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Por que se fazer um filme mudo e em preto e branco em pleno século XXI, justamente no momento em que o 3D virou técnica recorrente e que tecnologias como o motion capture (de produções como O Senhor dos Anéis e As Aventuras de Tintim) tendem a ser cada vez mais utilizadas? Em uma primeira análise, podemos pensar que as escolhas do diretor Michel Hazanavicius em O Artista servem para nos lembrar que, independentemente da quantidade de efeitos especiais, a qualidade central de um longa-metragem sempre estará relacionada a uma história bem contada, fato que não mudou nos mais de 80 anos que separam o nascimento do cinema falado e os dias de hoje. Nesse aspecto, os esforços do cineasta francês são mais do que bem-sucedidos, mas sua ambição parece parar por aí, o que o impede de realizar uma obra-prima.

O filme começa em 1927, ano em que seria lançado O Cantor de Jazz, primeiro exemplar sonoro da história do Cinema. Pouco antes desse acontecimento, que mudaria toda uma maneira de se fazer e pensar a Sétima Arte, somos apresentados a George Valentin (Jean Dujardin), astro do cinema mudo que se encontra no auge da popularidade. Porém, mal sabe ele que, meses mais tarde, sua carreira entraria em decadência pelo advento da nova tecnologia, a qual se recusa a aceitar. Por outro lado, vemos a ascensão de Peppy Miller (Berénice Bejo), fã de Valentin que vira estrela do cinema falado, mas que nunca esquece de sua maior inspiração artística.

Mesmo contando apenas com alguns letreiros para explicar os diálogos do filme, Hazanavicius desenvolve a narrativa com uma fluidez admirável e lembra que a imagem e a ação dos personagens podem dizer muito mais do que qualquer fala explicativa. Um belo exemplo deste aspecto se dá na cena em que, apenas através de créditos de filmes, ficamos sabendo sobre a rápida ascensão de Peppy Miller de figurante a protagonista. Outra opção acertada do cineasta acontece em uma sequência de sonho que ilustra a dificuldade de adaptação de Valentin à nova era do Cinema.

Deixando claro seu olhar de admiração em relação ao passado, o diretor demonstra todo o seu conhecimento sobre a história do Cinema ao realizar referências a filmes de diversas épocas. A cena de Cidadão Kane (1941, Orson Welles) em que a mudança de expressão de um casal durante seguidos cafés da manhã demonstra a decadência do relacionamento é repetida aqui por Valentin e sua mulher. Há também um momento inspirado que faz alusão a Forrest Gump (1994, Robert Zemeckis), e que é apenas outro exemplar das homenagens que enriquecem o filme sem torná-lo pedante, já que o entendimento da história não fica prejudicado para os espectadores que não conhecem os filmes citados.

Para ajudar ainda mais no tom nostálgico, a reconstituição da época em que se passa o filme é muito bem realizada, começando pela impecável fotografia em preto e branco, passando pelos figurinos utilizados e terminando na não menos notável direção de arte, que lembra Crepúsculo dos Deuses (1950, Billy Wilder) na reprodução dos velhos estúdios de Hollywood e da longa escada da mansão de Valentin. Há ainda uma belíssima trilha sonora, que detém parte dos méritos pelo bom andamento da produção.

No entanto, nada disso funcionaria se o elenco do filme não tivesse sido escolhido tão bem. Na pele do protagonista George Valentin, o francês Jean Dujardin resgata o carisma dos velhos astros do cinema mudo e transmite com êxito as características sedutoras, cômicas e depressivas do personagem. Já Berénice Bejo mantém o ótimo nível de atuação do parceiro ao se portar como uma verdadeira estrela da época, sem no entanto esconder em seus gestos os sentimentos que Miller possui por Valentin. Completando o trio principal aparece o simpático cão Uggie, fiel escudeiro do protagonista, que também participava de filmes mudos com o dono.

Os coadjuvantes também não deixam a desejar, e quem mais se destaca entre eles é o veterano John Goodman no papel de um produtor de Hollywood que possui muito mais poder que o diretor dos filmes que realiza, algo que era comum naquele período. Há ainda espaço para uma mínima e nada marcante participação de Malcolm McDowell, o eterno Alex de Laranja Mecânica (1971, Stanley Kubrick).

Com uma história muito bem contada, mas que não deixa de ser muito simples (o que não é necessariamente ruim), O Artista se torna agradável por tratar de valores universais, como a lealdade, o orgulho e a gratidão, trazendo em seu desfecho a velha mensagem de adaptação aos novos tempos. Entretanto, o filme não consegue ultrapassar a barreira imposta por seu artifício inicial e acaba sendo, no fim, apenas mais uma bela homenagem ao Cinema.

Nota: 7,5/10

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