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faroeste caboclo

Adaptar uma música como Faroeste Caboclo para o Cinema pode ser considerado tão arriscado quanto produzir um filme baseado em alguma obra literária. A letra da canção de Renato Russo narra uma verdadeira epopeia que poderia ter sido escrita em centenas de páginas, mas foi gravada em pouco mais de nove minutos.

Havia, portanto, dois caminhos a serem evitados pelo diretor René Sampaio: ser fiel demais à obra original e não se justificar como Cinema; ou descartar a música como fonte e acabar por desfigurá-la por completo. Felizmente, Sampaio prefere o meio termo entre essas duas opções e acaba realizando um interessante longa-metragem de estreia.

Como a maior parte das ações se passa quando João de Santo Cristo vai, já adulto, para Brasília, a infância do protagonista é retratada em poucos minutos na tela, o que leva o diretor a encontrar meios elegantes para demonstrar algumas passagens de tempo (elipses). A cena em que mãe e filho buscam água em um poço e, quando recuperam o balde, já estão anos mais velhos, simboliza perfeitamente o monótono cotidiano dos moradores daquele local, enquanto que a elipse que resulta na saída de João da FEBEM, além de servir para mover a história em direção ao seu conflito central, também evita explicar as ações do protagonista através de um psicologismo superficial.

É provável que fãs da música fiquem decepcionados com as omissões/modificações de diversas partes da história criada por Renato Russo, mas essas mudanças sempre são necessárias, em maior ou menor grau, em uma adaptação cinematográfica. Em Faroeste Caboclo, a escolha por uma abordagem realista ajuda o roteiro a delimitar as passagens da música que serão importantes para contar a trajetória do protagonista. Um bom exemplo de acerto nesse sentido é a antecipação do surgimento de Maria Lúcia na trama, o que só ocorria bem mais tarde na canção.

Outro importante fator para o bom andamento do filme é a qualidade de seu ator principal. Sem nunca apelar para o overacting, Fabrício Boliveira faz de João de Santo Cristo um personagem extremamente humano, podendo ser movido tanto pelo ódio quanto pelo amor. Nesse sentido, o tratamento multifacetado ao mesmo tempo evita uma glamorização do protagonista e acentua seu papel de herói e mártir da trama.

Por outro lado, alguns deslizes interferem negativamente no resultado final do filme. O relacionamento entre João e Maria Lúcia é construído com mais pressa do que deveria pelo roteiro, o que impede um entendimento melhor sobre os motivos não carnais para aquela aproximação; a interpretação de Felipe Abib (parecidíssimo com o jogador Valdivia) torna Jeremias uma figura um pouco mais patética do que deveria ser; e, principalmente, a narração em off não agrega em nada à narrativa do filme.*

Tomado como um todo, porém, Faroeste Caboclo tem muito mais qualidades que defeitos, e consegue ao mesmo tempo fazer jus à obra de Renato Russo e lançar mais um bom diretor de cinema brasileiro.

Nota: 7,5/10

*Há muitos críticos que abominam esse recurso, o que considero um equívoco. Existem inúmeros exemplos de bom uso da narração em off, de Martin Scorsese a José Padilha, de Terrence Malick a Fernando Meirelles. Em Faroeste Caboclo, porém, o voice over surge esporadicamente e de modo desnecessário. Fica parecendo que ele só é usado com o intuito de encerrar a projeção com uma fala apaziguadora (“o fim não é quando a estrada acaba”), o que seria perfeitamente dispensável.

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