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philiproth

A primeira coisa que deve ser dita a respeito de Philip Roth – Sem Complexos é que o filme será muito melhor apreciado por quem já conhece ao menos um pouco da obra do escritor americano. Nomes como David Kepesh e Nathan Zuckerman, personagens de várias obras do autor, são citados sem que haja uma contextualização para o espectador, e outras tantas referências só fazem sentido a quem já leu determinados livros de Roth.

O filme tem como eixo central uma longa entrevista que o escritor americano concedeu nas suas residências em Nova York e Connecticut ao diretor William Karel e à jornalista Livia Manera. Deixando de lado a fama de aversivo à imprensa, Philip Roth aparece completamente à vontade na tela, discorrendo sobre diversos momentos de sua carreira.

Roth diz que não consegue inventar suas histórias e personagens “do nada”, e que precisa de inspiração em algo que seja real. Durante o filme são citados direta ou indiretamente diversos exemplos desse método de trabalho: a vontade de se afastar do pai na época da faculdade e o moralismo do campus universitário são elementos presentes em Indignação; as diversas idas ao psiquiatra e a fama de galã revelada por amigos ajudam a iluminar o nascimento de O Complexo de Portnoy; a comoção gerada pela Guerra do Vietnã nos anos 60 serve como estopim para o que viria ser Pastoral Americana, e assim por diante.

O escritor vê semelhanças entre o processo de criação de romances com o jornalismo, pois afirma que, para criar um personagem, precisa saber descrever com exatidão todo o seu passado. Dessa maneira, Roth revela que, para escrever algumas cenas, teve que realizar entrevistas. A famosa passagem de Homem Comum em que o protagonista conversa com um coveiro se baseou em uma conversa que o americano teve com um desses profissionais, enquanto que para entender melhor o surto de poliomielite dos anos 40 que inspirou Nêmesis ele entrevistou a amiga e atriz Mia Farrow, que contraiu a doença quando criança.

Esses curiosos fatos sobre o processo criativo do escritor são o ponto alto do documentário. Vários outros temas são tratados, como o início da carreira de Roth, as acusações de antissemitismo logo após a publicação de seu primeiro conto, o sucesso e o escândalo gerado por O Complexo de Portnoy, os livros recentes que abordam a morte, etc. No entanto, a impressão que fica é que esses assuntos poderiam ser mais aprofundados pelo filme, o que não anula o fato de que é um prazer ouvir as falas de um homem tão lúcido quanto Roth.

PS: As entrevistas realizadas para esse documentário também aparecem no filme Philip Roth: Unmasked, dirigido pelo mesmo William Karel e lançado recentemente na TV americana. O maior tempo do novo filme (1h30 contra 52 min) faz supor que ele pode aprofundar temas que tiveram abordagem superficial ou que nem foram citados em Philip Roth – Sem Complexos – entre eles a aposentadoria anunciada pelo escritor no final do ano passado.

Nota: 7,0/10

Próximas sessões no É Tudo Verdade:

– CINÉPOLIS LAGOON (RIO DE JANEIRO): 11/04 – 17H
– CINE LIVRARIA CULTURA (SÃO PAULO): 11/04 – 19H
– ESPAÇO MUSEU DA REPÚBLICA (RIO DE JANEIRO): 14/04 – 20H

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