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Há alguma coisa no olhar de Lorenzo (Jacopo Olmo), protagonista de Eu e Você, que lembra o Alex (Malcolm McDowell) de Laranja Mecânica, obra-prima de Stanley Kubrick. Talvez isso se deva apenas aos seus olhos claros, mas não deixa de haver uma ligação entre personagens de filmes completamente diferentes entre si: ambos são jovens insatisfeitos que buscam caminhos distintos para externar essa inadequação em relação ao mundo – Alex através da ultraviolência e Lorenzo, por meio do isolamento.

O protagonista do novo filme do veterano diretor italiano Bernardo Bertolucci apresenta dificuldades para se relacionar com os colegas da escola e não parece nada interessado em aumentar o seu grau de sociabilidade. Lorenzo tem a ligação materna como sua relação social mais forte, demonstrando inclusive fortes resquícios edipianos. Não surpreende, portanto, a sua atitude em relação a uma viagem escolar que a mãe insiste que ele faça: baseado em uma mentira, o personagem consegue ao mesmo tempo agradar à matriarca e se ver livre das obrigações sociais, optando por passar uma semana sozinho no porão de seu próprio prédio.

Bertolucci utiliza vários simbolismos para transmitir o caráter antissocial de Lorenzo. Ele se enrola em uma cortina como se quisesse se esconder dos outros, anda em direção contrária à dos colegas de escola e compra um formigueiro que, quando se quebra, lembra a sua recusa em cumprir o papel pré-determinado que a sociedade espera dele. Finalmente, o porão surge como local de fuga e separação do mundo exterior, no qual ele poderá ouvir as suas músicas e ler seus livros sem ser incomodado por ninguém.

Quando Olívia (Tea Falco), meia-irmã que não vê Lorenzo há anos, aparece para buscar alguns objetos pessoais, o mundo particular do protagonista começa a ruir. Não sem resistência, a personagem acaba ficando no porão por alguns dias, motivada por uma crise de abstinência de heroína. É a partir daí que o conceito de alteridade, do entendimento de que a existência individual e social depende do contato com o outro, passa a fazer parte – de forma imposta pelas circunstâncias, é verdade – da vida do personagem.

As semelhanças entre esses dois outsiders é ressaltada por um trabalho artístico antigo de Olívia, “Eu Sou Um Muro”, que expressa bem essa vontade de se desmaterializar, de ficar alheio a qualquer tipo de pressão externa. A mensagem antiindividualista e humanista fica clara, e poderia até ser menos “mastigada” para o espectador, ao passo que a direção de Bertolucci, embora competente, não traz grandes lampejos de criatividade.

A clara exceção fica por conta de uma das cenas mais bonitas de 2013: a dança de Olivia e Lorenzo ao som de Ragazzo Solo, Ragazza Sola, versão italiana da música Space Oddity, de David Bowie. Depois de passar todo o filme ouvindo músicas em seu fone de ouvido da mesma maneira egoísta com que se mantém afastado das pessoas, o protagonista finalmente compartilha com alguém não só um som, mas um instante de comunhão, de identificação com o outro. É um grande momento audiovisual, digno da carreira de Bertolucci.

Nota: 7,0/10

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