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O começo do ano sempre é uma época para assistir filmes concorrentes ao Oscar, que geralmente são lançados no segundo semestre nos EUA e só vêm ao Brasil no ano seguinte. Junto com estas obras, porém, também chegam às telas brasileiras produções que já se destacaram em festivais e mostras pelo País.

Para ajudar o leitor a escolher o que irá assistir no ano que se aproxima, fiz uma lista recomendando onze filmes que já assisti e que entrarão no circuito comercial brasileiro em breve. Eis a relação:

10 – A Bela que Dorme, de Marco Bellocchio

a bela que dorme

Sinopse: Os últimos seis dias de vida da jovem Eluana Englaro, que viveu 17 anos em estado vegetativo, servem como pano de fundo para histórias que têm em comum a eutanásia e as discussões éticas, morais e religiosas que o tema provoca.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para 5 de abril de 2013

Comentário: Coloquei este filme na lista mais pela importância de seu diretor do que pela minha opinião sobre a obra. Existem bons momentos, que surgem principalmente na história de um senador que é tentado a trair suas convicções sobre a eutanásia, mas o mosaico proposto por Bellochio é irregular e indeciso, acabando por não acrescentar muito ao tema.

Àqueles que se interessarem pela questão, sugiro antes que assistam a Você Não Conhece Jack (2010), filme dirigido por Barry Levinson que conta com atuação magistral de Al Pacino na pele de Jack Kevorkian, conhecido como Dr. Morte.

9 – O Amante da Rainha, de Nicolaj Arcel

o amante da rainha

Sinopse: A jovem rainha da Dinamarca, casada com um rei tido como louco, se apaixona secretamente por seu médico. Este, por sua vez, acaba por se aproximar do soberano, conseguindo aos poucos difundir seus ideais iluministas.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para 8 de fevereiro de 2013

Comentário: Presente na lista dos nove possíveis indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro, esse drama dinamarquês se divide em dois eixos temáticos principais: a história de vida da rainha – incluindo a infelicidade no casamento, o nascimento dos filhos e o romance com o médico da corte – e os desdobramentos das mudanças liberais implantadas pelo rei.

O filme cresce quando deixa o primeiro eixo de lado e se dedica a retratar a resistência da nobreza às reformas que limitam o seu poder como classe. Já a parte que trata do romance da rainha é menos interessante, o que reduz o interesse pelas soluções da trama.

8 – A Parte dos Anjos, de Ken Loach

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Sinopse: Com o nascimento de seu filho, Robbie decide mudar de vida e nunca mais cometer crimes. Sem conseguir emprego, ele cria uma amizade improvável com um agente que cuida de presos em liberdade condicional e enxerga em uma visita a uma destilaria de whisky a oportunidade perfeita para dar prosseguimento a seus planos.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para 8 de fevereiro de 2013

Comentário: Ken Loach mais uma vez volta seu olhar para personagens marginalizados socialmente, fato que ganha maior peso em função da situação econômica que a Europa vive nos dias de hoje. Com uma visão assumidamente simpática em relação aos pequenos delinquentes que fazem parte da história, o filme vê a malandragem como forma de combate à desigualdade e à ostentação presentes no mundo capitalista.

Apesar do roteiro previsível, o que há de melhor no filme é a forma bem-humorada e humanista com que são tratados os personagens principais. Há um sentimento de compaixão por esses párias sociais, mas Loach, sabiamente, não deixa ele se transformar em pieguismo.

7 – Francisco Brennand, de Mariana Brennand Fortes

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Sinopse: O filme mostra o universo particular do pintor, escultor e ceramista pernambucano Francisco Brennand, que aos 80 anos decidiu romper o silêncio para revelar os segredos de sua arte e sua vida dentro da Oficina Cerâmica.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para 15 de março de 2013

Comentário: Fugindo do formato convencional de entrevistas com conhecidos do personagem-título, o filme busca uma linguagem poética que combina mais com a personalidade reclusa do protagonista. As únicas vozes ouvidas são a do próprio Brennand e a da atriz Hermila Guedes, que lê trechos de diários escritos pelo artista plástico.

As grades e os portões antigos espalhados pelo enorme terreno da oficina, aliados ao jogo de sombras da fotografia de Walter Carvalho, criam uma atmosfera de isolamento que por vezes parece fantasmagórica e que, assim, retrata melhor do que com palavras a figura única e inclassificável que é Francisco Brennand.

6 – A Caça, de Thomas Vinterberg  

a caça

Sinopse: Professor vive uma vida solitária enquanto briga pela guarda do filho. Quando as coisas começam a melhorar, uma pequena mentira de uma criança pode fazer com que sua sorte mude novamente.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para 22 de março de 2013

Comentário: Com o predomínio de uma cultura de violência, a indignação coletiva pode trazer consequências incalculáveis para a vida do alvo da vez. Quando os medos mais profundos desse grupo parecem se transformar em realidade, a punição ao “monstro” que causou sofrimento à comunidade parece ser perpétua, com ou sem a anuência da Justiça.

No Brasil, o caso Escola-Base mobilizou a opinião pública nos anos 90, quando uma denúncia de abuso a crianças transformou os proprietários do local em vilões – injustamente, como se viria a saber depois. No filme de Thomas Vinterberg o acusado é o professor interpretado brilhantemente por Mads Mikkelsen, que caminha rumo ao fundo do poço sem ter forças para se defender do ódio coletivo.

