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Exibido na última Mostra de Cinema de Tiradentes, o filme A Mulher que Amou o Vento, de Ana Moravi, buscava fazer uma reflexão lírica a respeito do vento, elemento invisível e misterioso capaz de provocar diversas leituras metafóricas a seu respeito. Embora seja uma obra completamente diferente da de Moravi, sem o viés experimental, a animação japonesa Vidas ao Vento, de Hayao Miyazaki, também transforma o vento em uma espécie de personagem de sua história.

Nesse filme, que foi anunciado como o último de Miyazaki, acompanhamos a história de Jiro Horikoshi desde a sua infância, quando ele já sentia fascínio por aviões e pretendia se tornar um piloto, até a fase adulta, quando a miopia o impediu de dirigir e ele acabou se tornando um conceituado designer de aeronaves no período entreguerras. Embora trate de um personagem real, a obra não tem a pretensão de dar conta de todos os acontecimentos da vida do protagonista; a intenção aqui é a de falar sobre temas universais (ambição, criatividade, persistência, amor) que permeiam a trajetória do protagonista.

A frase de um poema do francês Paul Valéry que abre o filme – e é repetida algumas vezes ao longo da projeção – pontua bem a intenção de Miyazaki: “o vento se ergue, devemos tentar viver”. Na história de Jiro o vento surge como uma força invisível positiva, aquela que impulsiona a criatividade e a ambição artística do personagem e que o leva em diferentes momentos a encontrar Naoko, que viria a se tornar a sua esposa. Por outro lado, o mesmo vento adquire um sentido negativo quando ajuda a espalhar o fogo após um grande terremoto em Tóquio, quando desafia Jiro a construir aviões que se adaptem à sua imprevisibilidade e quando espalha uma doença que pode ser mortal.

Em um cenário de pobreza, o Japão retratado no filme vive o velho dilema provocado pelo choque entre tradição e modernidade. A escolha recorrente de um único prato durante os almoços de Jiro remete a um apego ao antigo que vai sendo soterrado aos poucos pelo novo – algo que Yasujiro Ozu retratou brilhantemente em seu Era Uma Vez em Tóquio, atualmente em cartaz em São Paulo.

Acontece que, ao levar adiante esse desejo inerente ao Homem de superar os seus próprios limites, o protagonista perde o controle sobre as suas invenções, que posteriormente seriam usadas na Segunda Guerra Mundial. A busca pela modernização do Japão passava, naquele momento, pela indústria bélica.

Miyazaki não elimina por completo o horror da guerra de seu filme: o tema circunda a história, seja em um estranho acontecimento ocorrido na Alemanha nazista ou no iminente uso militar dos aviões no conflito que está por vir.

O diretor tem ciência das limitações e das falhas do ser humano, mas isso não o impede de ver poesia nas pequenas coisas, em tudo aquilo que nos impele a seguir em frente.

Nota: 7,5/10 

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais

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