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NoA força do Cinema como veículo de comunicação de massa para propagação de ideias políticas foi identificada e explorada maciçamente pelo ministro da Propaganda do governo nazista, Joseph Goebbels, durante um dos períodos mais sombrios da humanidade. Desde então, a imagem em movimento – seja ela produzida para TV ou para cinema – passou a ser usada por governantes para a construção de uma outra imagem, esta formada pela percepção da população sobre determinada pessoa ou assunto.

Em No, novo filme de Pablo Larraín, estes dois tipos de imagens centralizam as principais discussões da narrativa, que tem como cenário os preparativos para o plebiscito ocorrido em 1988, no Chile, que decidiu se o ditador Augusto Pinochet permaneceria no poder por mais oito anos. Esta preocupação do diretor pode ser notada visualmente já na escolha por realizar toda a produção com câmeras U-Matic, as mesmas que eram utilizadas nas campanhas publicitárias da época. Embora arriscada, pois reduz muito a definição das gravações, a opção se mostrou acertada por trazer um ar documental à produção, já que imagens de arquivo e de ficção passam a parecer uma coisa só, facilitando a imersão do espectador na história.

Não só a forma, mas principalmente o conteúdo do filme traz essa discussão imagética à tona, a começar pela escolha da profissão do protagonista René Saavedra (Gael Garcia Bernal). Atuando como publicitário em uma requisitada agência de Santiago, ele é convidado a fazer parte da equipe que formulará a campanha do Não à continuidade de Pinochet no poder, e passa a utilizar a mesma lógica com a qual promovia refrigerantes para tentar tornar mais “vendável” aos eleitores o voto contra as pretensões do ditador.

Em governos autoritários, embora a repressão seja um dos pilares constitutivos, o controle dos veículos de comunicação é fundamental para transmitir uma boa imagem à população, já que o apoio de ao menos parte dela é um importante elemento de sustentação no poder. Pinochet, como bom aluno de Goebbels, utilizava as redes de televisão para promover a si e ao seu governo. Assim, além de tentar desconstruir a imagem propagada tantos anos pelo ditador, a campanha do Não deveria mostrar, nas suas poucas inserções de 15 minutos na TV, que a vida do povo chileno seria melhor, ou ao menos que não pioraria, sem a ditadura militar.

Acontece que, para buscar esse objetivo, vários caminhos eram possíveis. Grande parte dos militantes anti-Pinochet não acreditava na transparência do plebiscito e via na campanha uma oportunidade para conscientizar a população sobre os crimes cometidos durante a ditadura. Já René, mesmo sendo ex-exilado e filho de pai militante, prefere colocar em primeiro plano os ensinamentos trazidos da sua profissão, o que cria um conflito com os idealizadores da campanha.

Com o segundo caminho aos poucos levando vantagem sobre o primeiro, o que ocorre é uma tendência crescente ao esvaziamento do discurso político e ao crescimento da importância do marketing e de todos os seus recursos: identificação do público-alvo (jovens e idosos com propensos à abstenção) e de seus respectivos anseios (“não podemos criar mais medo”), uso de linguagem publicitária (com jingles e slogans), realização de pesquisas qualitativas com eleitores/consumidores para definir o rumo da campanha, etc.

O interessante é que, para dar uma resposta aos adversários, os partidários de Pinochet utilizam (ou ao menos tentam utilizar) os mesmos recursos publicitários, buscando transmitir uma imagem mais atraente de Pinochet – que passa a usar trajes civis – e chegando a parodiar, sem nenhum disfarce, as inserções televisivas dos oponentes. Assim, cria-se um círculo vicioso no qual a disputa ideológica aparece como pano de fundo de uma batalha que visa construir e desconstruir as imagens criadas nas campanhas publicitárias – fato que, nos dias de hoje, acontece regularmente nas eleições brasileiras e na maior parte do mundo.

Esta despolitização da política é a principal questão levantada pelo filme de Pablo Larraín. Quando tudo se torna um produto publicitário a ser vendido, incluindo-se aí a democracia, não se abre uma brecha para que uma nova forma de governo, se bem promovida, suplante o atual modelo? Afinal, é muito mais fácil convencer uma pessoa a trocar de produto do que a rever suas convicções ideológicas.

Trazendo reflexões como essa, No se torna um filme/produto mais vendável por causa do humor proveniente do estranhamento com as imagens de época e também devido à escalação de um ator competente e conhecido no papel principal. Juntando esses elementos, a produção de Pablo Larraín entra no rol dos melhores longas-metragens lançados comercialmente no Brasil em 2012.

Nota: 8,0/10

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