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A ascensão social das pessoas de classes menos abastadas, ocorrida de forma significativa a partir do primeiro governo Lula, não havia sido tratada com a devida importância pelo cinema brasileiro até o lançamento de O Som ao Redor, estreia do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho em longas-metragens de ficção.

Logo no início da produção, imagens antigas em preto e branco mostram um antigo engenho no qual a escravidão estava em prática, com a nítida separação entre casa-grande e senzala. Voltando ao tempo presente, e focando suas ações em uma rua de classe média do Recife, o filme mostra como os resquícios do passado escravocrata brasileiro ainda interferem em nosso cotidiano.

Para isso, Kleber Mendonça Filho abre mão de qualquer recurso didático, como a tão usada narrativa em off, e abre espaço para que o espectador interprete de seu modo as sutilezas e ironias dessa história aparentemente simples. A direção, do mesmo modo, é sóbria e realista, apostando em planos predominantemente longos e estáticos que fazem com que o público adentre a rotina dos personagens e se familiarize com ela.

Desta maneira, somos apresentados aos três núcleos principais da trama: o do corretor João (Gustavo Jahn), neto de um poderoso homem que é proprietário de “mais da metade” dos imóveis da rua; o da dona de casa Bia (Maeve Jinkings), matriarca de uma família em franca ascensão social; e o do segurança Clodoaldo (Irandhir Santos), que oferece, junto com mais alguns parceiros, um serviço privado de proteção à vizinhança e aproveita o medo provocado pela violência urbana para ganhar dinheiro.

Três pessoas de origem e situação financeira distintas, trazendo consigo marcas de um passado difícil de ser apagado, que aparece impregnado no modo de falar, gesticular e se vestir das pessoas, no medo diante dos mais poderosos e no descaso destes no tratamento com os mais humildes. Uma luta de classes quase invisível, na qual os ressentimentos provocados por décadas de opressão social são colocados dentro de uma panela de pressão que, mais cedo ou mais tarde, vai explodir.

A julgar pelo comportamento e pelas posses de Francisco (W.J. Solha), avô do corretor de imóveis João, pode-se notar que a modernidade aparente do Recife (e do Brasil) guarda características de tempos arcaicos. Tendo o engenho no interior como a propriedade pela qual possui o maior valor sentimental, ele não hesita em chamar a via onde mora de “minha rua”. Dono de boa parte dos imóveis do local, incluindo a cobertura de seu prédio, ele se coloca literal e simbolicamente acima de todos os outros moradores – o que faz lembrar os tempos em que o senhor de engenho vigiava seus escravos do alto da casa-grande. Por outro lado, a lógica da senzala é reproduzida quando Francisco recebe os seguranças na cozinha, sem convidá-los a entrar na casa, e no isolamento e no tamanho do quarto de sua empregada (fato com o qual Kleber já havia trabalhado crítica e comicamente em seu curta Recife Frio [2009]).

Vindo duas gerações depois de Francisco, João apresenta comportamentos diferentes dos do avô, tendo um bom relacionamento com suas empregadas e deixando inclusive elas trazerem seus familiares para a casa durante o trabalho. Mesmo assim, as heranças dos tempos da escravidão continuam presentes. A funcionária mais velha, que trabalha há 20 anos na casa, tem como grande objetivo se aposentar quando fizer 60 anos, algo que lembra o desejo dos antigos escravos quando a Lei do Sexagenário lhes garantia a alforria nessa idade. Já a sua filha, que segue a mesma profissão e cobre as folgas da mãe, não tem perspectiva de levar uma vida melhor. O seu hábito de trabalhar descalça, assim como as antigas escravas, não é coincidência. Da mesma forma, a pequena diferença nos nomes das empregadas (Maria e Mariá) mostra que pouca coisa mudou de geração para geração.

Em compensação, a família de Bia está claramente melhorando de vida, como prova a compra de uma TV que faz inveja em uma vizinha que só conseguiu adquirir um equipamento “pequeno”. Com os filhos matriculados em aulas de inglês e mandarim, se preparando para um futuro com muito mais oportunidades, a dona de casa vive uma rotina sem grandes alegrias ou tristezas, na qual a sua principal preocupação é acabar com os latidos insistentes de um cachorro e o seu principal divertimento está relacionado com um eletrodoméstico, em cena que destaca o consumo como objeto de desejo e repete a genial ideia utilizada no curta-metragem Eletrodoméstica (2005), do mesmo diretor.

Bia representa bem a alienação de parte da classe média brasileira. Adotando um método curioso para esconder o consumo de maconha dos filhos, ela assume um papel de dominação social quando grita com a empregada, mas nem sequer esboça reação quando vê um menino supostamente invadindo o prédio ao lado, pois não se sente ameaçada. Já a filha, que vê a boa vida que leva como algo normal, e não como uma conquista, incorpora um dos principais medos da elite brasileira em um pesadelo no qual vê sua casa sendo invadida por uma multidão de meninos.

Quando até uma criança tem pesadelos com a violência urbana, vê-se que a sensação de falta de segurança está espalhada por toda sociedade. E não é preciso nem olhar para as pessoas para verificar isso no filme. A especulação imobiliária, tratada de passagem na compra da antiga casa da namorada de João, transformou Recife em uma cidade em que predominam prédios com muros altos, cercas e grades a perder de vista. Como diz despretensiosamente uma personagem, são edifícios “modernos, que parecem uma fábrica” – e nos quais o convívio humano é colocado em segundo plano.

O anseio pelo isolamento, contudo, não é capaz de deter os sons cotidianos, que servem como elo entre todos os moradores do local. E é através de seu impecável desenho de som que o filme consegue passar para o espectador uma sensação contínua de mal-estar, de um medo coletivo que parece não ter explicação. Para isso, o diretor sabiamente prioriza o suspense em detrimento da surpresa, causando um incômodo intencional provocado pelo pensamento de que, uma hora ou outra, algo não irá acabar bem.

Essa paranoia comum às grandes cidades brasileiras é aproveitada por Clodoaldo, personagem de Irandhir Santos. Se em Tropa de Elite 2 (2010), como o deputado Diogo Fraga, ele denunciava a crueldade das milícias do Rio de Janeiro, em O Som ao Redor o ator incorpora o papel de chefe de uma pequena milícia disfarçada de empresa de segurança privada, que monetiza o medo e o recicla de forma distinta, já que agora as pessoas temem não só a violência urbana, mas também a reação dos seguranças se eles não forem pagos.

No fundo, a chegada da milícia perpetua uma cultura do medo que tem origem distante, da época da escravidão. O poderoso Francisco, herdeiro de uma família aristocrática,  não é respeitado, mas temido pela vizinhança, assim como seu neto Dinho, fã de Tarantino (reparem em seu pôster de Jackie Brown [1997]) que se diverte cometendo pequenos delitos e escapa impune por causa de seu sobrenome.

Parafraseando o escritor francês Honoré de Balzac, que pensava que por trás de toda grande fortuna há um crime, é possível dizer que por trás de cada privilegiado há um excluído descontente. Em O Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho expõe essa contradição histórica com apuro narrativo e estético, mostrando que, para ser um país com futuro, o Brasil ainda precisa acertar contas com o seu passado.

Nota: 8,5/10

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