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Doméstica

Um dos muitos méritos de O Som ao Redor, filme de Kleber Mendonça Filho, é o de conseguir demonstrar as heranças do passado escravocrata na atual sociedade brasileira de modo sutil, sem apelar ao panfletarismo. O plano-sequência que mostra uma empregada doméstica caminhando para o seu minúsculo quarto em uma cobertura do Recife, por exemplo, já é suficiente para levantar um questionamento acerca dos resquícios da antiga separação entre Casa-Grande e Senzala.

No documentário Doméstica, recém-lançado nos cinemas brasileiros, Gabriel Mascaro aprofunda a discussão sobre o tema ao realizar um longa-metragem que dá protagonismo a essa classe de trabalhadoras tão conhecida dos brasileiros – somos o país com maior quantidade de empregadas domésticas do mundo -, mas que até a recente aprovação da PEC das Domésticas era tratada pelas leis e pelo mercado de trabalho de maneira diferenciada, no pior sentido que esse termo pode ter.

Respondendo a anúncios da produção do filme, vários jovens entre 15 e 17 anos aceitaram filmar as suas empregadas durante uma semana. Desse grupo, sete pessoas tiveram suas gravações escolhidas para entrar no corte final do documentário.

Nessas histórias, vindas de diversas cidades do Brasil, os níveis de afeto entre patrão e empregada variam, mas em muitos casos os vínculos pessoais distorcem uma relação que deveria ser antes de tudo empregatícia.

Dois casos ilustram bem essa situação: o da patroa que trata a funcionária como um membro da família e acolhe a filha dela como se fosse sua neta, e o do empregado contratado após enfrentar problemas pessoais que faz todos os serviços domésticos, mas não recebe muito além da moradia por isso.

É inegável a existência de sentimentos verdadeiros entre aquelas pessoas, mas também fica claro que essa relação ajuda a perpetuar um antigo modelo de exploração entre classes sociais. Aqui, opressão e afeto caminham paradoxalmente juntos, e o grande mérito do documentário é o de mostrar essas histórias sem ridicularizar os seus personagens, embora seu título já sinalize maior simpatia com as empregadas.

Assim como O Som ao Redor, Doméstica confia na capacidade de reflexão do espectador e não pretende lhe impor uma opinião pré-fabricada. O modo de realização, com os jovens patrões filmando suas empregadas, já é uma sutil demonstração de poder que dá origem a um filme no qual as entrelinhas são bem mais interessantes do que as falas dos personagens.

O núcleo que traz uma empregada que foi amiga de infância da patroa, por exemplo, demonstra muito bem as contradições sociais brasileiras. Fica difícil acreditar nas respostas da funcionária às perguntas do jovem patrão, mas uma fala é marcante – quando questionada sobre o que mudou na relação com a atual chefe, ela apenas repete: “amadureceu”.

Curiosamente, os inúmeros significados trazidos à tona por essa palavra apenas reforçam a impressão de que estamos longe de nos tornarmos uma sociedade que entende e lida de forma madura com a sua história.

Nota: 7,5/10

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