Crítica: São Silvestre

Tags

, , , , , , ,

Há uma cena essencial em São Silvestre, documentário de Lina Chamie sobre a tradicional corrida de rua que é realizada sempre no dia 31 de dezembro em São Paulo. Na Avenida Paulista, via mais conhecida da cidade, a câmera estática mostra, ao som de um balé, a intensa circulação de carros. Demora um tempo para que o semáforo mude para o vermelho, dando alguns segundos para que o mar de gente que passa pelo local possa ocupar apressadamente o asfalto e seguir o seu rumo.

Sem precisar de palavras, Chamie mostra em poucos minutos muito daquilo que o evento representa para a cidade: um dia de exceção em que a população, após passar o ano trabalhando em uma cidade que pouco valoriza os espaços de convivência humana, é finalmente liberada para ocupar locais normalmente entupidos por uma quantidade de carros cada vez maior. Assim como o Carnaval, a São Silvestre se tornou um raro momento em que o cidadão comum esquece as dificuldades cotidianas e deixa por um momento o papel de coadjuvante – e essa é uma das muitas ideias que o filme transmite com êxito.

Abdicando do formato tradicional de documentários, a diretora optou por não utilizar qualquer tipo de entrevista e deixou de lado, assim, qualquer tipo de pretensão didática/histórica. O que interessa à cineasta é a imersão do espectador no ambiente da prova – através do uso de planos fechados e de câmeras trepidantes -, além da construção, por meio das imagens e dos sons, dos significados pessoais, históricos e coletivos que a São Silvestre desencadeia.

Em um primeiro momento, através de uma câmera subjetiva, somos conduzidos por um corredor que, na manhã de um dia comum, faz o percurso da São Silvestre disputando espaço com carros (a mesma luta simbólica mostrada pela cena citada anteriormente). O esforço ali empreendido é destacado por uma imagem rasante que beira o asfalto e pelo excepcional trabalho de som, que valoriza cada passo e cada mudança de respiração. Ocorre que, por mais que aquela corrida desigual e solitária tenha o mesmo espaço daquela realizada no último dia do ano, ela só tem algum significado para o seu corredor. Assim, quando voltamos a ver aqueles mesmos locais na projeção, as especificidades da São Silvestre ficam ainda mais sobressalentes.

Diante do mar de gente que parece não ter fim após a largada da prova e dos closes de rostos repletos de expectativas distintas de cada competidor, o ator Fernando Alves Pinto – que se preparou para correr a São Silvestre e aparecer no filme – surge como elemento agregador (a parte pelo todo), representando um esforço e uma superação que, embora individuais, agora ganham um sentido coletivo.

Alves Pinto é mais um entre os milhares de pessoas que testam seus limites tendo como único adversário o próprio corpo; é mais um a construir um evento que faz parte da memória coletiva da cidade, como mostram as curtas imagens antigas da época em que o evento era realizado à noite; é mais um a ocupar as ruas de uma cidade com uma riqueza histórica e cultural enorme e muitas vezes esquecida, palco de construções como o estádio do Pacaembu e o Teatro Municipal – que têm essa importância trazida à narrativa por meio do som da narração radiofônica de gols e da música clássica, respectivamente.

De outra forma, somos todos Alves Pinto, vislumbrando o cruzamento da linha de chegada como o momento em que todo sacrifício – não só da corrida, mas de todo ano – será recompensado, e atingindo, ao menos uma vez, algum estágio de comunhão com a cidade e seus habitantes.

É pena, para São Paulo, que só haja um dia 31 de dezembro por ano.

Nota: 8,0/10

Anúncios

Top 10: Melhores filmes de 2013

Tags

, , , , , , ,

Com o ano de 2013 perto do fim, é chegado o momento de olhar para trás e analisar tudo o que passou pelos cinemas brasileiros nos últimos doze meses. Para escolher as produções que mais se destacaram nesse período preferi me ater apenas a filmes que chegaram ao circuito comercial nacional. Assim, filmes como O Último dos Injustos, de Claude Lanzmann, e Cães Errantes, de Tsai Ming Liang, que brigariam pelas primeiras posições, não puderam ser relacionados. Vamos à lista:

10 – Tatuagem*, de Hilton Lacerda

Em um plano mais superficial, o conflito se restringe ao encantamento de Fininha pelo novo mundo descoberto, algo que provoca um amadurecimento que só virá através de escolhas que fatalmente lhe trarão consequências. As possibilidades de leitura do filme, no entanto, são ampliadas quando pensamos que ele trata da expectativa acerca de um futuro que nada mais é do que o nosso presente, e que essa discussão pode englobar temas diversos como política, valores da sociedade e o próprio fazer cinematográfico. Leia a crítica completa

9 – Blue Jasmine, de Woody Allen

Fosse uma atriz com menos talento no papel de Jasmine, possivelmente a atitude esnobe e desagradável da personagem causaria apenas repulsa nos espectadores. A atuação de Cate Blanchett, porém, traz um misto de fragilidade e desespero que faz dela uma figura digna de pena, e que, portanto, deixa o papel de vilã e se torna uma vitima não só das circunstâncias, mas principalmente dela mesma. Leia a crítica completa

8 – Gravidade, de Alfonso Cuarón

A longa primeira sequência desse filme já demonstra o apuro visual do diretor Alfonso Cuarón. Utilizando com êxito a liberdade propiciada pelo local onde a história se passa (o espaço), o cineasta mexicano consegue rapidamente imergir o espectador dentro da trama e fazê-lo se importar com a jornada da protagonista vivida por Sandra Bullock.

