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O Festival de Cannes desse ano chegou ao fim no último domingo com a premiação de La vie d’Adèle, do tunisiano Abdellatif Kechiche, com a Palma de Ouro. Principal evento desse tipo no mundo, Cannes já premiou filmes dos mais diversos desde sua criação, em 1946.

Com esse post inauguro a seção Palmas, na qual pretendo escrever nesse blog, a cada semana, sobre filmes que venceram a Palma de Ouro. O primeiro filme escolhido é A Criança, dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, que foi premiado em 2005.

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A Criança

Poucos cineastas na atualidade têm um estilo que, de tão pessoal, é facilmente identificável após alguns minutos de projeção. Os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne fazem parte desse grupo.

A câmera na mão sempre perto dos protagonistas, a ausência de trilha sonora e o foco humanista decorrente da escolha por personagens principais que não se adaptam a um mundo desigual são algumas das características que se repetem na obra dos diretores desde A Promessa (1996).

Em A Criança (2005), filme que rendeu aos Dardenne a segunda Palma de Ouro – a anterior havia sido por Rosetta (1999) -, os cineastas são fiéis mais uma vez a esse estilo, embora mudanças pontuais possam ser observadas, como o maior número de planos abertos em relação aos filmes antecedentes.

Apenas um menino quando atuou em A Promessa, Jérémie Renier voltaria a trabalhar com os Dardenne nove anos depois. Em A Criança ele interpreta Bruno, um jovem que vive de pequenos roubos cometidos em parceria com dois adolescentes. Quando sua namorada Sonia (Déborah François) tem um bebê, a imaturidade do rapaz fica nítida, assim como sua total ausência de responsabilidade.

Bruno aluga a casa que poderia abrigar a criança, deixando mãe e filho sem um lar; compra artigos caros, como um casaco, em vez de garantir o sustento do bebê em médio prazo; e não demonstra afeição pelo novo membro da família, ao qual trata como mais um objeto – que é, de acordo com essa lógica, vendável e substituível (“faremos outro”).

A insistência de Sonia em querer registrar o filho na prefeitura demonstra simbolicamente o desejo de fazer parte de uma sociedade na qual ela não está incluída. Mas nos filmes dos Dardenne a solução não vem das instituições, e sim das decisões tomadas por cada indivíduo.

Se todos os filmes dos diretores desde A Promessa apresentavam famílias disfuncionais, em A Criança a união entre familiares é a única possibilidade para seguir em frente. E, para o protagonista, o primeiro passo para isso é deixar de agir como uma criança e se tornar um adulto.

Nota: 8,5/10 

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