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Reality

Na cena inicial de Reality, novo filme de Matteo Garrone, um plano aéreo da cidade de Nápoles mostra uma carruagem que circula ao lado de carros e traz noivos prestes a se casar em uma mansão. O anacronismo da situação – tanto do meio de locomoção quanto do visual dos empregados da festa – serve como bom prólogo para os acontecimentos que virão a seguir.

Se antigamente o objetivo comum era comprar um título de nobreza e se portar como alguém daquele grupo social, hoje o ideal difundido em nossa sociedade é o da necessidade de se tornar famoso, não importando o meio utilizado. É bem verdade que a obsessão insana pela família real ainda persiste em alguns lugares, notadamente na Inglaterra, mas atualmente ninguém precisa de “sangue azul” para ser conhecido. Basta, para isso, uma participação em algum programa televisivo como o Big Brother.

O personagem Enzo é um desses que saem do anonimato graças a essa atração e passam a trabalhar em cima da fama adquirida, realizando aparições pagas em festas e casamentos. Sem nenhum tipo de conteúdo a oferecer, o que fica claro já no seu estúpido bordão (“never give up”), ele se torna aos poucos a referência de sucesso para o protagonista Luciano, pai de família responsável que é convencido pelas filhas a fazer um teste para o Gran Fratello (versão italiana do nosso BBB) e acaba ficando paranoico com o assunto, achando que está sendo seguido e testado diariamente pelos organizadores do programa.

Sobre esse aspecto, é curioso notar que, apesar de não estar na casa do programa, Luciano age da mesma maneira que os participantes, entendendo que está tendo suas ações vigiadas regularmente – o que de fato ocorre através das câmeras de Garrone, que utiliza imagens com ângulos costumeiramente vistos em reality shows. Interpretando um personagem de si mesmo, o protagonista coloca em segundo plano todos os fatores que faziam de si um homem feliz e inicia uma trajetória emocionalmente destrutiva, que não teria o mesmo peso sem a marcante atuação de Aniello Arena.

Apontando a degradação de valores em nossa sociedade de maneira sutil, como quando mostra a Cinecittá – estúdio em que foram filmados clássicos como A Doce Vida – abrigando reality shows, o diretor traça também um paralelo interessante entre religião e fama, sugerindo que a devoção por celebridades adquiriu o mesmo nível de fanatismo com o qual os fiéis tratam os seus deuses. Já a trilha sonora de Alexandre Desplat, que parece mais adequada a um filme de fantasia como os da série Harry Potter, serve para indicar a natureza ilusória daquilo que Luciano almeja.

Além de ser um belíssimo estudo de personagem, beneficiado pelos longos planos-sequência que seguem o protagonista, Reality não se deixa guiar por soluções fáceis e não teme ressaltar toda a melancolia decorrente de sua situação central. Adotando uma narrativa circular, iniciada e terminada em planos aéreos, o filme ainda mostra que Luciano é apenas mais uma peça na engrenagem invisível que faz a indústria das celebridades funcionar.

Nota: 8,0/10

PS: Crítica originalmente publicada na cobertura da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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