Apesar do status de superprodução, é um filme com uma história simples de reencontro da personagem principal consigo mesma. Sem a pretensão filosófico-existencial de filmes como 2001: Uma Odisseia No Espaço ou Solaris, Gravidade não deixa, por isso, de ter várias camadas de entendimento. A cena em que Bullock fica na posição fetal dentro de uma nave (útero) sugere o seu renascimento, que é completado com um mergulho na água (elemento essencial para a vida) e a posterior sugestão da trajetória da evolução animal. A própria gravidade é retratada metaforicamente na obra como tudo aquilo que nos impele a continuar vivendo.

7 – Amor, de Michael Haneke

Dois brilhantes atores veteranos contracenam quase apenas em um único espaço conforme a decadência física surge como um obstáculo para uma relação construída ao longo de décadas. Como é de seu costume, Haneke faz um filme seco, sem concessões ao espectador, mas fica difícil não admirar a sua habilidade na direção, realçando sutilezas e construindo sentidos para as ações situadas fora do quadro.

6 – Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-Ke

Nos filmes de Jia Zhang-Ke as contradições da China são mostradas através de um constante choque gerado pela coexistência do capitalismo mais extremo com um ideal comunista paradoxal e corrompido. Em Um Toque de Pecado, mantendo um estilo de filmagem elegante e avesso a movimentos de câmera desnecessários, Jia conta a história de quatro cidadãos comuns que se entregam por motivos distintos a impulsos violentos.

Os personagens, de diferentes regiões e idades, só têm suas trajetórias cruzadas por meio de alguns detalhes – como o sugestivo final cíclico -, o que evita um impróprio discurso de causa e consequência e acaba por traçar um panorama desolador daquela sociedade. A cena em que uma mulher é surrada por não tratar seu corpo como uma mercadoria é a mais simbólica de uma obra em que o dinheiro é um elemento central, aquele que mais explicita o impasse ideológico e social que o país enfrenta. Leia a crítica completa

5 – O Mestre, de Paul Thomas Anderson

Dono de uma filmografia pequena e invejável, com obras como Boogie Nights, Magnólia e Sangue Negro, o norte-americano Paul Thomas Anderson acertou mais uma vez em O Mestre, filme que se baseia no surgimento da Cientologia. O duelo de atuação dos ótimos Joaquin Phoenix e Phillip Seymour Hoffman é essencial para um filme que tem como eixo esse misto de atração e repulsão que os personagens sentem um pelo outro.

4 – Azul é a Cor Mais Quente, de Abdelatiff Kechiche

Se há algum tipo de voyeurismo em Azul é a Cor Mais Quente ele está presente na maioria dos planos que compõem as quase três horas de filme, e não apenas nas já famosas cenas de sexo entre as personagens. Kechiche utiliza predominantemente planos fechados (primeiros e primeiríssimos planos) que forçam a proximidade do espectador com os personagens e captam os menores detalhes: uma boca aberta, um lábio sujo por molho vermelho, uma lágrima, um catarro. Pode-se até questionar as escolhas do diretor, mas não há como negar que ele é coerente com o conceito estético que adota. Leia a crítica completa

3 – Era Uma Vez em Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan

A trama desse filme turco poderia ser mostrada por outros diretores em menos de dez minutos, mas Ceylan usa a história simples da procura noturna por um corpo assassinado para realizar um sutil e ao mesmo tempo profundo estudo sobre a natureza humana. O mistério principal é o que menos importa ao diretor, que demonstra um controle admirável sobre o tempo da narrativa.

2 – O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

Logo no início da produção, imagens antigas em preto e branco mostram um antigo engenho no qual a escravidão estava em prática, com a nítida separação entre casa-grande e senzala. Voltando ao tempo presente, e focando suas ações em uma rua de classe média do Recife, o filme mostra como os resquícios do passado escravocrata brasileiro ainda interferem em nosso cotidiano.

Para isso, Kleber Mendonça Filho abre mão de qualquer recurso didático, como a tão usada narrativa em off, e abre espaço para que o espectador interprete de seu modo as sutilezas e ironias dessa história aparentemente simples. A direção, do mesmo modo, é sóbria e realista, apostando em planos predominantemente longos e estáticos que fazem com que o público adentre a rotina dos personagens e se familiarize com ela. Leia a crítica completa

1 – Tabu, de Miguel Gomes

Depois do ótimo Aquele Querido Mês de Agosto, o português Miguel Gomes se consolida como um dos diretores mais interessantes da atualidade com essa peculiar obra-prima. Mantendo o humor peculiar do filme anterior, o diretor constrói uma história que tem como eixo central a memória, seja ela pessoal ou coletiva – incluindo aí a do próprio Cinema.

