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A viagem de trem que Gary (Tahar Rahim) faz no início de Grand Central, filme de Rebecca Zlotowski, indica uma transformação na vida do protagonista, que busca reconstruir a sua vida e deixar para trás um passado que deduzimos ser sombrio, mas sobre o qual nunca sabemos muita coisa.

A sua aproximação inicial com um homem que o furta e o desprezo com o qual sua família lhe trata são indícios de como foi a vida de Gary até aquele momento, mas o filme prefere deixar o passado nas entrelinhas e voltar o seu foco para o presente, no qual o protagonista começa a trabalhar em um posto mal remunerado em uma usina nuclear.

O salário que recebe é inversamente proporcional ao perigo que enfrenta, uma vez que todos os funcionários estão sujeitos aos riscos trazidos pela radiação. Apesar disso, há uma relação de amizade entre os trabalhadores, que se divertem após o trabalho. Gary começa a se enturmar com o grupo, e é em uma dessas ocasiões de lazer que ele conhece Karole (Léa Seydoux), esposa de um companheiro de trabalho, que se apresenta de um modo inusitado.

Esse encontro estabelece a metáfora que guiará o filme. A paixão de Gary por Karole aumenta no mesmo patamar que o seu nível de radiação. Ele idealiza ela (repare que a cor predominante do figurino usado pela mulher é o branco, que passa uma ideia de pureza) e não consegue perceber que a relação entre eles é sobretudo carnal e selvagem, como indica o local em que costumam se encontrar.

Mesmo se tornando repetitivo e perdendo força em sua parte final, o filme consegue ser um bom estudo de personagem sobre um homem solitário que vê a sua chance de estabelecer um laço afetivo real com alguém ser minada por algo que, assim como a radiação, tem um efeito invisível e devastador: um amor não correspondido.

Nota: 7,0/10

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais durante cobertura da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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