Tags

, , , , , , ,

Planejado pelo diretor como um longa-metragem de 5 horas e meia, o novo filme do dinamarquês Lars Von Trier acabou sendo remontado por seu estúdio, que preferiu lançá-lo em duas partes de cerca de duas horas e amenizou o teor das cenas de sexo. A intenção inicial de Von Trier é importante para relativizar o lançamento de Ninfomaníaca – Volume I, metade inicial que chega agora aos cinemas brasileiros e claramente carece de seu complemento para receber uma análise menos superficial e mais justa (a distribuidora Califórnia Filmes promete lançar a segunda parte em março, e o volume inicial da versão do diretor será exibido pela primeira vez no próximo Festival de Berlim).

A protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg) começa essa primeira parte jogada em um beco e é encontrada pelo experiente Seligman (Stellan Skarsgard), que se oferece para tratá-la em sua casa. Ferida interna e externamente, cheia de remorso e afirmando ser uma pessoa má, a mulher é questionada pelo anfitrião, que duvida de sua fala. Começa então a dinâmica que conduz o filme: Joe relembra a sua história, que acompanhamos em flashbacks, e Seligman, quase como um psicólogo, tenta relativizar e racionalizar as situações, questionando as convicções autodestrutivas de sua hóspede.

Quem espera, influenciado pela campanha midiática do filme, uma obra com cenas sexuais marcantes e polêmicas, deve se decepcionar. Há, sim, diversas passagens do tipo, mas, talvez pelos cortes do estúdio e pelo viés analítico adotado pelo diretor, o que prevalece é o lado mecânico do sexo. É um filme brochante nesse sentido, mas nem por isso desinteressante. A nítida impressão é de que a discussão sexual fica em segundo plano, de modo que o que prevalece é o conflito entre a irracionalidade do corpo e a racionalidade da Ciência.

A descoberta da sexualidade de Joe – interpretada na adolescência e no início da fase adulta pela bela e inexpressiva Stacy Martin, que se encaixa perfeitamente no papel – é mostrada desde quando ela era criança, passando pela perda da virgindade e por uma disputa dentro de um trem que serviu como ponto de partida para sua voracidade sexual cada vez maior. Adepta de uma postura anti-amor (simbolizada pelo hilário lema “Mea Máxima Vulva”), a personagem racionaliza suas relações a tal ponto que decide como tratar os seus parceiros sexuais através do lançamento de um dado. Tal excesso jamais é suficiente para saciar o seu prazer, criando um vazio emocional constante que ela finalmente acredita poder curar depois que reencontra Jerôme (Shia LaBeouf), um antigo conhecido.

Surgindo como uma espécie de alter ego de Von Trier – quem conhece a polêmica que o diretor se envolveu durante o Festival de Cannes de 2011 entenderá melhor um comentário sobre a diferença entre antissionismo e antissemitismo –, Seligman busca metáforas inusitadas, relacionando pescaria, matemática e música aos tumultuados eventos da vida de Joe.

Cria-se então um distanciamento que, apesar da sisudez teatral dos diálogos iniciais, é gerado pelo peculiar senso de humor do cineasta, que aparece tanto em algumas tiradas de Seligman quanto em uma hilária e nonsense aparição de Uma Thurman. Há também inserções de números, gráficos e outros recursos que poderiam servir para provocar o olhar e a reflexão do espectador, mas que em excesso se tornam apenas um capricho desnecessário e tolo de um diretor que parece não levar a sério nenhum dos temas que trata, se interessando muito mais pelas possibilidades narrativas que a história oferece.

Desse modo, o que fica dessa primeira parte do filme é o levantamento de uma discussão cinematograficamente interessante (a complementaridade paradoxal entre o vazio e a racionalidade plena) que tem potencial para ser melhor desenvolvida na metade final da obra. Aguardemos, então, o próximo capítulo.

Nota: 7,0/10

Anúncios