As recordações da juventude de Aurora constroem a segunda parte do filme de maneira original, com os diálogos sendo suprimidos por causa da falta de alcance da memória. Desse modo, vemos um exótico filme “mudo” (apesar da trilha e da narração em off), que homenageia os antigos filmes de aventura passados na África, reflete sobre a visão eurocêntrica da colonização africana e traz luz à melancólica existência da personagem em seus últimos anos de vida.

Menções Honrosas (filmes que não estão na lista, mas também se destacaram):

– A Cidade é Uma Só?, de Adirley Queirós

– A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino

– Um Estranho No Lago, de Alain Guiraudie (leia a crítica aqui)

– Killer Joe, de William Friedkin

– Las Acacias, de Pablo Giorgelli

– La Jaula de Oro, de Diego Queimada-Díez

– A Caça, de Thomas Vinterberg

– São Silvestre, de Lina Chamie

– Pietà, de Ki-Duk Kim (leia a crítica aqui)

– O Que Se Move, de Caetano Gotardo (leia a crítica aqui)

– Reality, de Matteo Garrone (leia a crítica aqui)

*ATUALIZAÇÃO (10/01/2014): Depois de assistir a Antes da Meia-Noite coloco o filme de Richard Linklater na sétima posição da lista, o que empurra Tatuagem para o grupo de menções honrosas.

Crítica: Eu e Você

Tags

, , , , , , , ,

Há alguma coisa no olhar de Lorenzo (Jacopo Olmo), protagonista de Eu e Você, que lembra o Alex (Malcolm McDowell) de Laranja Mecânica, obra-prima de Stanley Kubrick. Talvez isso se deva apenas aos seus olhos claros, mas não deixa de haver uma ligação entre personagens de filmes completamente diferentes entre si: ambos são jovens insatisfeitos que buscam caminhos distintos para externar essa inadequação em relação ao mundo – Alex através da ultraviolência e Lorenzo, por meio do isolamento.

O protagonista do novo filme do veterano diretor italiano Bernardo Bertolucci apresenta dificuldades para se relacionar com os colegas da escola e não parece nada interessado em aumentar o seu grau de sociabilidade. Lorenzo tem a ligação materna como sua relação social mais forte, demonstrando inclusive fortes resquícios edipianos. Não surpreende, portanto, a sua atitude em relação a uma viagem escolar que a mãe insiste que ele faça: baseado em uma mentira, o personagem consegue ao mesmo tempo agradar à matriarca e se ver livre das obrigações sociais, optando por passar uma semana sozinho no porão de seu próprio prédio.

Bertolucci utiliza vários simbolismos para transmitir o caráter antissocial de Lorenzo. Ele se enrola em uma cortina como se quisesse se esconder dos outros, anda em direção contrária à dos colegas de escola e compra um formigueiro que, quando se quebra, lembra a sua recusa em cumprir o papel pré-determinado que a sociedade espera dele. Finalmente, o porão surge como local de fuga e separação do mundo exterior, no qual ele poderá ouvir as suas músicas e ler seus livros sem ser incomodado por ninguém.

Quando Olívia (Tea Falco), meia-irmã que não vê Lorenzo há anos, aparece para buscar alguns objetos pessoais, o mundo particular do protagonista começa a ruir. Não sem resistência, a personagem acaba ficando no porão por alguns dias, motivada por uma crise de abstinência de heroína. É a partir daí que o conceito de alteridade, do entendimento de que a existência individual e social depende do contato com o outro, passa a fazer parte – de forma imposta pelas circunstâncias, é verdade – da vida do personagem.

As semelhanças entre esses dois outsiders é ressaltada por um trabalho artístico antigo de Olívia, “Eu Sou Um Muro”, que expressa bem essa vontade de se desmaterializar, de ficar alheio a qualquer tipo de pressão externa. A mensagem antiindividualista e humanista fica clara, e poderia até ser menos “mastigada” para o espectador, ao passo que a direção de Bertolucci, embora competente, não traz grandes lampejos de criatividade.

A clara exceção fica por conta de uma das cenas mais bonitas de 2013: a dança de Olivia e Lorenzo ao som de Ragazzo Solo, Ragazza Sola, versão italiana da música Space Oddity, de David Bowie. Depois de passar todo o filme ouvindo músicas em seu fone de ouvido da mesma maneira egoísta com que se mantém afastado das pessoas, o protagonista finalmente compartilha com alguém não só um som, mas um instante de comunhão, de identificação com o outro. É um grande momento audiovisual, digno da carreira de Bertolucci.

Nota: 7,0/10

Crítica: Um Estranho No Lago

Tags

, , , , ,

Um estacionamento, um bosque, uma praia de nudismo. Em um verão qualquer no litoral francês, esses cenários bem delimitados servem como pano de fundo para uma história em que homens gays igualmente isolados, marginalizados, buscam companhia para saciar os seus desejos sexuais. O amor ou qualquer outra forma de sentimento recíproco ficam em segundo plano na maior parte dos relacionamentos mostrados em Um Estranho No Lago, filme de Alain Guiraudie que venceu o prêmio de direção na mostra Um Certo Olhar no último Festival de Cannes e chegou recentemente aos cinemas brasileiros.

