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Em Trabalhar Cansa, seu primeiro longa-metragem (dirigido em parceria com Juliana Rojas), Marco Dutra já havia realizado um diálogo com o terror ao tratar dos efeitos das desumanas relações de trabalho contemporâneas, que atingiam o auge dramático na memorável sequência final. Em sua nova obra, Quando Eu Era Vivo (agora em trabalho solo), o gênero exerce importância central, o que a torna um exemplar raro na recente filmografia brasileira.

Mais uma vez trabalhando com Dutra, o ator Marat Descartes interpreta Junior, um homem que se muda para a casa do pai (Antonio Fagundes) logo após se separar e perder o emprego. O que era para ser uma estada de apenas poucos dias se estende indefinidamente, e a obsessão do protagonista pelo passado da família borra cada vez mais os limites entre realidade e insanidade.

Da mesma maneira que em Trabalhar Cansa, o som é um elemento essencial nesse novo trabalho de Marco Dutra. É através de ruídos como o bater de uma mala e a abertura de uma porta ou de uma gaveta que o filme vai impondo o seu clima soturno. Desse modo, a aparente normalidade da situação (depressão pós-separação) é sempre acompanhada por um quê de estranhamento que, posteriormente, se justificará. Essa evocação do terror no cotidiano lembra o cinema de Kleber Mendonça Filho, notadamente o curta Vinil Verde e o consagrado longa O Som ao Redor.

O filme é construído através de uma nítida disputa de visões entre pai e filho, especialmente na relação dos dois com a memória da mulher/mãe, cuja morte nunca é explicada. Enquanto o personagem de Fagundes se afasta das lembranças e busca negar a passagem do tempo (reparem na sua obsessão pela forma física), o protagonista vivido por Marat se mostra cada vez mais obcecado pelo passado, e por isso faz de tudo para reavivar esse tempo perdido (como simboliza a retomada de trabalho de um metrônomo velho).

Essa disputa paterna é evidenciada pela fotografia de Ivo Lopes Araújo nas variações entre o amarelo presente na infância de Junior e o branco fluorescente que caracteriza o apartamento do pai. A direção de arte de Luana Demange também exerce papel fundamental ao fazer da mudança gradual da decoração do imóvel uma expressão do desarranjo interno e da constante obsessão do protagonista pela história da mãe, de quem ele passa a incorporar os hábitos e os trejeitos.

Assim como em O Iluminado, de Stanley Kubrick, ou na trilogia informal de Roman Polanski com filmes passados em apartamentos (Repulsa ao SexoO Bebê de Rosemary e O Inquilino), a locação funciona quase como um personagem que atrai o protagonista e o ajuda a entrar em uma espiral de perturbação. Para que isso funcione e se torne realmente impactante, a atuação de Marat Descartes é fundamental, transmitindo a difícil mudança pela qual o protagonista passa sem nunca apelar para o overacting.

Contando ainda com um trabalho de Antonio Fagundes que nos leva a desejar que ele opte por fazer mais aparições nas telonas, além de uma participação verossímil da cantora Sandy Leah no papel de uma estudante de música, Quando Eu Era Vivo só perde um pouco de sua força quando realiza inserções cômicas em momentos que exigiam maior tensão. Na maior parte do tempo, porém, o filme prende a atenção do espectador, conseguindo ainda surpreendê-lo em sua marcante cena derradeira.

Nota: 7,5/10

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais durante a cobertura da 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes

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