Tags

, , , ,

A rotina de qualquer policial já é naturalmente desgastante. Quando ele combate crimes cometidos contra crianças, então, o cansaço – mais mental do que físico – decorrente do acúmulo de ocorrências moralmente condenáveis se torna ainda maior. É justamente o cotidiano desses profissionais o tema de Polissia, ótimo filme francês que retrata as atividades da Brigada de Proteção de Menores, em Paris.

Embora não seja um documentário, o filme da diretora Maiwenn é muito realista, e isso tem uma série de motivos. Primeiramente, é preciso destacar que a cineasta realmente acompanhou esta corporação francesa por meses e trouxe os casos que vivenciou para o roteiro que escreveu junto com Emmanuelle Bercot. Além disso, a sensação de veracidade pode ser atribuída ao elenco uniformemente bom, à montagem com ritmo acelerado e ao uso frequente da câmera na mão, que acompanha os personagens de perto.

Sem recorrer a recursos didáticos, a narrativa se desenvolve por meio de um mosaico de situações que enfoca tanto os exaustivos interrogatórios e os empecilhos burocráticos enfrentados pelo departamento quanto o tempo livre dos policiais. Andando quase sempre em grupo, eles tentam esquecer a tensão de um dia de trabalho realizando atividades banais como brincar de mímica ou ir a uma danceteria, mas o apoio mútuo não é suficiente para evitar as consequências emocionais que o ofício, de uma forma ou de outra, traz às suas vidas particulares.

Assim, não é à toa que boa parte desses personagens vivem relacionamentos conturbados. Só para citar três exemplos: o impulsivo Fred deixa seus problemas pessoais transparecerem no modo como defende uma criança abandonada; a também passional Nadine reluta a se divorciar do marido; e a feminista Iris, que demonstra firmeza ao aconselhar a colega a se separar, esconde uma frustração que é revelada indiretamente por meio do plano mais chocante do filme.

Fugindo de uma abordagem apelativa, o roteiro é sensível ao revelar crimes tão desprezíveis através de falas como “meu pai me ama” ou “papai arranhou meu bumbum”, que mostram a natural inocência das crianças. Ao mesmo tempo, casos como o da menina que aceitou fazer sexo oral para recuperar o seu celular e o da garota que acha normal a manutenção de relações sexuais aos 14 anos expõem a banalização completa do tema na sociedade atual, o que torna o trabalho desses policiais ainda mais complicado.

Em meio a tantos acertos na direção e no roteiro, Maiwenn se torna um raro ponto fraco na produção ao desempenhar o papel de Melissa, uma fotógrafa contratada para retratar o cotidiano dos policiais. Fazendo menção ao período em que a cineasta acompanhou a corporação, ela se torna um óbvio elemento metalinguístico ao observar – dentro e fora das telas – a vida daquelas pessoas. No entanto, passamos o filme inteiro sem entender as suas reais motivações pessoais, e nem mesmo o seu relacionamento com um dos profissionais da Brigada serve para justificar sua participação, que poderia ter sido descartada sem qualquer prejuízo ao filme.

Este deslize, porém, passa longe de ofuscar as inúmeras qualidades de Polissia, que tem êxito inquestionável ao tratar de um tema difícil sem se render a qualquer tipo de concessão harmonizadora, como se pode comprovar no final visualmente belo e altamente simbólico do filme.

PS: O filme, que recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes do ano passado, foi exibido recentemente no Festival Varilux de Cinema Francês e entrará em cartaz no circuito comercial no próximo dia 14

Nota: 8/10

Anúncios