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O-lado-bom-da-vida

Pat Solitano Jr., personagem de Bradley Cooper em O Lado Bom da Vida, passa boa parte do filme utilizando, com grande naturalidade, um saco de lixo como vestimenta. Este incomum adereço diz muito sobre a forma como ele se enxerga e é visto pelos outros após ter passado oito meses em uma instituição psiquiátrica.

No novo filme do diretor David O. Russell o que Pat mais quer é esquecer as turbulências de seu passado e retomar a relação com a esposa. Adotando a corrida constante como uma espécie de fuga da realidade, ele toma para si o lema de dez em cada dez livros de auto-ajuda e começa a pensar positivamente. Isso, contudo, não serve para atenuar a desconfiança com que lhe encaram seus conhecidos, nem tampouco para esconder a gravidade de sua doença bipolar, que provoca mudanças repentinas de humor.

Em uma das cenas mais interessantes do filme, Pat se desespera ao descobrir que o livro Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, não termina com o costumeiro “viveram felizes para sempre”. Como se fosse uma criança, ele segue para o quarto dos pais no meio da noite em busca de explicações: com tantas dificuldades na vida real, por que uma obra de ficção teria que tratar delas, em vez de apresentar uma visão idealizada e reconfortante do mundo?

Se essa reflexão for ampliada para a análise de O Lado Bom da Vida percebemos que o filme, embora não traga nenhuma inovação e tenha um final dos mais previsíveis, consegue pelo menos humanizar os seus personagens, que nunca surgem como as caricaturas felizes que Pat deseja encontrar quando abre os seus livros.

O pai do protagonista (Robert De Niro), por exemplo, foi proibido de frequentar jogos de futebol americano por conta de suas atitudes violentas, e não hesita em fazer apostas altíssimas baseadas na mais pura superstição. Já Tiffany (Jennifer Lawrence), que encontra Pat por acaso em um jantar oferecido por conhecidos em comum, tenta superar a morte precoce do marido, mas toma atitudes impensadas e acaba sendo malvista na vizinhança.

É o encontro entre dois desajustados (Pat e Tiffany) que serve como eixo central para o filme, que estabelece a ligação inicial entre eles através de uma impagável conversa sobre remédios antidepressivos. O diálogo pode soar engraçado para o espectador, mas parece extremamente adequado para o cotidiano daqueles personagens. Da mesma forma, a aproximação entre esses dois outsiders surge como um passo natural em direção ao entendimento mútuo.

É verdade que o roteiro dessa trama simples se utiliza de artifícios nada originais. Só para citar alguns deles: há uma competição de dança à la Dirty Dancing (1987) que pode mudar a trajetória dos personagens; um ponto de virada extremamente falso e óbvio relacionado a uma carta; um personagem que demora a descobrir que está valorizando a pessoa errada; e um final que não surpreende a ninguém.

Por outro lado, há um elenco em grande forma, especialmente no que diz respeito às atuações de Bradley Cooper, Jennifer Lawrence e Robert De Niro. Conhecido mais pela sua faceta humorística, apresentada em filmes como Se Beber Não Case (2009), Cooper mostra grande talento ao expor as variações de humor de Pat sem nunca recorrer ao overacting. Lawrence, por sua vez, consegue trazer delicadeza a uma personagem que tinha tudo para ser irritante, enquanto De Niro, que se acostumou a atuar em filmes desprezíveis nas últimas décadas, volta a mostrar por que é um dos grandes atores da história do Cinema.

Já o diretor David O. Russell, que recentemente realizou o ótimo e subestimado O Vencedor (2010), mostra talento mesmo em um filme menor de sua carreira, utilizando a câmera na mão para nos aproximar daqueles personagens sem os julgá-los, e também para se referir à instabilidade emocional de seu protagonista.

Como diz o psicólogo de Pat em determinado momento do filme, “um incidente pode mudar nossas vidas”. E por mais que essa frase também seja óbvia e fartamente encontrada em livros de auto-ajuda, o que fica claro ao final de O Lado Bom da Vida é que ao menos temos a chance de escolher qual será esse incidente.

Nota: 7,0/10

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