Franck, o protagonista da trama, está também à procura de prazer, mas adota uma postura mais seletiva. Em uma das suas idas à praia ele conhece Henri, um senhor de meia-idade que vai todos os dias ao local, mas fica isolado dos demais frequentadores. Henri é também um solitário, mas não vê mais o sexo como um caminho para diminuir sua angústia. Já Frank não consegue esconder a atração física que sente por Michel, homem com bigode à la Freddie Mercury que aparece na praia em companhia de outro rapaz.

Com exceção das conversas entre Franck e Henri, o que há na maior parte do filme são cenas de procura e consumação do sexo. Superficialmente, alguém pode enxergar o filme como um pornô gay, já que ele não se inibe ao mostrar boquetes, pênis gozando e outras coisas mais. No entanto, uma análise mais interessante pode ser realizada quando entendemos a repetição não como um meio para chocar o espectador, mas, pelo contrário, como um modo de banalizar o ato sexual a tal ponto que, de tão mecânico, ele perde sua força e se torna uma forma de externar o vazio daqueles personagens.

Alain Guiraudie utiliza planos recorrentes, como aquele do estacionamento, para enfatizar essa rotina monótona e pontuar pequenas mudanças. A fotografia também é importante para transmitir, sem a necessidade de palavras, elementos importantes para a narrativa, como nas passagens noturnas em que o rosto de Michel aparece completamente imerso em sombras e o de Franck ainda é iluminado parcialmente.

O ponto de virada a partir do qual o filme se engrandece mostra, através de uma tomada com câmera subjetiva, um acontecimento que em muitos outros filmes seria o mistério principal. Mas a Guiraudie interessa mais o estudo psicológico de seu protagonista do que propriamente um suspense tradicional. Até por isso, a presença de um investigador um tanto quanto inverossímil não chega a interferir na análise do filme como um todo.

O que importa em Um Estranho no Lago é essa ambiguidade entre desejo sexual e morte, entre mistério e excitação. É aí que as repetitivas cenas de sexo ganham importância e são ressignificadas, notadamente através da inteligente cena final. Pois enquanto Henri afirma em determinado momento que achou o que queria – no caso a amizade com Franck –, o protagonista transmite a mesma sensação na sequência derradeira do filme, quando o vazio de sua existência solitária torna-se a opção menos desejada.

Nota: 8,0/10

Crítica: Um Toque de Pecado

Tags

, ,

As contradições inerentes à China atual são o principal tema do cinema de Jia Zhang-Ke. Seja em documentários (Memórias de Xangai) ou filmes de ficção (Em Busca da Vida), os impactos da adesão do país à economia de mercado e à lógica do capitalismo mais extremo entram em choque com as práticas de uma cultura milenar e de um ideal comunista paradoxal e corrompido. Em Um Toque de Pecado, o diretor segue um caminho coerente ao retratar quatro histórias de violência que expõem as fraturas de um país em constante transformação.

Há o caso de um minerador que não aguenta mais a corrupção e a ostentação dos líderes locais e, em seu dia de fúria, sai à caça dos “animais” responsáveis por sua opressão; de um homem que volta ao seu pacato vilarejo e decide cometer pequenos delitos para ajudar a família; de uma recepcionista humilhada por um dos clientes do local onde trabalha; e, por fim, de um jovem que, após um acidente de trabalho, decide mudar de cidade para buscar uma condição de vida melhor.

Ao optar por retratar as histórias de modo sucessivo, e não paralelo, o diretor evita uma falsa ideia de causa e consequência presente nos piores filmes do mexicano Alejandro González Iñárritu. Jia faz sutilmente a ligação entre os personagens, utilizando para isso elementos como as folhas verdes vistas no letreiro inicial, um caminhão de tomate tombado e uma foto de um dirigente. O retrato de personagens de diferentes regiões com idades decrescentes (do mais velho para o mais jovem) e o recomeço de um ciclo no final do filme são modos que o cineasta encontra para mostrar a abrangência dos problemas retratados, que antes de tudo são oriundos não de indivíduos, mas de uma sociedade problemática.

Evitando movimentos de câmera desnecessários, Jia narra as histórias de modo seco, quase documental, com exceção talvez da inspiração em filmes de artes marciais trazida no episódio da recepcionista. Esse expediente torna as humilhações sofridas pelos personagens, e a posterior decisão pela violência, ainda mais impactantes.

Algumas passagens se destacam: o cavalo que empaca, é maltratado pelo dono e, quando tem seu opressor eliminado, volta a caminhar normalmente (metáfora sobre os trabalhadores?); o homem que se sente entediado em sua vila, traz em seu gorro uma marca da influência externa e acha o celular mais perigoso que o revólver; e a mulher que leva uma surra de dinheiro por não tratar seu corpo como uma mercadoria.

