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Em Philomena, novo filme de Stephen Frears, a protagonista homônima vivida por Judi Dench é uma senhora irlandesa que, décadas após ter seu filho vendido para adoção por um convento, ganha a ajuda de um conhecido jornalista para descobrir o paradeiro do rapaz. A pesada premissa, baseada em fatos reais, pode enganar quem espera por uma obra excessivamente melodramática, já que, surpreendentemente, o que predomina é um tom leve e bem-humorado que apenas eventualmente dá lugar à seriedade inerente ao tema.

Uma explicação para esse fato pode estar na maneira com que Dench interpreta a protagonista. Acostumada com personagens fortes e poderosas, como a M da franquia 007, a atriz inglesa faz de Philomena uma mulher simples, ingênua e pouco culta que conquista o espectador pelo carisma e pela vivacidade. O contraste e as mudanças geradas pelo encontro dela com o racional, intelectual e introvertido jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan) são o centro do filme de Frears, que demonstra maior interesse pelos traços humanos e pela evolução dos personagens do que pelas questões históricas, políticas e religiosas levantadas pela trama.

Antes de a dinâmica entre os dois personagens principais se impor, o roteiro tropeça ao apresentar de maneira apressada e pouco inventiva tanto Philomena quanto Martin. O sofrimento de décadas da protagonista e a sua luta silenciosa para localizar o filho são minimizadas pela escolha do diretor de não mostrar a conversa em que ela revela o assunto para a filha; pior ainda é o modo tolo e expositivo encontrado para demonstrar a razão para Martin aceitar investigar e escrever um livro sobre aquela história, o que resulta na fala mais constrangedora do filme (“Você acha que eu devo escrever histórias de interesse humano?”).

É verdade que, mesmo em sua principal reviravolta (“Quero saber se ele pensava em mim”), o roteiro soa previsível, mas o filme mostra a que veio principalmente quando o afiado humor inglês vem à tona. A reiteração de piadas como Oxbridge, as longas falas de Philomena sobre livros (“É como se eu já tivesse lido”) e os clichês (“um em um milhão”) usados como forma de sociabilidade são engraçados e, ao mesmo tempo, colocam o espectador no lugar de Sixsmith: primeiramente rimos dos modos simples de Philomena, mas aos poucos somos levados a questionar nossos preconceitos e a admirar a maneira como ela encara a vida.

O filme revela, então, uma despretensão parecida com a da protagonista: embora envolvido com questões macro, como os atos imorais da Igreja Católica, ele prefere destacar o micro, o papel fundamental do indivíduo longe da influência das instituições. Não à toa, Philomena segue muito mais os preceitos de compaixão e misericórdia de sua religião do que as líderes do convento.

Entre o riso e o choro, o filme de Stephen Frears opta pelo primeiro, e tem na interpretação sensível de Dench a personificação perfeita desse humanismo proposto pelo diretor.

Nota: 6,5/10

*Texto originalmente publicado no site Cine Festivais

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