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A situação parece extremamente atual: um presidente dos EUA, que foi reeleito, tem de lidar com um congresso hostil e uma grave crise interna. É essa a história do novo filme de Steven Spielberg, que tem como protagonista não o atual mandatário Barack Obama, mas sim Abraham Lincoln, político celebrado até hoje por ter abolido a escravidão em solo americano e evitado que o país se dividisse em dois após a guerra civil.

Se atualmente o democrata Obama enfrenta dificuldades até para implantar algo básico como o sistema de saúde universal, o mesmo acontecia no passado com o então republicano Lincoln, que sofria para aprovar projetos de extrema relevância, tal como o que propunha o fim da escravidão. O jogo político necessário para a aprovação desta emenda à constituição americana é justamente o foco do filme de Spielberg, que volta a um ponto chave da história americana para fazer um comentário sobre o que vem ocorrendo nos dias de hoje.

Surgindo, graças à brilhante interpretação de Daniel Day-Lewis, como um gigante envelhecido e frágil, que utiliza um tom de voz quase sempre baixo e suave, o ex-presidente americano aparece deslocado à esquerda do quadro em diversos momentos do filme, o que demonstra seu isolamento e as dificuldades que enfrenta para convencer os demais políticos a seguirem os seus desejos. A tentativa de humanizar Lincoln também inclui a abordagem, mesmo que superficial, de seus problemas de relacionamento com a mulher e um dos filhos, mas isso não impede que o personagem surja como um exemplo único a ser lembrado e seguido, já que apresenta objetivos sempre louváveis, mesmo quando obtidos por meios imorais.

A exaltação do personagem-título é acentuada pela trilha sonora de John Williams, que, embora mais contida que a de Cavalo de Guerra, também soa muitas vezes melosa e intrusiva, surgindo para avisar ao espectador que algo de importante irá acontecer a seguir – o que geralmente ocorre quando Lincoln ou outro político republicano se prepara para falar.

Algumas vezes, porém, o tom solene adotado majoritariamente pela trilha dá lugar a uma animada música country, em cenas nas quais, inexplicavelmente, Spielberg decide dar um alívio cômico para a trama – e a transição em que a personagem de Sally Field chora ao lado do marido e em seguida aparece sorrindo em uma recepção pública acaba sendo uma referência involuntária a esse descompasso de tom apresentado pelo filme.

Como Spielberg opta por quase não mostrar as cenas de batalha, o verdadeiro embate do filme se dá verbalmente, por meio das ideias e das estratégias políticas. Nesse âmbito, o diretor é corajoso ao apresentar Lincoln como o grande idealizador de alianças informais com parlamentares da oposição que receberam cargos públicos em troca do voto a favor da emenda abolicionista. Aqui, mais do que nunca, os fins justificam os meios, e para conseguir os seus objetivos o mandatário americano é capaz até mesmo de mentir publicamente.

Entretanto, a complexidade moral com que os meandros da aprovação da emenda são tratados não é estendida à discussão da causa abolicionista. Excetuando-se o político vivido por Tommy Lee Jones, que tem a sua posição a favor da igualdade racial amenizada por seu partido, apenas Lincoln defende a libertação dos escravos por motivos humanitários. Pior do que isso, os negros são relegados ao segundo plano durante todo o filme, aparecendo apenas como beneficiários da boa vontade do líder americano, e não como parte fundamental no processo que resultou no fim da escravidão – algo com o qual Obama não deve concordar.

Esta escolha simplista do diretor faz com que todas as nuances trazidas pela irretocável atuação de Daniel Day-Lewis deem lugar a uma previsível e desnecessária idealização do personagem-título. Para piorar, Spielberg carrega a mão mais uma vez no melodrama e cria momentos de pieguice pura na parte final, como no plano em que sobrepõe a imagem de Lincoln à chama de uma vela.

Nessa cena, a intenção de atestar a perenidade das ideias do ex-presidente, e de assim estabelecer uma ligação com os dias atuais, fica clara. O problema é que Spielberg passa essa mensagem da forma mais óbvia e apelativa possível, o que apenas evidencia a decadência de um cineasta que não faz um grande filme desde Munique (2005).

Nota: 6,5/10

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