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heli

As perguntas feitas para o protagonista por uma agente do censo populacional mexicano em uma das primeiras cenas de Heli, filme de Amat Escalante, têm não só o propósito óbvio de fornecer informações sobre aquela família para o espectador, mas também conseguem estabelecer um raro contato amistoso entre os personagens e o Estado.

Com seu nome dando título ao filme, o personagem principal vive junto com mulher, filho, pai e irmã em uma casa localizada em uma paisagem desértica que tem o seu isolamento de qualquer área urbana destacado pelos vários planos gerais realizados pelo diretor. Em vez de trazer tranquilidade, esse afastamento expõe a ausência do Estado e a vulnerabilidade à qual aquelas pessoas estão submetidas.

Iniciando o filme com um plano-sequência que já mostra a brutalidade que, cedo ou tarde, aparecerá no filme, Escalante conduz a sua seca narrativa através de dois eixos: em um deles acompanhamos a vida de Heli, pai de família que trabalha na indústria automotiva para sustentar a filha recém-nascida; no outro vemos a irmã de Heli, Estela, de apenas 12 anos, se encontrando com o namorado mais velho e planejando se casar e se mudar com ele.

Em um plano especialmente inspirado, Estela conversa com o namorado ao lado de uma máquina de fliperama que simboliza a infância que eles não tiveram possibilidade de experimentar. Da mesma forma, o treinamento militar do qual o jovem rapaz faz parte, que tem cenas que lembram a seleção do BOPE em Tropa de Elite (2007), representa uma tentativa de amadurecimento forçado para aquelas pessoas.

Os descaminhos dos jovens retratam a base de uma sociedade desajustada como um todo, parece dizer Escalante. Não à toa, é um desvio de um jovem que provoca o principal acontecimento do filme.

O problema é que, ao expor seus personagens a uma situação-limite, o diretor opta pelo choque simples e puro em detrimento da reflexão. E a questão aqui é muito menos a forte cena que fez e ainda fará com que muitos espectadores se retirem do cinema no meio da sessão, e mais o que (não) vem depois dela.

É sentida, por exemplo, a falta de um desenvolvimento melhor dos personagens. A figura do pai de Heli é tão mal explorada que o espectador pouco se importa com seu destino. Já o protagonista é retratado como um poço de integridade em meio a uma sociedade corrompida, e a atuação pouco expressiva de Armando Espitia contribui para a afirmação de um discurso maniqueísta.

De modo geral, o filme carece de uma visão mais ambígua e menos literal dos fatos. Faltam sutilezas para se lidar com os diferentes níveis de violência vistos na narrativa, o que acaba fazendo de Heli uma obra bem dirigida com potencial desperdiçado.

Nota: 6,5/10  

PS: Heli tem sessão nesta quarta-feira, às 19h, no Cinesesc, em São Paulo, como parte da programação do festival Indie 2013. O filme também está presente na programação do Festival do Rio – clique aqui para ver as datas em que ele será exibido no evento carioca.

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