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Na primeira década dos anos 2000 duas trilogias foram responsáveis por uma mudança significativa na construção psicológica de seus heróis. Tanto os filmes da série Bourne (A Identidade Bourne, A Supremacia Bourne, O Ultimato Bourne) quanto os novos exemplares do Batman (Batman Begins, Batman – O Cavaleiro das Trevas e Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge) se destacaram pela busca pelo realismo, fato que humanizou personagens antes vistos como infalíveis e trouxe maior profundidade às tramas. Influenciadas por esse contexto, as produções protagonizadas pelo agente James Bond também sofreram uma mudança de rota com a entrada de Daniel Craig na vaga outrora ocupada por Pierce Brosnan. E mesmo não tendo o carisma nem a beleza física de Brosnan e de outros atores que encarnaram o papel no passado, Craig correspondeu às exigências decorrentes dessa nova proposta da série, fato que pode ser comprovado mais uma vez em 007 – Operação Skyfall, seu terceiro filme no papel de Bond.

A movimentada cena de abertura desta nova produção é um falso indício do que virá a seguir, já que são poucas as sequências de ação no filme. Depois de ser dado como desaparecido após mais uma de suas arriscadas missões, o agente reaparece e passa a ter que enfrentar algo com o que nunca havia se deparado: os limites do próprio corpo. O antes imbatível James Bond agora erra tiros, fica exausto depois de nadar e se apresenta com olheiras e a barba malfeita. Testado até mesmo pelo Serviço Secreto Britânico (MI6), dentro do qual apenas M (Judi Dench) segue confiando plenamente em sua capacidade, Bond passa pela primeira vez a impressão de que está ultrapassado, e é justamente este fato que levanta o principal tema do filme: o conflito entre o velho e o novo.

Em um mundo em que computadores e hackers podem fazer estragos muito maiores do que canetas explosivas e oficiais de elite, a própria necessidade de se manter uma equipe de agentes secretos é colocada em dúvida. Nesse contexto, M parece ser a única funcionária da cúpula do MI6 a defender os velhos métodos para combater novos criminosos, que na sua concepção são ainda mais perigosos por viverem “nas sombras”, sem ligação com corporações ou nações. Esse é o caso do vilão Silva (Javier Bardem), que leva o caos para o cotidiano londrino por conta de motivações pessoais.

Silva é uma espécie de Julian Assange com tendências psicopatas. Utilizando sua avançada rede de computadores para obter informações confidenciais e colocar em prática o seu plano, ele se torna antagonista de 007 também no aspecto tecnológico, pois põe em xeque o próprio modus operandi do protagonista. Esta dicotomia antigo x moderno, aliás, também é vista em outras passagens do filme: como referência ao passado há a luta inicial em cima de um trem (meio de transporte mais popular em outros tempos), um carro antigo, uma casa isolada dos avanços da informática e uma velha e útil faca; já em relação ao presente inovador há a valorização de funcionários como o programador Q, que provavelmente nunca deu um tiro na vida, mas mesmo assim possui grande utilidade para o MI6.

Enriquecendo a trama ao trazer densidade psicológica ao vilão, Javier Bardem faz de Silva uma junção da paixão pelo caos do Coringa de Heath Ledger, de Batman – O Cavaleiro das Trevas, com a insana obstinação de seu Anton Chigurh, de Onde Os Fracos Não Têm Vez. Sempre utilizando uma voz baixa e pausada, que se torna mais ameaçadora devido ao tom sarcástico, o personagem também ganha complexidade por causa dos sentimentos ambíguos que nutre em relação ao seu alvo principal. Já Daniel Craig segue se apoiando na virilidade para ser bem-sucedido na sua composição de James Bond – e, mesmo com uma nova roupagem, 007 continua com características imutáveis, como a facilidade no trato com as mulheres, a necessidade de estar elegante mesmo em situações-limite e a preferência pelo mesmo drink.

O roteiro de Neal Purvis, Robert Wade e John Logan, por sua vez, investe na humanização do protagonista através das dificuldades enfrentadas por Bond no presente, da relação quase maternal que ele constrói com M e da revelação de alguns fatos sobre seu passado. Estes recursos aumentam a identificação do público com o personagem, fato que ajuda a gerar tensão nos momentos decisivos da trama. Por outro lado, a convencional história que dá início ao filme (o roubo da lista de agentes) felizmente perde importância com o decorrer da projeção, se revelando uma pista falsa (McGuffin) em relação ao conteúdo que realmente importa na produção.

Já o diretor de fotografia Roger Deakins, habitual colaborador dos irmãos Coen, traz toques de elegância para o filme em pelo menos duas sequências: na luta filmada em contraluz em um prédio iluminado por luzes de neon em Xangai e no encontro romântico de Bond em um chuveiro, no qual a mesma técnica faz surgir um coração das sombras dos dois corpos.

À frente de um filme da série 007 pela primeira vez, o diretor Sam Mendes (Beleza Americana) não decepciona nas poucas sequências de ação do filme, investindo em uma mise-en-scène que não dificulta o entendimento dessas cenas, sendo ajudado pela montagem sem cortes desnecessários. Mendes é hábil também ao usar simbolismos que enriquecem a trama: além dos já citados acima, poderia mencionar a névoa que encobre uma casa, sugerindo o passado nebuloso de um dos personagens, e a rima temática criada pela imersão/emersão de Bond na água em dois pontos distintos da narrativa, o que completa a sua ressurreição simbólica.

Se neste filme o protagonista luta contra pessoas e técnicas que ameaçam deixá-lo obsoleto, fora dele os fãs não devem se preocupar com as inovações pelas quais a série 007 vêm passando, já que as produções com Daniel Craig, especialmente este Operação Skyfall, têm conseguido trazer mais profundidade às tramas ao mesmo tempo em que não renegam toda a “mitologia” construída pelos longas-metragens estrelados pelo agente secreto no decorrer dos últimos 50 anos.

Nota: 8,0/10

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