Essa última cena é a mais simbólica de um filme que tem como principal tema não a violência em si, mas as causas que levam cidadãos perfeitamente comuns a se entregarem a ela. Nesse sentido, seja pela ostentação, pela escassez ou pela corrupção, o dinheiro surge como um elemento recorrente de discórdia, aquele que melhor expõe o impasse que caracteriza a atual situação chinesa.

Nota: 8,5/10 

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais

Crítica: Azul é a Cor Mais Quente

Tags

, , , ,

Os títulos do vencedor do prêmio principal do Festival de Cannes de 2013 trazem, tanto na versão francesa (A Vida de Adèle – Capítulos 1 e 2) quanto na americana (Azul é a Cor Mais Quente, mesmo nome da HQ em que ele se baseou), referências importantes ao filme de Abdellatif Kechiche, que chegou recentemente aos cinemas brasileiros.

A menção aos capítulos parece falha, pois não há nenhuma divisão clara delimitando a obra, mas ela transmite de forma correta a ideia de um recorte temporal da vida da protagonista. Já o destaque dado ao azul se justifica porque, no longa-metragem, a cor adquire um simbolismo que permeia toda a história e reflete o estado de espírito da personagem principal ao atingir o êxtase amoroso.

Adèle (Adèle Exarchopoulos, excepcional) é uma adolescente que não foge muito ao padrão de sua idade. Insegura, ela se relaciona com um rapaz mais velho muito mais pela insistência do seu grupo de amigas do que por vontade própria. Em oposição ao coletivo há uma individualidade ciente de um vazio interno e da necessidade de autodescobrimento. É nesse contexto que Emma (Léa Seydoux), ou melhor, o azul, entra na sua vida. Um simples olhar para uma desconhecida de cabelo azulado que passa na rua faz Adéle se encantar primeiro pela cor, pelo sentimento que ela desperta nela.

Dominado pelo azul antes mesmo do encontro com Emma, o quarto da protagonista pode ser visto como um local íntimo, livre de influências externas, que atesta uma vontade particular de Adèle antes mesmo de ela descobri-la e serve como palco para a maturação desse desejo antes de ele se concretizar (como na cena de masturbação). Pouco depois, a exteriorização desse sentimento faz com que a cor passe a ser utilizada mais frequentemente como uma maneira de traduzir a subjetividade emocional da personagem.

Pode-se citar como exemplos desse uso o banco azul em que Adèle, já influenciada pela visão de Emma, termina o relacionamento com o rapaz; o aumento do uso da cor no vestuário da protagonista; e a presença excessiva do azul em lugares como a escola da personagem. Quando o padrão se rompe, detalhes igualmente importantes são notados: a mudança de cor do cabelo de Emma prenuncia um esfriamento na relação com Adèle; a iluminação sépia em um encontro amoroso denota um tipo de relacionamento diferente do anterior; a roupa marrom de Adèle indica, em determinado momento, a sua disposição de esquecer um período, e o posterior uso de um vestido azul, por outro lado, demonstra uma busca da personagem por recuperar algo que se perdeu.

Se há algum tipo de voyeurismo em Azul é a Cor Mais Quente ele está presente na maioria dos planos que compõem as quase três horas de filme, e não apenas nas já famosas cenas de sexo entre as personagens. Kechiche utiliza predominantemente planos fechados (primeiros e primeiríssimos planos) que forçam a proximidade do espectador com os personagens e captam os menores detalhes: uma boca aberta, um lábio sujo por molho vermelho, uma lágrima, um catarro. Pode-se até questionar as escolhas do diretor, mas não há como negar que ele é coerente com o conceito estético que adota.

Outro ponto importante no filme é o modo com que ele lida com o tempo, matéria-prima vital para o processo de amadurecimento da protagonista. A percepção de que o tempo passou rápida ou lentamente é comum em nosso dia a dia, e Kechiche a utiliza como elemento subjetivo na trajetória de Adèle. Para isso, as elipses (saltos no tempo) são fundamentais, já que não há nenhuma demarcação temporal das mudanças que ocorrem com os personagens. As coisas simplesmente acontecem, assim como na vida.

Nesse aspecto o filme se aproxima de Adeus, Primeiro Amor, de Mia Hansen-Love, que tem como centro a forte paixão de uma adolescente – com a diferença de que ela é heterossexual. Nas duas obras os detalhes dizem muito sobre o processo de amadurecimento das protagonistas, seja através de mudanças no corte ou na cor do cabelo, no vestuário, nos pequenos gestos… Não são necessárias palavras para expressar a passagem do tempo, nem tampouco para sugerir sutilmente elementos como, no caso do filme de Kechiche, o ciúme entre as protagonistas e o desgaste trazido pelas diferenças culturais e sociais entre elas.

Azul é a Cor Mais Quente se apoia nessa possibilidade paradoxal ao buscar incessantemente a intimidade, a essência de uma pessoa e de um estado de espírito que, por outro lado, é fugidio e escapa justamente quando o supomos eterno.

