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Um estacionamento, um bosque, uma praia de nudismo. Em um verão qualquer no litoral francês, esses cenários bem delimitados servem como pano de fundo para uma história em que homens gays igualmente isolados, marginalizados, buscam companhia para saciar os seus desejos sexuais. O amor ou qualquer outra forma de sentimento recíproco ficam em segundo plano na maior parte dos relacionamentos mostrados em Um Estranho No Lago, filme de Alain Guiraudie que venceu o prêmio de direção na mostra Um Certo Olhar no último Festival de Cannes e chegou recentemente aos cinemas brasileiros.

Franck, o protagonista da trama, está também à procura de prazer, mas adota uma postura mais seletiva. Em uma das suas idas à praia ele conhece Henri, um senhor de meia-idade que vai todos os dias ao local, mas fica isolado dos demais frequentadores. Henri é também um solitário, mas não vê mais o sexo como um caminho para diminuir sua angústia. Já Frank não consegue esconder a atração física que sente por Michel, homem com bigode à la Freddie Mercury que aparece na praia em companhia de outro rapaz.

Com exceção das conversas entre Franck e Henri, o que há na maior parte do filme são cenas de procura e consumação do sexo. Superficialmente, alguém pode enxergar o filme como um pornô gay, já que ele não se inibe ao mostrar boquetes, pênis gozando e outras coisas mais. No entanto, uma análise mais interessante pode ser realizada quando entendemos a repetição não como um meio para chocar o espectador, mas, pelo contrário, como um modo de banalizar o ato sexual a tal ponto que, de tão mecânico, ele perde sua força e se torna uma forma de externar o vazio daqueles personagens.

Alain Guiraudie utiliza planos recorrentes, como aquele do estacionamento, para enfatizar essa rotina monótona e pontuar pequenas mudanças. A fotografia também é importante para transmitir, sem a necessidade de palavras, elementos importantes para a narrativa, como nas passagens noturnas em que o rosto de Michel aparece completamente imerso em sombras e o de Franck ainda é iluminado parcialmente.

O ponto de virada a partir do qual o filme se engrandece mostra, através de uma tomada com câmera subjetiva, um acontecimento que em muitos outros filmes seria o mistério principal. Mas a Guiraudie interessa mais o estudo psicológico de seu protagonista do que propriamente um suspense tradicional. Até por isso, a presença de um investigador um tanto quanto inverossímil não chega a interferir na análise do filme como um todo.

O que importa em Um Estranho no Lago é essa ambiguidade entre desejo sexual e morte, entre mistério e excitação. É aí que as repetitivas cenas de sexo ganham importância e são ressignificadas, notadamente através da inteligente cena final. Pois enquanto Henri afirma em determinado momento que achou o que queria – no caso a amizade com Franck –, o protagonista transmite a mesma sensação na sequência derradeira do filme, quando o vazio de sua existência solitária torna-se a opção menos desejada.

Nota: 8,0/10

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