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BARBARA  Regie Christian Petzold

O passado político alemão é cheio de feridas mal cicatrizadas. O nazismo, é claro, foi a principal delas, mas o regime ditatorial exercido na Alemanha Oriental de alguns anos após a Segunda Guerra Mundial até a reunificação do país também deixou as suas sequelas, como pode ser visto em dois recentes filmes germânicos.

Em A Vida dos Outros (2006), vencedor do Oscar de melhor filme em língua estrangeira, um dramaturgo bem-sucedido passa a ser espionado pela polícia secreta alemã a mando de um político interessado em sua mulher. Já em Barbara, que levou o troféu de melhor direção no último Festival de Berlim e chegou recentemente aos cinemas brasileiros, o tema do cidadão comum que tem a vida alterada pelo autoritarismo do Estado ganha viés mais intimista através da história de uma médica berlinense (Nina Hoss) que é enviada ao interior do país após expressar o desejo de deixar a Alemanha Oriental.

Se no filme de 2006 as atividades do serviço secreto eram mostradas, com o intuito de aumentar o suspense a respeito do que aconteceria com o protagonista, em Barbara as informações fundamentais chegam ao espectador pelas entrelinhas. A existência de um aparato de inteligência e repressão, por exemplo, é revelada, respectivamente, pela desconfiança com que a personagem-título trata os seus colegas e pela chegada ao hospital de pacientes vindos de um determinado local.

A doença de um desses pacientes traz a metáfora ideal para se entender o intuito do filme. Após sofrer um trauma craniano, um jovem rapaz, inexplicavelmente, perde a capacidade de se emocionar. Este fato intriga os médicos, que não conseguem explicá-lo através de exames. Da mesma maneira, essa ausência aparente de sentimentos pode ser vista na protagonista Barbara e, mais ainda, em todos os alemães orientais que evitavam se expor publicamente com medo de se tornarem alvo do repressivo governo do país.

No caso de Barbara, a “máscara” apática que utiliza na convivência com os colegas médicos só é posta de lado no tratamento carinhoso que dá a seus pacientes e nos raros encontros escondidos que consegue ter com seu marido, momentos em que ficam bem definidos os dilemas profissionais e morais que ela virá a enfrentar.

Estas passagens pontuais, contudo, não são capazes de gerar uma grande identificação do público com a protagonista, uma vez que a abordagem extremamente fria e arrastada do diretor Christian Petzold, com planos estáticos e raras inserções de trilha sonora, induz o espectador a um distanciamento desnecessário da protagonista, já que seus sentimentos permanecem quase sempre misteriosos.

Dessa maneira, a tentativa de aproximação do médico André (Ronald Zehrfeld) com Barbara soa inverossímil e forçada, já que é difícil explicar a atenção de alguém por uma pessoa tão aborrecida. Por outro lado, a relação de amizade da protagonista com uma paciente do hospital é um pouco mais convincente, e serve para dar um final digno para a trama. Afinal, a insistência do diretor em mostrar a personagem-título junto a uma cruz não se dá por acaso, já que ela se torna uma espécie de mártir em meio ao conturbado momento político de seu país.

É uma pena, portanto, que Barbara apresente diversos problemas antes de chegar à sua boa conclusão, fato que o apequena demais quando comparado a A Vida dos Outros, que segue sendo o filme referência quando o assunto é a Alemanha Oriental.

Nota: 6,5/10

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