Nota: 8,5/10

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais

Crítica: Além da Fronteira

Tags

, , , , , ,

Muito se critica, geralmente com razão, as traduções dos títulos dos filmes estrangeiros que são lançados no Brasil. No caso de Além da Fronteira, longa-metragem de estreia do diretor Michael Mayer, a tradução brasileira é mais significativa a respeito da trama do que o nome original, Out In The Dark (Fora No Escuro, em tradução literal). Isso porque a obra de Mayer coloca o seu protagonista em uma linha tênue diante de várias dicotomias: sociedade machista x exposição da homossexualidade; essência x aparência; Israel x Palestina; submissão x conflito; etc.

Nimr (Nicholas Jacob) é um jovem palestino que conseguiu visto para entrar em Israel, onde faz um estágio no ramo da psicologia. Em uma de suas escapadas noturnas para o país vizinho ele conhece Roy (Michael Aloni), um advogado israelense por quem se apaixona. Revelar o caso e a sua orientação sexual para a família, porém, está fora de cogitação, já que o conservadorismo religioso e o conflito político estão longe de serem desafiados pelo protagonista, que ainda tem um irmão, Nabil (Jamil Khoury), ligado à resistência armada palestina. Antes decidido a conseguir uma bolsa de estudos nos EUA e deixar para trás os diversos tipos de conflitos que enfrenta em sua terra natal, Nimr vê o novo relacionamento como um motivo para permanecer no local.

Quem viu Tatuagem, filme de Hilton Lacerda, deve achar as cenas de relacionamento homossexual de Além da Fronteira muito bem comportadas. O sexo é filmado de modo distante e rápido, e há um excesso de pudor que leva, por exemplo, os dois namorados a mergulharem de cueca em uma piscina, para evitar maiores constrangimentos ao “público médio”. A sensação de intimidade transmitida pelos atores também passa longe da cumplicidade existente entre Irandhir Santos e Jesuíta Barbosa no longa-metragem brasileiro.

Embora gere um certo distanciamento do espectador, essa atitude não chega a comprometer o filme, que usa o relacionamento amoroso quase como um pretexto para que conflitos até então adormecidos venham à tona. Nesse sentido, é interessante perceber como a disputa histórica entre israelenses e palestinos perde o sentido quando pessoas dos dois países se identificam como vítimas de um mesmo preconceito, de um conflito dentro de outro conflito. Como diz Roy de maneira debochada, “um pau é um pau” em qualquer lugar.

Utilizando muitas vezes a câmera na mão e planos fechados que sugerem a gradual sensação de aprisionamento do personagem e trazem suspense à obra, o diretor Michael Mayer fez um filme que, para o bem e para o mal, lembra muito o afegão Wajma, que foi exibido recentemente na 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Nos dois filmes o estudo aparece como uma maneira de os protagonistas vislumbrarem um futuro diferente (Nimr estuda psicologia e quer ir para os EUA; Wajma acabou de ser aprovada na faculdade de Direito); a aparente modernidade é soterrada por hábitos e valores arcaicos (ambos são acusados de desonrar a família: Wajma pelo sexo antes do casamento e pela gravidez; Nimr por ser homossexual); a descoberta de suas “infrações” – na visão da sociedade machista, é claro – gera um conflito que não é seguido por um confronto direto com os familiares (os protagonistas, assim como seus filmes, não chegam a ser transgressores: Wajma evita desafiar o pai e Nimr, o irmão); e, no fim, o único caminho que resta, tanto no filme afegão quanto no israelense, é a fuga, atestado maior da intolerância entre as pessoas.

Nota: 7,0/10

Crítica: Tatuagem

Tags

, , , , , ,

Na primeira aparição de Fininha (Jesuíta Barbosa) em Tatuagem, estreia de Hilton Lacerda na direção de filmes de ficção, o personagem é enquadrado de um modo que faz com que as barras de um beliche se assemelhem, em um primeiro momento, às grades de uma prisão. Logo descobrimos que aquele local é um alojamento do exército, e não um centro de detenção, mas a discussão sobre a liberdade em seus mais variados níveis (político, artístico, individual, sexual), seja ela metafórica ou não, permeará toda a obra.

O filme se passa em 1978, ano em que o Brasil ainda tinha o regime militar no poder, mas no qual já se começava a vislumbrar um processo de abertura política rumo ao retorno da democracia. Nesse contexto, um grupo de artistas faz apresentações irreverentes que vão de encontro à moral regente na época. Seu líder, Clécio (Irandhir Santos), conhece Fininha (Jesuíta Barbosa), um cadete do Exército, e desse encontro surge um relacionamento que os une.

A história se divide basicamente em três núcleos distintos: o do grupo Chão de Estrelas, que engloba as apresentações teatrais e a vivência em uma espécie de república; o do quartel onde Fininha mora; e o da casa da família de Fininha no interior de Pernambuco. O trabalho de direção de arte e figurino ajuda a diferenciar e a caracterizar cada um desses ambientes: as cores fortes e a “bagunça organizada” da trupe contrastam com o ambiente asséptico e simétrico do Exército e com a casa reduzida e decorada com objetos religiosos na qual Fininha aparece cercado/oprimido por mulheres.

Não por acaso, a construção desse universo particular do grupo de artistas deve muito à diretora de arte Renata Pinheiro, que realizou algo semelhante no que concerne à ambientação em Amor, Plástico e Barulho, seu filme de estreia na direção, que trata sobre a cena da música brega em Pernambuco.

