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A julgar por seus dois últimos filmes, pode-se afirmar que a principal preocupação do cinema do francês Philippe Lioret é o fracasso das instituições do capitalismo contemporâneo e as consequências sociais trazidas por isso. Tanto em Bem-Vindo (2009) quanto em Tudo O Que Desejamos – lançado recentemente nos cinemas brasileiros – a solução possível para esse impasse não é coletiva, e sim individual. As pequenas atitudes solidárias, mesmo que impensadas, são a base para um mundo mais humano, parece dizer Lioret.

Em Bem-Vindo, o personagem de Vincent Lindon pretendia impressionar a ex-namorada ao fornecer abrigo a um imigrante curdo que deseja ir para a Inglaterra. Só depois de um tempo é que ele se afeiçoa ao rapaz, percebe os absurdos da política anti-imigração do governo Sarkozy, e decide ajudá-lo a buscar seu objetivo. Já em Tudo O Que Desejamos, um ato de solidariedade a uma conhecida, somado a reflexões sobre a finitude da vida, resulta em uma ampla defesa contra pessoas oprimidas.

A alegre vida em família da juíza Claire (Marie Gillain) com seu marido e os dois filhos ganha data para terminar quando ela descobre ter uma doença incurável. Paralelamente a isso, ela se compadece pelo sofrimento da mãe da melhor amiga de sua filha, que está sendo processada por não ter cumprido contratos de empréstimo, e acaba tendo o auxílio de um magistrado veterano para lutar contra financeiras que exploram a falta de informação de seus clientes para lucrarem cada vez mais.

É essa relação quase paternal que surge entre os dois juízes que impulsiona todo o filme. O juiz, interpretado pelo sempre ótimo Vincent Lindon, vai aos poucos abandonando o ceticismo adquirido durante anos de trabalho e volta a acreditar na Justiça. Já Claire, que escolheu a profissão por influência das loucuras financeiras da mãe, se motiva não apenas pelo pouco tempo de vida que lhe resta, mas também por enxergar nesse processo uma maneira de interferir no destino de seus familiares, uma vez que ela se mostra mais forte emocionalmente do que seu marido.

Como a doença da protagonista quase não se reflete fisicamente, o que mais interessa nessa história não é a iminente morte de Claire, mas sim o seu questionamento interno sobre como ficarão as pessoas de que gosta sem ela. Este fato traz uma certa previsibilidade ao roteiro, mas evita a repetição de clichês típicos de filmes com essa temática. Além disso, deve-se ressaltar que as fortes e rápidas amizades surgidas entre alguns dos personagens nunca parecem artificiais, já que cada um deles possui uma motivação específica para se ligar um ao outro.

Com um humanismo que lembra aquele visto no recente As Neves do Kilimanjaro (2011), de Robert Guédiguian, Tudo O Que Desejamos, voluntariamente ou não, acaba fazendo uma curiosa releitura de uma das principais teorias de Adam Smith, pai do liberalismo econômico e grande influenciador do capitalismo moderno. Para Smith, os empresários que visavam o próprio lucro acabavam fazendo o bem para todo o mercado, por meio do que ele chamava de uma “mão invisível”. Já Lioret parece acreditar em uma “mão invisível social”, através da qual mesmo os desejos mais individualistas, se forem bem intencionados, resultam em algum tipo de bem para a sociedade. Essa é a solução proposta pelo diretor para melhorar um mundo em que contratos fraudulentos são mais importantes que pessoas.

Nota: 7,5/10

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