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o que se move

Uma família brinca de “estátua” no Parque do Ibirapuera. Um homem observa na TV uma atleta que, depois de algum tempo parada, inicia a sua corrida. Essas duas cenas de O Que Se Move, de Caetano Gotardo, retratam simbolicamente a trajetória que os personagens principais do filme precisam trilhar: após sofrerem perdas, essas pessoas enfrentam períodos distintos de luto. É como se o tempo ficasse suspenso por tempo indeterminado para elas até o momento em que prevaleça a necessidade de seguir em frente.

Por tratar de temas tão delicados (suicídio, morte acidental, roubo de bebês), o filme poderia resvalar em um excesso de sentimentalismo e pieguice que acentuaria desnecessariamente a tragicidade intrínseca daquelas histórias. Felizmente, isso não ocorre.

Em seu primeiro longa-metragem na direção, o também roteirista Caetano Gotardo demonstra uma maturidade típica de cineastas consagrados. A escolha por planos longos com a câmera predominantemente estática faz com que o espectador se acostume com aquele ambiente e, consequentemente, se sinta tocado pelos rumos inesperados daquelas histórias. Já a forma com a qual o diretor decide transmitir a dor daquelas mães provoca um estranhamento inicial, mas atinge um tom correto que não compromete a obra.

Com o auxílio da montadora Juliana Rojas, Gotardo apresenta domínio total sobre a história que conta. Nos dois primeiros núcleos, que trazem casos ligeiramente parecidos, acompanhamos um dia comum de pessoas que terão suas vidas bruscamente modificadas. Além da interligação temática, uma música que é tocada no fim da primeira e início da segunda história torna a transição mais orgânica e prenuncia sutilmente o que virá a seguir.

Já o terceiro núcleo traz uma história em que também há perdas, mas a possibilidade de reencontro a torna mais feliz. O caso em si já funcionaria como uma maneira de fechar de modo mais otimista um ciclo narrativo, mas o diretor representa isso visualmente através de uma rima temática entre a abertura do filme (mãe abre porta e olha para filho) e o momento em que um marido executa o mesmo gesto e vê a sua mulher.

Em uma cena perto do final da obra o uso da câmera subjetiva nos mostra o olhar de uma mãe que não presta atenção ao que está acontecendo ao seu redor e olha fixamente para o filho que não via há 16 anos. Quantas situações, felizes ou tristes, aquela mulher deixou de experimentar naquele período? Quantas vezes ela imaginou onde estaria aquela criança, ou pensou que aquele menino que acabara de ver na rua poderia ser seu filho?

O Que Se Move fala sobre o que poderia ter sido e não foi, sobre o que passou mas não foi vivido. Como diz a letra de uma canção tocada no filme, é “difícil definir” essa obra de Caetano Gotardo, já que ela trata muito mais de sentimentos do que de acontecimentos. Mais fácil é dizer que os cinéfilos brasileiros agora têm mais um cineasta para acompanhar de perto nos próximos anos.

Nota: 8,0/10

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