5 – Reality, de Matteo Garrone

Reality

Sinopse: Luciano é um humilde vendedor de peixes que vive feliz com a família e complementa o baixo orçamento com pequenos golpes. A pedido de seus filhos, ele se inscreve na versão italiana do Big Brother e acaba ficando paranoico com a perspectiva de entrar no reality show.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para março de 2013

Comentário: “Apontando a degradação de valores em nossa sociedade de maneira sutil, como quando mostra a Cinecittá – estúdio em que foram filmados clássicos como A Doce Vida – abrigando reality shows, o diretor traça também um paralelo interessante entre religião e fama, sugerindo que a devoção por celebridades adquiriu o mesmo nível de fanatismo com o qual os fiéis tratam os seus deuses. Já a trilha sonora de Alexandre Desplat, que parece mais adequada a um filme de fantasia como os da série Harry Potter, serve para indicar a natureza ilusória daquilo que Luciano almeja” – leia a crítica completa

4 – César Deve Morrer, de Paolo e Vittorio Tavianni

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Sinopse: Internos de uma prisão de segurança máxima preparam uma montagem da peça Júlio César, de Shakespeare.

Filme visto no 8º Festival de Cinema Italiano

Lançamento previsto para 18 de janeiro de 2013

Comentário: Misturando ficção e documentário, o filme é interpretado por criminosos reais dos mais diversos tipos: assassinos, narcotraficantes, funcionários da Máfia, etc. Vendo na encenação uma possibilidade de ao menos atenuarem a dura rotina de encarceramento, os detentos vão aos poucos se identificando, cada um a seu modo, com a peça de Shakespeare, mesmo tendo esta sido escrita há mais de três séculos, tratando de um episódio ocorrido há mais de dois mil anos.

Há quem relacione a traição de Brutus a Júlio César com a entrega de companheiros da máfia para a Justiça, e quem se lembre de situações pessoais ao ler o texto do dramaturgo inglês. Essas comparações, no entanto, são individuais, assim como o são os dialetos falados por cada prisioneiro. O que é coletivo e perene é o poder libertador da Arte, que é capaz de dar novo sentido para vidas que pareciam destinadas para sempre à amargura.

3 – Além das Montanhas, de Cristian Mungiu

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Sinopse: Alina retorna à Romênia para buscar a melhor amiga Voichita em um convento. Sem conseguir convencê-la a voltar consigo, ela passa a entrar em conflito com o rigoroso padre que dirige o local.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para 11 de janeiro de 2013

Comentário: O romeno Cristian Mungiu utiliza longos e belos planos-sequência para mostrar de modo contemplativo a pacata rotina do convento, e também acerta ao mudar sua abordagem para a trepidante câmera na mão quando surgem fatos novos na trama. Sem a necessidade de julgar os seus personagens, como comprova o sucinto plano final, Mungiu discute o papel da religião e da fé no mundo moderno.

2 – O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

Sinopse: A chegada de uma empresa de segurança privada a uma rua de classe média na zona sul do Recife altera a rotina dos moradores do local.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Lançamento previsto para 4 de janeiro de 2013

Comentário: Crítico de cinema e autor de curtas-metragens marcantes, como Recife Frio, além do documentário Crítico, Kleber Mendonça Filho já se apresenta como um diretor maduro em seu primeiro longa-metragem de ficção, que vem acumulando prêmios por onde passou e que foi incluído na lista de melhores filmes do ano pelo The New York Times.

Tomando uma rua da capital pernambucana como microcosmo da sociedade brasileira, Kleber fez um filme ao mesmo tempo calmo e desesperador, silencioso e barulhento, que desvenda sutilmente o horror da luta de classes invisível e, mais do que isso, evita apontar soluções fáceis para apaziguar este caos.

1 – Tabu, de Miguel Gomes

Tabu

Sinopse: Uma idosa temperamental, a sua empregada cabo-verdiana e uma vizinha dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filmes de aventura.

Filme visto na 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Data de lançamento indefinida

Comentário: Depois do ótimo Aquele Querido Mês de Agosto, o português Miguel Gomes se consolida como um dos diretores mais interessantes da atualidade com essa peculiar obra-prima. Mantendo o bom-humor do filme anterior, o diretor constrói uma história que tem como eixo central a memória, seja ela pessoal ou coletiva – incluindo aí a do próprio Cinema .

As recordações da juventude de Aurora constroem a segunda parte do filme de maneira original, com os diálogos sendo suprimidos por causa da falta de alcance da memória. Desse modo, vemos um exótico filme “mudo” (apesar da trilha e da narração em off), que homenageia os antigos filmes de aventura passados na África e traz luz à melancólica existência da personagem em seus últimos anos de vida.


Menção Honrosa:    

Eu e Você, de Bernardo Bertolucci

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Sinopse: Jovem introvertido diz aos pais que vai fazer uma viagem para esquiar, mas na verdade quer passar todo o tempo sozinho em um porão.

Filme visto no 8º Festival de Cinema Italiano

Lançamento previsto para 19 de abril de 2013

Comentário: O novo filme de Bernardo Bertolucci, que volta à ativa após nove anos sem filmar, faz um retrato intimista do amadurecimento de um adolescente tímido que não se sente confortável nem na escola nem sob os cuidados da mãe. Seu ideal de isolamento é rompido quando sua problemática irmã mais velha aparece e o obriga aos poucos a refletir sobre sua vida.

Embora não traga grandes novidades em sua temática e em sua resolução, o filme se destaca pelas boas atuações dos irmãos (com destaque para a estonteante Tea Falco) e pela direção de Bertolucci, que consegue realizar enquadramentos interessantes mesmo tendo um pequeno porão como palco principal do filme.

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