já que não faltam recursos de gravação pela internet.

Mesmo assim, não se pode negar que o filme funciona bem como reconstituição histórica. A força do time de ‘gigantes’ do Liverpool, que estava há onze jogos sem tomar gols naquele momento, é utilizada para engrandecer o feito são-paulino, conseguido graças a um gol do pequeno Mineiro. Já os momentos posteriores da partida são protagonizados por dois personagens: Rogério Ceni e Hector Vergara. Enquanto o goleiro e capitão, mesmo machucado, tratou de fechar o gol tricolor com inúmeras defesas, o assistente virou outra figura fundamental para o título ao anular, corretamente, três gols da equipe adversária – e a convicção do profissional ao lembrar daqueles lances entra em contraste com o ceticismo de um torcedor dos Reds que acredita que o resultado foi combinado com a arbitragem.

Para o torcedor do São Paulo, porém, a tentativa de desmerecer uma conquista tão difícil não passa de um alívio cômico em meio às inúmeras emoções que Soberano 2 consegue resgatar.

Nota: 6,5/10

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