Tags

, , , , , , ,

holy motors

Na cena inicial de Holy Motors, novo filme de Leos Carax, vemos silhuetas de pessoas dentro de uma sala de cinema. A passividade diante da película que está sendo exibida é tão grande que podemos questionar se os seres no recinto são reais ou se não passam de estátuas. Em seguida, o próprio Carax aparece no papel de um homem que acorda em um local não identificado e abre uma passagem secreta que dará dentro do mesmo cinema. Dessa maneira, se inicia uma obra que tem ao menos um grande trunfo: não permitir que o espectador fique indiferente a ela.

Nessa história passada em apenas um dia conhecemos o Sr. Oscar (o camaleônico Denis Lavant, genial), um executivo que sai cedo para trabalhar e entra a bordo de uma limusine conduzida pela motorista Céline (Edith Scob). Após receber dossiês que indicam suas próximas tarefas, o homem usa o veículo como camarim e se transforma em diversos personagens, entre eles uma mendiga pedinte, um ator especializado na técnica do motion capture, um assassino de aluguel, um velho doente, um pai de família e uma criatura inclassificável que vive no esgoto, come flores e é conhecida como Sr. Merde – o mesmo que aparece no episódio dirigido por Carax no filme Tokyo! (2008).

Holy Motors é, assim como seu personagem central, não só uma, mas várias coisas diferentes. A começar pela mudança constante de gêneros: do policial ao romance, do drama familiar à comédia nonsense, do musical à fantasia. Essa transformação sucessiva de registros torna o filme uma obra que trata fundamentalmente sobre o Cinema e as diversas maneiras que ele possui para se comunicar com o espectador. Nesse sentido, o principal mérito do longa-metragem é o de conseguir manter um clima de mistério e fascinação mesmo revelando seu principal artifício – a transfiguração do protagonista, que proporciona os vários filmes dentro do filme.

Apostando na força das imagens em vez de tentar explicar as suas intenções, o diretor propõe ao espectador um papel ativo no entendimento da história ao lançar mão de uma série de simbolismos durante o filme. O principal deles talvez esteja ligado ao significado da limusine na trama. Sendo retratado com um ambiente sempre escuro, isolado de tudo o que está ao seu redor, o veículo é o escritório do qual o protagonista sai para executar os seus variados papéis. Metaforicamente, ele também funciona como um polo produtor de filmes – ou a própria indústria do Cinema -, que surge como algo estranho e deslocado nas ruas e no mundo de hoje.

É justamente dentro dessa limusine que acontece o diálogo mais reflexivo e elucidativo sobre o conceito do filme. A diminuição do poder das imagens na atualidade é apontada por um homem (Michel Piccoli) que aparenta ser chefe do protagonista – “algumas pessoas não acreditam mais no que assistem”, diz ele. Mesmo entendendo este novo contexto, no qual a superexposição de conteúdos audiovisuais enfraquece a aura do Cinema, Oscar segue em frente simplesmente por causa da beleza do gesto de interpretar, de se colocar no lugar do outro, de gerar uma nova realidade.

O protagonista é, antes de tudo, um resistente, assim como o é o filme de Leos Carax. Resistente em relação à falta de ambição da indústria cinematográfica; à passividade do público; à ausência de tramas ambíguas e reflexivas; à limitação dos gêneros, à banalização das imagens, etc. É essa resistência que faz de Holy Motors um filme extremamente original, que dá uma resposta à altura dos problemas que atribui ao Cinema atual.

Nota: 8,5/10

Anúncios