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As contradições inerentes à China atual são o principal tema do cinema de Jia Zhang-Ke. Seja em documentários (Memórias de Xangai) ou filmes de ficção (Em Busca da Vida), os impactos da adesão do país à economia de mercado e à lógica do capitalismo mais extremo entram em choque com as práticas de uma cultura milenar e de um ideal comunista paradoxal e corrompido. Em Um Toque de Pecado, o diretor segue um caminho coerente ao retratar quatro histórias de violência que expõem as fraturas de um país em constante transformação.

Há o caso de um minerador que não aguenta mais a corrupção e a ostentação dos líderes locais e, em seu dia de fúria, sai à caça dos “animais” responsáveis por sua opressão; de um homem que volta ao seu pacato vilarejo e decide cometer pequenos delitos para ajudar a família; de uma recepcionista humilhada por um dos clientes do local onde trabalha; e, por fim, de um jovem que, após um acidente de trabalho, decide mudar de cidade para buscar uma condição de vida melhor.

Ao optar por retratar as histórias de modo sucessivo, e não paralelo, o diretor evita uma falsa ideia de causa e consequência presente nos piores filmes do mexicano Alejandro González Iñárritu. Jia faz sutilmente a ligação entre os personagens, utilizando para isso elementos como as folhas verdes vistas no letreiro inicial, um caminhão de tomate tombado e uma foto de um dirigente. O retrato de personagens de diferentes regiões com idades decrescentes (do mais velho para o mais jovem) e o recomeço de um ciclo no final do filme são modos que o cineasta encontra para mostrar a abrangência dos problemas retratados, que antes de tudo são oriundos não de indivíduos, mas de uma sociedade problemática.

Evitando movimentos de câmera desnecessários, Jia narra as histórias de modo seco, quase documental, com exceção talvez da inspiração em filmes de artes marciais trazida no episódio da recepcionista. Esse expediente torna as humilhações sofridas pelos personagens, e a posterior decisão pela violência, ainda mais impactantes.

Algumas passagens se destacam: o cavalo que empaca, é maltratado pelo dono e, quando tem seu opressor eliminado, volta a caminhar normalmente (metáfora sobre os trabalhadores?); o homem que se sente entediado em sua vila, traz em seu gorro uma marca da influência externa e acha o celular mais perigoso que o revólver; e a mulher que leva uma surra de dinheiro por não tratar seu corpo como uma mercadoria.

Essa última cena é a mais simbólica de um filme que tem como principal tema não a violência em si, mas as causas que levam cidadãos perfeitamente comuns a se entregarem a ela. Nesse sentido, seja pela ostentação, pela escassez ou pela corrupção, o dinheiro surge como um elemento recorrente de discórdia, aquele que melhor expõe o impasse que caracteriza a atual situação chinesa.

Nota: 8,5/10 

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais

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