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Um dos nomes que mais ganhou notoriedade com a crise econômica iniciada nos EUA em 2008 foi o do megainvestidor Bernie Madoff. Empresário bem-sucedido conhecido por suas ações filantrópicas na comunidade judaica, ele acabou preso pelo FBI depois que uma fraude bilionária de sua autoria foi descoberta.

Pode-se ver em Madoff o modelo para o personagem Hal (Alec Baldwin) em Blue Jasmine, novo filme de Woody Allen. A derrocada do golpista, porém, não é o que mais interessa ao diretor americano, que volta seu foco para a difícil adaptação de Jasmine (Cate Blanchett), ex-mulher de Hal, a uma vida sem o luxo e as facilidades trazidas pelo dinheiro, coisas que ela experimentou durante muitos anos.

As sofisticadas roupas, as joias e a mala (“Louis Vuitton!”) utilizadas por Jasmine no começo do filme mostram que a ostentação é algo natural para a personagem. Some isso à compra de uma passagem de primeira classe e ao desajuste emocional exposto logo de cara por um monólogo – que ela pensa ser uma conversa – com uma senhora, e já temos indícios de que o novo período na vida da protagonista não será fácil.

Sem dinheiro após o seu marido perder todas as economias e acabar preso, Jasmine viaja de Nova York a San Francisco para ficar hospedada na casa da irmã Ginger (Sally Hawkins), a quem nunca teve apreço especial quando levava uma vida luxuosa.

Prescindindo de palavras, Woody Allen mostra sucintamente o contraste entre passado e presente na história. Exemplos disso são os planos gerais que diferenciam o modesto lar de Ginger da antiga mansão da protagonista e a rápida panorâmica da casa de irmã (movimento de câmera que demonstra como, para Jasmine, o apartamento não passava de um cubículo).

A montagem paralela que alterna acontecimentos de diferentes tempos é um recurso muito utilizado durante todo o filme, e tem aqui um propósito narrativo que conhecemos no decorrer da obra, já que as cenas do passado se revelam como as recordações de Jasmine, o que dá a elas uma característica subjetiva que justifica a não-linearidade adotada.

Enquanto não consegue esquecer um passado que, em vários aspectos, parece uma longa e amarga mentira, Jasmine busca alternativas para seguir em frente. Mesmo falida, ela recusa trabalhos que não estariam “à altura dela” e só aceita uma posição desse tipo quando tem como objetivo alcançar um emprego ”respeitável” – tudo isso, claro, na visão elitista da protagonista.

Fosse uma atriz com menos talento no papel de Jasmine, possivelmente a atitude esnobe e desagradável da personagem causaria apenas repulsa nos espectadores. A atuação de Cate Blanchett, porém, traz um misto de fragilidade e desespero que faz dela uma figura digna de pena, e que, portanto, deixa o papel de vilã e se torna uma vitima não só das circunstâncias, mas principalmente dela mesma.

Acontece que, por não ter feito esforço algum para atingir o status financeiro e social do passado, Jasmine enxerga aquilo como um direito que precisa recuperar de alguma forma. Assim, nada mais coerente que, na primeira possibilidade de ascensão, ela escolha o caminho mais curto, único que conhecera na vida: a submissão. Nesse sentido, a cena em que a protagonista conhece um possível pretendente e se rebaixa literalmente a ele ao se sentar numa cadeira é exemplar.

Jasmine é parente cinematográfica de Norma Desmond, personagem imortalizada por Gloria Swanson na obra-prima Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder. De diferentes maneiras – Norma pelo trabalho como atriz do cinema mudo e Jasmine através do casamento –, elas atingiram o auge de suas vidas e depois se transformaram em figuras patéticas por não saberem como lidar com a queda posterior.

Woody Allen – que mostra com Blue Jasmine que ainda é um cineasta capaz de realizar grandes filmes, como já fizera recentemente com Meia-Noite em Paris (2011) – faz relação com a obra de Wilder inclusive no final, ao enquadrar a protagonista em um primeiríssimo plano desolador. Para que a referência fosse mais explícita, só se Cate Blanchett saísse do papel e parafraseasse a famosa fala da personagem de Gloria Swanson, dizendo: “All right, Mr. Allen. I’m ready for my close-up”.

Nota: 8,0/10 

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