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Considerado atualmente um dos maiores diretores da história do Cinema, Alfred Hitchcock não desfrutou desse reconhecimento durante a maior parte de sua carreira. De um lado, a crítica norte-americana só começou a tratá-lo como um grande artista anos depois que os franceses da revista Cahiers du Cinéma, notadamente François Truffaut, passaram a defendê-lo na publicação; do outro, o usual sucesso de público não se repetiu com longas-metragens mais densos, o que acabou por transformar obras-primas como Um Corpo Que Cai (1958) em fracassos comerciais.

Esse contexto histórico ajuda a explicar as dificuldades que o diretor inglês viria a ter para conseguir financiar Psicose (1960). Com os estúdios descrentes em relação ao sucesso do filme, que seria baseado em um livro de qualidade discutível, o cineasta decidiu bancar os custos da produção pessoalmente, arriscando assim a sua própria estabilidade financeira, além da reputação como diretor bem-sucedido. É sobre os bastidores dessa história que trata Hitchcock, filme recém-lançado nos cinemas brasileiros.

Iniciando a obra com uma referência à histórica série de TV Alfred Hitchcock Presents, na qual o famoso cineasta se dirigia diretamente aos espectadores antes dos episódios, o diretor Sacha Gervasi opta por atribuir um tratamento icônico ao seu personagem principal, como demonstram a caracterização típica do cineasta (sempre com terno e gravata) e as tomadas em que sua famosa silhueta é mostrada.

Interpretado por Anthony Hopkins com o auxílio de uma pesada maquiagem, Hitchcock surge como um artista maduro que sente necessidade de se reinventar. Rotulado como o mestre do suspense, ele vê na história de Psicose elementos novos, principalmente do gênero terror, que conseguem lhe desafiar como realizador. Mais do que para a imprensa especializada ou para os chefes de estúdio, o protagonista quer provar a si mesmo que ainda é capaz de ser original depois de tantas décadas na indústria cinematográfica.

Surgindo como um ególatra desde os minutos iniciais do filme, quando vemos toalhas com suas iniciais, Hitchcock é retratado como um perfeccionista capaz de se incomodar até mesmo com um fio de cabelo na roupa de uma atriz.

A sua obsessão pelo trabalho é mostrada quando ele imagina e conversa com o assassino verdadeiro que inspirou o livro Psicose em inserções que parecem interessantes nas primeiras vezes em que são utilizadas, mas que acabam ficando excessivas e redundantes ao longo da projeção e dificultam a fluidez da narrativa.

Por outro lado, a subjetividade mental do protagonista é bem representada na famosa cena do esfaqueamento no chuveiro, na qual ele vê outras pessoas enquanto simula os golpes em Janet Leigh (Scarlett Johansson).

Além dos conflitos criativos do diretor, o roteiro dá destaque para a esposa de Hitchcock, Alma Reville (Helen Mirren). Também profissional do ramo cinematográfico, ela se ressente por ficar sempre à sombra do marido, sem obter reconhecimento próprio nem espaço para exercer sua própria criatividade.

Infelizmente, o filme mostra o descontentamento da personagem da maneira mais previsível, incluindo um possível amante de Alma na trama e utilizando clichês desnecessários, como na cena em que a mulher de Hitchcock atende uma chamada do marido e pensa que está falando com outra pessoa.

Uma passagem mais inspirada envolvendo Alma ocorre quando ela vê um maiô em um manequim loiro e decide comprá-lo, o que remete indiretamente ao conhecido gosto de Hitchcock por atrizes loiras e, consequentemente, às dificuldades da mulher para manter o relacionamento depois das conhecidas traições do marido.

Apesar das tentativas do diretor Sacha Gervasi de valorizar o papel de Alma na trama, atribuindo a ela a coautoria de uma das cenas mais importantes de Psicose, o melhor que há em Hitchcock é a cena em que, como se fosse um maestro, o protagonista rege de fora da sala de cinema a reação da plateia à famosa cena do esfaqueamento no chuveiro.

Mesmo com inegáveis problemas, o filme de Gervasi consegue, naquela passagem,  encontrar  a essência do cinema do diretor inglês, que era especialista em provocar no público os mais diversos tipos de emoções que desejava transmitir. Por outro lado, fica claro que um personagem tão interessante quanto Hitchcock merecia ganhar mais e melhores obras a seu respeito.

Nota: 6,5/10

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