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Os títulos do vencedor do prêmio principal do Festival de Cannes de 2013 trazem, tanto na versão francesa (A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2) quanto na americana (Azul é a Cor Mais Quente, mesmo nome da HQ em que ele se baseou), referências importantes ao filme de Abdellatif Kechiche, que chegou recentemente aos cinemas brasileiros.

A menção aos capítulos parece falha, pois não há nenhuma divisão clara delimitando a obra, mas ela transmite de forma correta a ideia de um recorte temporal da vida da protagonista. Já o destaque dado ao azul se justifica porque, no longa-metragem, a cor adquire um simbolismo que permeia toda a história e reflete o estado de espírito da personagem principal ao atingir o êxtase amoroso.

Adèle (Adèle Exarchopoulos, excepcional) é uma adolescente que não foge muito ao padrão de sua idade. Insegura, ela se relaciona com um rapaz mais velho muito mais pela insistência do seu grupo de amigas do que por vontade própria. Em oposição ao coletivo há uma individualidade ciente de um vazio interno e da necessidade de autodescobrimento. É nesse contexto que Emma (Léa Seydoux), ou melhor, o azul, entra na sua vida. Um simples olhar para uma desconhecida de cabelo azulado que passa na rua faz Adéle se encantar primeiro pela cor, pelo sentimento que ela desperta nela.

Dominado pelo azul antes mesmo do encontro com Emma, o quarto da protagonista pode ser visto como um local íntimo, livre de influências externas, que atesta uma vontade particular de Adèle antes mesmo de ela descobri-la e serve como palco para a maturação desse desejo antes de ele se concretizar (como na cena de masturbação). Pouco depois, a exteriorização desse sentimento faz com que a cor passe a ser utilizada mais frequentemente como uma maneira de traduzir a subjetividade emocional da personagem.

Pode-se citar como exemplos desse uso o banco azul em que Adèle, já influenciada pela visão de Emma, termina o relacionamento com o rapaz; o aumento do uso da cor no vestuário da protagonista; e a presença excessiva do azul em lugares como a escola da personagem. Quando o padrão se rompe, detalhes igualmente importantes são notados: a mudança de cor do cabelo de Emma prenuncia um esfriamento na relação com Adèle; a iluminação sépia em um encontro amoroso denota um tipo de relacionamento diferente do anterior; a roupa marrom de Adèle indica, em determinado momento, a sua disposição de esquecer um período, e o posterior uso de um vestido azul, por outro lado, demonstra uma busca da personagem por recuperar algo que se perdeu.

Se há algum tipo de voyeurismo em Azul é a Cor Mais Quente ele está presente na maioria dos planos que compõem as quase três horas de filme, e não apenas nas já famosas cenas de sexo entre as personagens. Kechiche utiliza predominantemente planos fechados (primeiros e primeiríssimos planos) que forçam a proximidade do espectador com os personagens e captam os menores detalhes: uma boca aberta, um lábio sujo por molho vermelho, uma lágrima, um catarro. Pode-se até questionar as escolhas do diretor, mas não há como negar que ele é coerente com o conceito estético que adota.

Outro ponto importante no filme é o modo com que ele lida com o tempo, matéria-prima vital para o processo de amadurecimento da protagonista. A percepção de que o tempo passou rápida ou lentamente é comum em nosso dia a dia, e Kechiche a utiliza como elemento subjetivo na trajetória de Adèle. Para isso, as elipses (saltos no tempo) são fundamentais, já que não há nenhuma demarcação temporal das mudanças que ocorrem com os personagens. As coisas simplesmente acontecem, assim como na vida.

Nesse aspecto o filme se aproxima de Adeus, Primeiro Amor, de Mia Hansen-Love, que tem como centro a forte paixão de uma adolescente – com a diferença de que ela é heterossexual. Nas duas obras os detalhes dizem muito sobre o processo de amadurecimento das protagonistas, seja através de mudanças no corte ou na cor do cabelo, no vestuário, nos pequenos gestos… Não são necessárias palavras para expressar a passagem do tempo, nem tampouco para sugerir sutilmente elementos como, no caso do filme de Kechiche, o ciúme entre as protagonistas e o desgaste trazido pelas diferenças culturais e sociais entre elas.

Azul é a Cor Mais Quente se apoia nessa possibilidade paradoxal ao buscar incessantemente a intimidade, a essência de uma pessoa e de um estado de espírito que, por outro lado, é fugidio e escapa justamente quando o supomos eterno.

Nota: 8,5/10

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais

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