Como a cidade propriamente dita só é vista tangencialmente, e um choque efetivo da trupe com a ditadura é mostrado apenas na sala de um censor, o grupo se torna quase outro país, uma nova possibilidade de futuro que, em algum momento, será confrontada.

Em um plano mais superficial, o conflito se restringe ao encantamento de Fininha pelo novo mundo descoberto, algo que provoca um amadurecimento que só virá através de escolhas que fatalmente lhe trarão consequências. As possibilidades de leitura do filme, no entanto, são ampliadas quando pensamos que ele trata da expectativa acerca de um futuro que nada mais é do que o nosso presente, e que essa discussão pode englobar temas diversos como política, valores da sociedade e o próprio fazer cinematográfico.

Esse último aspecto é tratado através da inclusão do personagem do professor Joubert (Sílvio Restiffe), um intelectual que grava filmes em Super-8 e busca um novo tipo de linguagem através da experimentação. Isso acaba levantando uma indagação indireta a respeito da evolução da produção audiovisual brasileira daquela época até os tempos de hoje, notadamente a respeito da falta de originalidade e ambição naquilo que é realizado em grande parte dos filmes que obtêm sucesso de bilheteria atualmente, a exemplo das “globochanchadas” (comédias com estética televisiva e atores conhecidos de outras mídias, geralmente da TV Globo).

Sem deixar o discurso libertário se transformar em exibicionismo estéril, o diretor Hilton Lacerda compõe planos belos e simples, como aquele em que Clécio parece estar se apresentando apenas para Fininha, ou aquele em que o líder da trupe tem uma conversa séria com Paulete (Rodrigo Garcia) e o zoom da câmera nos aproxima aos poucos dos personagens.

Contando ainda com um elenco inspirado – com Irandhir Santos na melhor atuação na carreira e Jesuíta Barbosa fazendo um impactante primeiro papel no Cinema -,Tatuagem é um filme coerente com seu próprio discurso, surgindo como uma afronta aos mais variados tipos de conservadorismo sem a necessidade de soar panfletário. É, em suma, um dos melhores filmes brasileiros do ano.

Nota: 8,0/10 

* Texto originalmente publicado no site Cine Festivais

Balanço da (minha) 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Tags

, , , , , , , , ,

Este blog experimentou um período de inatividade nas últimas semanas por causa da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Fiz a cobertura do evento com mais dois amigos para o Cine Festivais, um site que criei com o intuito de realizar coberturas jornalísticas de festivais e premiações de cinema.

Assisti a mais de 40 filmes nessa Mostra e relaciono abaixo as minhas avaliações para cada um deles. As obras que receberam críticas minhas estão com links para os textos publicados no Cine Festivais. Há ainda uma lista com as entrevistas que realizei durante o evento.

Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-Ke

Cena de Um Toque de Pecado

Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-Ke – 8,5

Cães Errantes, de Tsai Ming Liang – 8,5

Lições de Harmonia, de Emir Baigazin – 8,0

O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra – 8,0

Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho – 8,0

Inside Llewyn Davis, de Joel e Ethan Coen – 8,0

Child’s Pose, de Calin Peter Netzer – 8,0

Amor, Plástico e Barulho, de Renata Pinheiro – 8,0

Os Anos Felizes, de Daniele Luchetti – 8,0

De Menor, de Caru Alves de Souza – 7,5

Ana Arabia, de Amos Gitai – 7,5

The Wind Rises, de Hayao Miyazaki – 7,5

Que Estranho Chamar-se Federico – Scola Conta Fellini, de Ettore Scola – 7,5

Pais e Filhos, de Hirokazu Kore-Eda – 7,5

Solo, de Guillermo Rocamora – 7,5

Las Analfabetas, de Moisés Sepúlveda – 7,5

Outro Sertão, de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela – 7,0

A Bruta Flor do Querer, de Dida Andrade e Andradina Azevedo – 7,0

Confissão de Assassinato, de Jung Byung-Gil – 7,0

Ilo Ilo, de Anthony Chen – 7,0

Grand Central, de Rebecca Zlotowski – 7,0

Nathan, o Sábio, de Manfred Noa – 7,0

Bertolucci por Bertolucci, de Luca Guadagnino e Walter Fasano – 7,0

Wajma, de Barmak Akram – 7,0

Os Amigos, de Lina Chamie – 7,0

Mundial – As Maiores Apostas, de Michalz Bielanski – 7,0

Prince Avalanche, de David Gordon Green – 6,5

Double Play: James Benning e Richard Linklater, de Gabe Klinger – 6,5

Exilados do Vulcão, de Paula Gaitán – 6,0

O Militante, de Manolo Nieto – 6,0

A Filha, de Thanos Anastopoulos – 6,0

Amar, de Slawomir Fabicki – 6,0

Voyage, de Scud – 6,0

Como Um Leão, de Samuel Collardey – 6,0

Filmes hors concours (obras antigas que foram exibidas com cópias restauradas):

Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho – 10

Barry Lyndon, de Stanley Kubrick – 9,0

Era Uma Vez em Tóquio, de Yasujiru Ozu – 9,0

Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick – 8,0

O Sol Por Testemunha, de René Clement – 7,5

A Morte Passou Por Perto, de Stanley Kubrick – 6,5

Curtas de Stanley Kubrick – ver notas no link

Lista de outros conteúdos:

Entrevista com Maeve Jinkings, atriz de Amor, Plástico e Barulho

Entrevista com Moisés Sepúlveda, diretor de Las Analfabetas

Entrevista com Fernando Coimbra, diretor de O Lobo Atrás da Porta

Matéria com Christiane Kubrick, viúva de Stanley Kubrick

Entrevista com Sérgio Rizzo sobre Stankey Kubrick

Crítica: Blue Jasmine

Tags

, , , , ,

Um dos nomes que mais ganhou notoriedade com a crise econômica iniciada nos EUA em 2008 foi o do megainvestidor Bernie Madoff. Empresário bem-sucedido conhecido por suas ações filantrópicas na comunidade judaica, ele acabou preso pelo FBI depois que uma fraude bilionária de sua autoria foi descoberta.

Pode-se ver em Madoff o modelo para o personagem Hal (Alec Baldwin) em Blue Jasmine, novo filme de Woody Allen. A derrocada do golpista, porém, não é o que mais interessa ao diretor americano, que volta seu foco para a difícil adaptação de Jasmine (Cate Blanchett), ex-mulher de Hal, a uma vida sem o luxo e as facilidades trazidas pelo dinheiro, coisas que ela experimentou durante muitos anos.

As sofisticadas roupas, as joias e a mala (“Louis Vuitton!”) utilizadas por Jasmine no começo do filme mostram que a ostentação é algo natural para a personagem. Some isso à compra de uma passagem de primeira classe e ao desajuste emocional exposto logo de cara por um monólogo – que ela pensa ser uma conversa – com uma senhora, e já temos indícios de que o novo período na vida da protagonista não será fácil.

Sem dinheiro após o seu marido perder todas as economias e acabar preso, Jasmine viaja de Nova York a San Francisco para ficar hospedada na casa da irmã Ginger (Sally Hawkins), a quem nunca teve apreço especial quando levava uma vida luxuosa.

Prescindindo de palavras, Woody Allen mostra sucintamente o contraste entre passado e presente na história. Exemplos disso são os planos gerais que diferenciam o modesto lar de Ginger da antiga mansão da protagonista e a rápida panorâmica da casa de irmã (movimento de câmera que demonstra como, para Jasmine, o apartamento não passava de um cubículo).

A montagem paralela que alterna acontecimentos de diferentes tempos é um recurso muito utilizado durante todo o filme, e tem aqui um propósito narrativo que conhecemos no decorrer da obra, já que as cenas do passado se revelam como as recordações de Jasmine, o que dá a elas uma característica subjetiva que justifica a não-linearidade adotada.

Enquanto não consegue esquecer um passado que, em vários aspectos, parece uma longa e amarga mentira, Jasmine busca alternativas para seguir em frente. Mesmo falida, ela recusa trabalhos que não estariam “à altura dela” e só aceita uma posição desse tipo quando tem como objetivo alcançar um emprego ”respeitável” – tudo isso, claro, na visão elitista da protagonista.

Fosse uma atriz com menos talento no papel de Jasmine, possivelmente a atitude esnobe e desagradável da personagem causaria apenas repulsa nos espectadores. A atuação de Cate Blanchett, porém, traz um misto de fragilidade e desespero que faz dela uma figura digna de pena, e que, portanto, deixa o papel de vilã e se torna uma vitima não só das circunstâncias, mas principalmente dela mesma.

Acontece que, por não ter feito esforço algum para atingir o status financeiro e social do passado, Jasmine enxerga aquilo como um direito que precisa recuperar de alguma forma. Assim, nada mais coerente que, na primeira possibilidade de ascensão, ela escolha o caminho mais curto, único que conhecera na vida: a submissão. Nesse sentido, a cena em que a protagonista conhece um possível pretendente e se rebaixa literalmente a ele ao se sentar numa cadeira é exemplar.

Jasmine é parente cinematográfica de Norma Desmond, personagem imortalizada por Gloria Swanson na obra-prima Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder. De diferentes maneiras – Norma pelo trabalho como atriz do cinema mudo e Jasmine através do casamento –, elas atingiram o auge de suas vidas e depois se transformaram em figuras patéticas por não saberem como lidar com a queda posterior.

Woody Allen – que mostra com Blue Jasmine que ainda é um cineasta capaz de realizar grandes filmes, como já fizera recentemente com Meia-Noite em Paris (2011) – faz relação com a obra de Wilder inclusive no final, ao enquadrar a protagonista em um primeiríssimo plano desolador. Para que a referência fosse mais explícita, só se Cate Blanchett saísse do papel e parafraseasse a famosa fala da personagem de Gloria Swanson, dizendo: “All right, Mr. Allen. I’m ready for my close-up”.

Nota: 8,0/10