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o quarto do filho

No Cinema, assim como em nosso cotidiano, o grau de proximidade que temos com determinada pessoa faz com que nos abalemos mais (ou menos) com algum problema que ela venha a enfrentar. Em O Quarto do Filho, de Nanni Moretti, a identificação que o espectador cria em pouco tempo com o protagonista e sua família é fundamental para o êxito do longa-metragem, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2001.

O filme se inicia com Giovanni (Moretti) sendo chamado à escola do filho Andrea (Giuseppe Sanfelice), que está sendo acusado de furtar um fóssil do local. O caso não tem maiores consequências, mas o que fica da situação é a impressão de que o relacionamento entre pai e filho não é dos mais próximos.

Através de uma narrativa fragmentada, que mostra pedaços do cotidiano de Giovanni, o primeiro ato da produção se divide em dois eixos: em um deles acompanhamos o trabalho do protagonista como psicólogo e a sua calma ao lidar com pacientes tão distintos quanto um potencial suicida e um maníaco sexual que tenta controlar a sua libido; no outro, vemos a sua relação com a família e, particularmente, a sua preocupação com o filho e a tentativa de se aproximar dele por meio de atos simples como uma corrida na rua ou de diálogos que, mesmo curtos, já significam um avanço.

Acontece que a história dessas pessoas tão comuns e, por isso mesmo, humanas, sofre uma reviravolta após uma tragédia. A princípio, todos se unem pela mesma dor, mas logo se percebe o potencial desagregador criado pelas diferentes reações individuais a um mesmo fato.cannes

Entendendo o potencial emocional da história, Moretti aposta na sutileza em cenas em que muitos diretores prefeririam o excesso. Uma simples troca de olhares, por exemplo, é suficiente para transmitir uma notícia terrível, enquanto que a trilha sonora, muitas vezes utilizada em outras produções do gênero para acentuar a emoção de certas passagens, não é ouvida em momentos em que a situação já é suficientemente emocionante.

O que ganha destaque então é a crise do psicólogo Giovanni. Depois de tanto aconselhar seus clientes a não se sentirem responsáveis por tudo de mal que acontece em suas vidas, ele se vê como culpado por algo que não tinha controle, acaba levando sua crise pessoal para o trabalho e fica atormentado por uma pergunta que, racionalmente, sabe não ter sentido: “o que aconteceria se eu tivesse feito algo diferente naquele dia”?

É um processo difícil para um psicólogo que agora age como paciente, e não há soluções fáceis nem rápidas para superar esse momento turbulento. Entretanto, o aparecimento inesperado de uma pessoa que faz a família lembrar da tragédia serve como impulso para que aquelas pessoas aceitem a perda.

Mais uma vez utilizando a sutileza, Moretti termina o filme com os personagens em uma estrada ao lado da fronteira entre Itália e França. Nada mais simbólico para personagens que precisam romper um ciclo de luto (fronteira) para trilhar um novo caminho (estrada) em suas vidas.

Nota: 8,0/10

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