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Há duas cenas de sexo mostradas em Pietà: uma delas acontece por causa do medo despertado por um iminente ato de violência, e a outra só é consumada através do estupro. A dificuldade de os personagens encontrarem algum tipo de prazer até mesmo em uma atividade conhecida por esta finalidade é um exemplo do universo sombrio retratado por Ki-Duk Kim em seu novo filme, que chegou recentemente aos cinemas brasileiros.

Em um bairro industrial pobre de Seul, Gang-Do (Jeong-Jin Lee) ganha a vida como cobrador de dívidas dos trabalhadores da região. Seu método para conseguir os ressarcimentos, entretanto, não é nada amistoso: aqueles que não têm dinheiro para pagar os empréstimos são forçados a aleijar alguma parte de seus corpos para, assim, obterem dinheiro através de seguros.

As incríveis frieza e crueldade do protagonista são demonstradas não só durante seu horário de trabalho, mas também em escolhas cotidianas, como na preferência por matar em seu banheiro os animais que lhe servem como refeição. Assim, a fuga malsucedida de um coelho serve como metáfora perfeita para retratar a dificuldade de se obter uma saída desse ambiente violento no qual Gang-Do está completamente imerso.

Para o protagonista, a lógica proveniente de seu trabalho é natural a tal ponto que ele chama de irresponsabilidade a decisão de um trabalhador que prefere se matar a se aleijar por causa de sua dívida. Em compensação, há um devedor que aceita de bom grado mutilar os dois braços em troca da gratificação do seguro, demonstrando a mesma passividade que Gang-Do apresenta na relação com o seu patrão. Embora em polos distintos do mesmo sistema, ambos o aceitam sem questionamento.

A quantidade de entulho espalhada pelo bairro onde vive o protagonista mostra uma Seul em constante transformação, dominada pela especulação imobiliária que cria arranha-céus belíssimos de um lado da cidade enquanto prédios abandonados e pessoas lutando contra a miséria são vistos na periferia. Nesse contexto, o progresso do capitalismo em sua forma mais brutal é mostrado através da profissão de Gang-Do e da submissão dos trabalhadores às máquinas quando são obrigados a pagar suas dívidas.

O protagonista só começa a questionar suas práticas depois que uma mulher (Min-Soo Jo) aparece e diz ser a mãe que lhe abandonou logo após o nascimento. A princípio, ele a rejeita, mas a insistência da senhora, que aceita humilhações e até bate em um aleijado para ganhar a confiança do rapaz, parece dar resultado.

Nesse momento, quando o filme parece se encaminhar para uma previsível reconciliação familiar, uma revelação volta a mergulhar o protagonista no mesmo terrível universo que conheceu durante toda a sua vida, tornando a afeição criada entre os dois personagens principais um fato insuficiente para possibilitar qualquer fuga daquele ambiente – como demonstra o belo e triste plano final.

Nota: 8,0/10

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